Saltar para o conteúdo
Inferências

Barreiro - QuotidianosUma paisagem marcada de memórias

Olho a paisagem marcada de memórias. Vejo as flores que começam a brotar numa paisagem verdejante. Escuto os sons da paisagem e encontro a esperança ao longe, no voo de uma gaivota!

4 min de leitura
Barreiro - Quotidianos Uma paisagem marcada de memórias

Por Jornal Rostos

As manhãs de sábado, normalmente, para mim, começam com uma ida ao Café Bar da SFAL. Uma rotina de muitos anos. Um encontro matinal que me permite cruzar com pessoas que fazem parte da minha vida.
Foi, aliás, através daquela colectividade que se abriram as portas que me integraram nesta comunidade, a minha segunda terra, aquela onde cresci e construi a minha vida, já lá vão mais de 40 anos.
O reencontro matinal, é vivido com troca de palavras, sorrisos, afinal, as coisas simples que, ao longo do tempo, forjam a palavra amizade.
É, de facto, isto a partilha dos dias. Ali encontro o pulsar da vida real. Feita, obviamente, de encontros e desencontros.
Gosto de entrar ali e sentir que estou na «minha casa» e dizer bem alto: «Bom Dia!».
O Lavradio é uma terra calma, que se transforma ao longo do tempo, lentamente, muito lentamente, vincando na memória as raízes de todas as experiências vividas. Sinto, que todas as ruas têm estórias para contar.
Ali, no Café Bar da SFAL, sentimos esse movimento do tempo. Nos cabelos brancos e nas ausências.
Recordamos, por vezes, nas conversas, aqueles que já não se encontram entre nós. Hoje, com a Leonor, veio à conversa o Alcides.

Saí. Na rua, três jovens conversavam, mesmo ao meu lado. Diziam, numa troca de opiniões, que os portugueses, no estrangeiro, são maus uns para os outros.
Na brincadeira intrometi-me na conversa e perguntei: “Só no estrangeiro?”. Eles sorriram.
Disse-lhe que, nós portugueses, vivemos num país que é lindo, com um bom clima, uma história milenária, mas, temos esse defeito, um pouco provinciano – “Falamos muito mal de nós mesmos! O que é português é sempre mau”.
Eles comentaram que, no estrangeiro, os portugueses são piores para os portugueses e voltaram a sorrir. Continuei o meu caminho, pensando nesta troca de palavras.
De facto, nós somos um povo marcado por uma dimensão de quem cresceu com as mãos na terra e os olhos no mar.
Na terra, descobrimos a força de um chão que é nosso, milenar, do qual não abdicamos e que nos deixa sempre a saudade do regresso.
Na terra, encontramos a relação de proximidade, as raízes dos dias, por isso, talvez por isso, olhamos muito para o próprio umbigo, e, nesse olhar, o outro é sempre o outro, mas ao mesmo tempo uma parte de nós, com quem partilhamos a energia da terra, as vivências comuns.
No mar, descobrimos que há mais mundo, um mundo que abre a porta à esperança, uma vontade enorme de sermos mais, e mais, rasgando as ondas.
No mar, descobrimos que há outros, que são diferentes, com outras formas de olhar os dias e viver o tempo, partimos e regressamos, porque sentimos a «saudade do regresso», nesse amor à terra. Uma terra que criticamos e amamos.
Por isso somos um povo que vai e está, vai na descoberta, regressa ao reencontro com as raízes que pulsam no nosso coração.
Parece que gostamos de nos autoflagelarmos. Porque será?

Encontrei a Dulce Reis, junto à entrada do Pingo Doce do Lavradio: “Bom Dia! Estamos a ficar velhos” – disse ela.
“Claro, longe vai o tempo que íamos fazer as farras para a Praia de Troia” – referi.
“Pois, hoje ficamos em casa com um chá e umas torradas” – retorquiu ela.
“É, assim, com a idade, procuramos viver outras coisas, há um prazer próprio de cada tempo da vida” – acrescentei.
Fico a pensar nos anos que passam, no tempo vivido e como as coisas mudam, mas, cá dentro, há algo que está sempre igual, sempre novo...escreve-se esperança!

Olho a paisagem marcada de memórias. Vejo as flores que começam a brotar numa paisagem verdejante. Escuto os sons da paisagem e encontro a esperança ao longe, no voo de uma gaivota!

António Sousa Pereira

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção