Barreiro - Monsenhor Óscar Romero derrubado Imaginei teu corpo deitado no cimento frio e cinzento
Monsenhor Óscar Romero, um defensor da Liberdade e da Paz. Um homem cujo nome estava ligado aos conceitos da Teologia da Libertação, os mesmos valores que abraçaram os Padres Operários que ergueram a Igreja Paroquial do Lavradio, que tem como Padroeira Santa Margarida, legado de memórias inscritas na comunidade lavradiense.

Por Jornal Rostos
Nos anos 80, registou-se uma ampla transformação no espaço envolvente da Igreja do Lavradio, e, quando da cerimónia, presidida por Helder Madeira, então Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, ladeado pelo Padre Rodrigo ( que recebeu com entusiasmo a decisão) foi descerrada uma placa toponímica que atribuiu ao espaço envolvente da Igreja Paroquial do Lavradio, o nome de Monsenhor Óscar Romero.
Óscar Romero um nome inscrito na História mundial
Óscar Romero, para além da sua ligação teológica aos padres fundadores da Paróquia, (que o diga o Padre Constantino, que está algures por Setúbal), ´é um nome inscrito na História mundial, nas lutas pela Liberdade e pela Paz.
Na Igreja Católica, foi canonizado no dia 14 de outubro de 2018, pelo Papa Francisco.
Estátua de Óscar Romero ao lado de Martin Luther king
A Igreja Anglicana, colocou uma estátua de Óscar Romero na fachada da Catedral de Westminster, ao lado outras figuras cristãs, que marcaram o século XX, pelo seu envolvimento na defesa dos direitos humanos: Martin Luther King, Madre Teresa da Calcutá ou Dietrich Bonhoeffer.
E, salientar que, a data do assassinato de Monsenhor Óscar Romero foi escolhida, em 2010, pelas ONU – Nações Unidas - para ser celebrada mundialmente como o Dia Internacional pelo Direito à Verdade sobre as Violações dos Direitos Humanos e Dignidade das Vítimas.
Todos estes factos num concelho que tem inscrito na sua história o amor à Liberdade, deviam prevalecer para respeitar e manter viva a memória de Monsenhor Óscar Romero, como exemplo de humanismo para gerações actuais e futuras.
Estive ausente, por estes dias a celebrar os meus 50 anos de casamento e o aniversário da minha Lurdes. Estava por Évora e recebi uma fotografia da placa toponímica do Monsenhor Óscar Romero, abandonada, entre os resíduos da obra. Pensei vergonhoso. Hoje pela manhã, fui ver a obra de requalificação. Gostei do memorial dedicado à Igreja de Santa Margarida, que juntou os artefactos que estavam dispersos, numa obra escultórica de Pedro Miranda da Silva.
De pé, triste, olho o nome de Óscar Romero derrubado no chão, inerte, sem vida, esquartejado da memória do espaço envolvente da Igreja do Lavradio.
Ali está, sem dignidade, entre resíduos da obra. Assim como quem quer apagar o passado e deixar seu nome esvair-se no esquecimento. Tal como os seus assassinos dos anos 80. Destruir Óscar Romero. Apagar a memória, dos Padres Operários. Apagar o amor à Liberdade. Apagar o amor à paz. Apagar a memória da própria Igreja.
Recordo que já vi, em tempo idos, nos dias de Primavera, em Março, ser celebrado no Lavradio o homem e a obra de Monsenhor Óscar Romero. Recordando uma voz contra a exclusão. Uma voz contra a pobreza. Uma voz de Amor. Uma voz que está cada vez mais actual, num mundo que fomenta o ódio, os bons e maus.
Estava ali, naquele espaço envolvente, olhando a aquela placa toponímica, na minha imaginação observava um corpo estendido de braços abertos, derrubado em silêncio. Tantos assim na História.
Imaginei que enquanto se celebravam as memórias de Santa Margarida, num memorial de arte o canonizado Óscar, foi derrubado e empurrado para a vala comum. E recordei que Santa Margarida era uma Santa adorada por Joana d’Arc, outra figura santificada pela Igreja Católica, Padroeira de França, um símbolo da Liberdade e democracia, tal como Óscar Romero.
Olhei a placa toponímica e imaginei – Óscar Romero – caindo metralhado por balas de inimigos da Liberdade. Seu corpo baleado, junto ao altar, e seu sangue espalhou-se pelo mundo a jorrar sementes de Amor à humanidade.
Olhei a Placa toponímica e pensei, afinal, neste século XXI, de novo, foste derrubado, nas portas da tua Igreja. Sereno estás deitado com o teu nome a luzir no céu azul. Sorris. Talvez, esteja por lá a dizer: Perdoai-lhes…
Estou ali de pé e as palavras são emoções a fluir no meu corpo. Sabes Monsenhor, tu sabes, sabias que por muito que queiram. Ao longo de toda a história da humanidade, todos os que querem desconstruir as sementes da Liberdade e do Amor, não as matam porque, por cada flor derrubada, mil flores vão florir.
Monsenhor vais continuar a estar vivo entre nós, por ti, pelo Padre Rodrigo, pelo Padre Joseph (que me casou nesta Igreja, fez agora no dia 9 de outubro, 50 anos, e, ao jantar na minha casa, ofereceu-me um livro sobre a Teologia da Libertação). Toda esta memória merece respeito.
Olhei a placa toponímica e imaginei teu corpo deitado no cimento frio e cinzento. Hoje, como no passado jazes morto, no solo da tua Igreja, mas vivo nas memórias que escrevem futuro.
Teu corpo caiu. Tu continuas de pé…como referência da luta pelos Direitos Humanos. Uma luta actual.
Tua placa caiu. Tu continuas a ser referência na luta pela Liberdade e pela Democracia.
Sabes, tu sabes, sei que sabes não te apagam. Nem as balas que se cravaram no teu corpo silenciaram as tuas ideias.
Não chega, não, não chegam, actos de desconstrução da memória para apagar o teu nome e o teu contributo pela justiça, contra a violência, pela Paz, pela Liberdade, pelo Amor à humanidade.
Obrigado Óscar Romero. Obrigado Padres Operários.
António Sousa Pereira













