QuotidianosSão coisas que não se explicam, mas que são reais, lá isso são…
São coisas que não se explicam, mas que são reais, lá isso são…

Por Jornal Rostos
Quando li, há mais de quarenta anos, «Os Irmãos Karamazov», de Dostoievski, um certo momento da obra marcou-me e ficou gravada no meu pensamento. Por vezes, dou comigo a pensar nessa passagem, quando dois personagens discutem sobre a ideia de «Deus» e, quase como conclusão do diálogo surge aquela sentimento que afirma : “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Foi um pensamento que ao longo da minha vida, até a propósito de outras situações, tem sido uma nota de reflexão, por exemplo: “Se a ética não existe, tudo é permitido”, ou “Se não há ideologia tudo é permitido”.
Mas, não são essas reflexões que pretendo partilhar.
Quero apenas referir um acontecimento que me deixou com uma forte curiosidade.
Como vos disse, li «Os Irmãos Karamazov» na minha adolescência, antes do 25 de Abril, na Biblioteca do Barreiro, ali onde, agora, existe uma frutaria, e, recordo, como se fosse hoje, aquele final de tarde, quando dei comigo a pensar naquelas palavras.
Ontem, a convite de Helder Martins, fui participar na apresentação do seu livro «O Templo de Borkudan», na Livraria Bertrand, nas Amoreiras Shopping Center, em Lisboa.
Enquanto, aguardava a hora da sessão iniciar, dei uma volta pelas estantes, e, deparei com uma recente edição do livro de Dostoievski - «Os Irmãos Karamazov».
Peguei no livro. Aquele dia distante da minha adolescência ocorreu-me à memória. Pensei naquele diálogo.
E, num gesto de curiosidade, pensei: “Vou ver se reencontro a passagem que guardo na memória”.
E, para meu espanto, abro o livro, completamente ao acaso, e, dou comigo a reler esse diálogo entre personagens, que há mais de quarenta anos atrás ficou gravado na minha memória.
Fiquei de livro aberto. Olhei. Li e reli. Uma sensação estranha percorreu meus nervos.
Acasos. Coincidências. Coloquei o livro de novo na estante. Comentei o acontecimento com o Helder Martins.
São coisas que não se explicam, mas que são reais, lá isso são…
Hoje, ao fim da tarde, uma professora, dirigiu-se a mim e disse-me: “Sabe, fez chegar uma lágrima aos meus olhos, quando li a sua Carta aos seus filhos. Obrigado”.
Disse-me estas palavras com um grande sorriso que espelhava um sentimento de tristeza e felicidade, como de quem sente aqueles mesmos sentimentos, expressos, por mim, na Carta que dirigi aos meus filhos no Dia do Pai.
Sorri. Não soube que dizer, mas senti que vale a pena partilhar os sentimentos que se gravam na consciência e que espelham estes tempos que vivemos.
Ao menos, que a Liberdade nos permita manter viva a esperança, sentir uma lágrima nos olhos que nos faz sorrir!
António Sousa Pereira













