Saltar para o conteúdo
Inferências

Barreiro - Uma Carta aos meus filhos no «Dia do Pai»Não posso viver um «Dia do Pai» com a dignidade de ser humano

Eu, neste «Dia do Pai», quero dizer-vos que deixei de acreditar no Estado deste país, um Estado que não cumpre compromissos, um Estado que retira tudo o que foi fruto do meu próprio trabalho e que me obriga a perder o direito ao meu sorriso.

6 min de leitura
Barreiro - Uma Carta aos meus filhos no «Dia do Pai» Não posso viver um «Dia do Pai» com a dignidade de ser humano

Por Jornal Rostos

Caros Filhos,

Estamos em Março. Um mês que anuncia a Primavera. O mês em que é celebrado o «Dia da Mulher», a fonte da vida, do carinho, do amor.
Gosto deste mês de Março, aquele que, de há muito, sempre senti, como um tempo que anunciava Abril, desde aquela noite, quando, vindo de Leiria, cheguei a Lisboa e vi a Estação do Rossio, guardada por centenas de militares armados, como se estivesse a viver um filme de guerra. Era o 16 de Março que anunciava o Dia da Liberdade.

Hoje, celebra-se o «Dia do Pai» e sinto uma dor enorme trespassar o meu pensamento, nestes dias amargurados de cortes e mais cortes.
Sei que vos falei muito de Abril, da Liberdade, da Democracia.
Sei que vos falei de um mundo melhor. De facto estamos num tempo diferente. Há Liberdade. Há democracia. Há, queiram, ou não, mais desenvolvimento. Ficou para trás a Guerra Colonial.
Neste «Dia do Pai» quero dizer-vos que continuo a sonhar e a viver este tempo, por dentro do coração, com a alegria de celebrar, em breve os 40 anos do 25 de Abril.
Esse é um dia inesquecível, onde os sonhos e a esperança floriram em cânticos, em abraços, e o apelo que vos deixo é que nunca deixem, de festejar Abril.
Nunca deixem de cantar a Liberdade, essa força transformadora de cada um de nós e da humanidade.
Abril é isso que nos exige!

Mas, hoje, quero, também pedir desculpa. Gostava de vos poder dar o meu apoio, nestes 60 anos vividos, e ajudar-vos a ter uma vida diferente.
Um partiu e lá está, na Europa, pela Holanda, com o seu saber e formação, levando o seu saber e competências, acompanhado de sua mulher, construindo uma nova vida. Sei que se sente bem e junta o útil ao agradável, fazendo o que gosta, e deixando para trás este seu país que de dia para dia lhe tirava a esperança e o direito de viver com dignidade.
Outra, licenciada, procura com todo o seu esforço e empenho uma saída, mantendo viva a esperança e acreditando que vai conseguir, mas, também já sonhou partir e procurar um outro rumo, porque, aqui, neste canto, tudo está cada vez mais complicado.
É uma lutadora e sei que não desiste, porque acredita nas suas capacidades e tem uma energia que aquece o seu coração.

Outra, amante da fotografia, estuda, luta, dedica-se com empenho e amor a uma arte que lhe está no sangue e pulsa nos seus nervos. Acredita. Tem esperança.
Mas, fico a pensar, como vai dar a volta, neste cantinho, onde todos somos espremidos, por um Estado insensível, que só se preocupa com os seus próprios gastos, que não se moderniza, que não se altera, mas que a todos comprime, comprime…

Hoje é «Dia do Pai», e sinto que, tal como eu, muitos pais do meu país, sentem esta amargura de viver um tempo trágico, um tempo que nos sufoca e nos quebra as energias criadoras.

Aos meus filhos, neste «Dia do Pai» quero pedir-lhes desculpa, dizer-lhes que sonhei e acreditei que era possível fazer um mundo melhor.
Quero dizer-lhes que continuo a acreditar na Liberdade e na força que ela nos transmite.
Quero dizer-lhes que tenho orgulho, um grande orgulho de ser português. Que adoro este Portugal, país milenário, com uma identidade secular, uma língua que se espalhou pelo mundo, um país pioneiro que escreveu muitas páginas da história da humanidade – uma delas, como exemplo, foi o 25 de Abril.

Mas, hoje, este tempo é tenebroso. Não temos condições, nas próximas décadas de acompanhar a pedalada, desta Europa que integramos, que defendo, que reconheço de grande importância e que seja consolidada neste mundo global.
Mas, porque não temos pedalada e eles nos exigem, digo-vos, vai ser difícil, muito difícil, nos próximos anos que consigamos sair deste ciclo.
Lutem. Acreditem. Defendam a Liberdade, ao menos, que seja esta uma chama que alimente a nossa energia de todos os dias.
Desejo que tenham dias melhores no futuro.
Eu, neste «Dia do Pai», quero dizer-vos que deixei de acreditar no Estado deste país, um Estado que não cumpre compromissos, um Estado que retira tudo o que foi fruto do meu próprio trabalho e que me obriga a perder o direito ao meu sorriso.

Acredito em Abril. Acredito na Democracia. Acredito no meu país – Portugal!
Acredito em tudo o que sonhei.
Mas, não acredito no Estado do meu país, que nos sufoca, que não nos respeita e que nos destrói a esperança.

É por isso, só por isso, que hoje «Dia do Pai» vos escrevo estas palavras, para vos pedir desculpa, porque estou consciente que este sistema, herdado de Abril, está blindado e nunca mais nos vais deixar de sufocar, porque o Estado é senhor soberano e está muito bem controlado por aqueles que dele se servem em vez de nos servirem.
Vivi grande parte da minha vida como servidor do Estado. E, hoje, sinto que esse foi o maior erro da minha vida, porque trabalhei para um patrão que me enganou em todos os acordos que comigo partilhou. Vivo de facto, com um sentimento, este “stress pós traumático” de ex-funcionário público, por sentir que vivi uma vida que foi um erro, dedicado a uma entidade patronal que não respeita os acordos, em nome de valores que dizem ser de todos nós e são apenas para manter este sistema cruel.
Soubesse eu, antes, tudo o que sei hoje, e tinha largado amarras e procurado outro rumo.
Foi esse patrão que servi, que hoje me rouba, dizendo que gastei de mais, eu que sempre vivi, nos limites e apenas com aquilo que era o meu vencimento, assumindo compromissos de acordo com os meus ganhos.
Agora, retiram-me tudo e fico a ver a vida ruir, assim, sufocado, nestes dias negros, com esta dor de não poder ajudar-vos e saber que não posso viver um «Dia do Pai» com a dignidade de ser humano que quer partilhar a vida e sorrir.
Por isso, meus filhos, termino, esta carta, aqui e agora, em Março com este sonho de viver Abril – SEMPRE!

Um beijo para vocês! Desculpem, acreditei neles!

António Sousa Pereira

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção