Desmancha prazeresPor Abdul Cadre
Vou até à janela. Uma velhota tenta atravessar a rua, arrastando um cão pela trela. Um automobilista apressado buzina-lhe ferozmente e atira-lhe duas bocas foleiras.

Por Jornal Rostos
Indignem-se, dizem as correntes de mensagens que nos enchem a caixa do correio. E a gente faz forward, comodamente sentados. A superficialidade dum tempo sem tempo, a indignação digital, o carpir como quem mia na esperança de receber um carapau, a solidão disfarçada na ilusão de que o mundo está à escuta do que dizemos, falar para não estar calado, exigir dos outros a santidade banal e pós-moderna de enfeitar o mercado das palavras...
Vamos apodrecendo na vida adiada que nem a esperança concede. Esperamos sentados. Indignamo-nos sem consequência. Toda a nossa raiva se esgota quando agredimos o teclado e premimos o rato como se o estrangulássemos.
Olho as campas rasas do imenso cemitério do facebook e só me ocorre perguntar: há por aí algum corpo que ainda tenha sinais de vida?
Vou até à janela. Uma velhota tenta atravessar a rua, arrastando um cão pela trela. Um automobilista apressado buzina-lhe ferozmente e atira-lhe duas bocas foleiras. Deixo o mundo como está e volto indignado para o teclado.
Abdul Cadre













