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Inferências

Deixem-me festejar os 50 anos de Abril!Por António Sousa Pereira

É talvez por tudo isto que, hoje, eu, nestes meus 60 anos, tenho um sonho, e quero pedir a essa geração nascida em Abril, hoje com quarenta, e donos do nosso destino, que me deixem, ao menos, viver e ser feliz para festejar os 50 anos de Abril.

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Deixem-me festejar os 50 anos de Abril! Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

Sei que muitos de vós, nascidos nos anos de Abril, hoje, jovens de 40 anos, não viveram, como eu vivi, por dentro dos nervos, aquele dia de Abril.
Aquele sentimento tão forte, uma explosão de amor, de palavras, alegria, de cores a saltar nos meus nervos.
Um dia único que guardo no mais fundo do meu coração e procuro reviver todos os dias. Recordo. Recordo.
Nos primeiros anos, gostava de colocar um cravo no meu peito, essa flor símbolo de primavera, esse tempo em que tudo floresce e renasce.
Depois, comecei a não colocar o cravo. Levo-o na mão. Porque o cravo verdadeiro sinto-o pulsar no meu coração.
Sabem, para mim esse dia, digo-vos, não é um dia sem valores. Tem muitos.
O principal é aquele onde cabem todas as palavras do mundo – Liberdade!
Não é uma LIBERDADE qualquer, é a Liberdade da tolerância, do respeito pelas diferenças, do não às ideias únicas e salvadoras da humanidade, do não à prisão de um homem ou mulher, por delito de opinião, por pensar e sentir o mundo de forma diferente daqueles que se consideram senhores dos destinos dos homens.
É uma LIBERDADE que diz não à repressão!
Tudo isso, senti, nesse dia de Abril, com milhares e milhares, muitos mil, mesmo muitos mil, a cantar de mãos dadas, de lágrimas sorridentes, porque a alegria também se sente a chorar!

Hoje, passados 40 anos, quando olho para trás, recordo toda a energia que explodiu nesse dia, um dia que vai ficar na história do meu país, como referência única, o começo de um outro tempo, de um país milenar, com uma língua partilhada por milhões por todo o planeta.
Um país que abriu as portas à modernidade da humanidade.
Um país com uma identidade, aqui, neste canto da Europa, que é mais que um povo, é uma língua e um sentimento – vivido no fado – escrito com a sua palavra única: Saudade!
Esse dia de Abril – 25 – é o começo de um tempo novo por construir, talvez o ponto de partida para começar esse desejo escrito pelo poeta, que disse, um dia – cumpriu-se o mar! Falta cumprir Portugal!
Um Portugal que recomeçou em Abril, nesse 25, trazendo já, emergente, no seu parto a despedida de séculos de descobertas, de povos cruzados de muitas cores e genes. Dando novos países ao mundo.
Timor, o primeiro novo país deste século XXI, fechou o ciclo de Alcácer Quibir, de Ceuta, do Bojador , do Cabo das Tormentas.
O 25 de Abril é esse dia memorável que abre as portas para largarmos as amarras desse tempo que fomos e não fomos, dum pensar marcado de Aristóteles e Platão. A “cultura medieval” que nos aprisionou por dentro de uma memória de “barões assinalados”.

É esse Portugal que vi nascer em Abril. Um Portugal que fecha a porta a um tempo secular e nos obriga, agora, aqui, a encontrar novos rumos e sermos nós, como sempre fomos, um povo único – que não se governa nem se deixa governar - já o diziam os Romanos, mas temos uma forma própria de estar e ser, nos sabores que desejamos, sentimos na distância, quando estamos por outros lados, no sol único de um céu azul brilhante, de cores e rios, de cânticos do Minho, rodopiando, ao corridinho algarvio ou esse som que se estende na planície do Alentejo.
Um povo que vibra nas cores da sua bandeira – vermelha do Benfica – verde do Sporting, ou no azul do Douro, do Sado ou do Mondego.
Um povo que canta o fado com paixão. Que grita pelo seu clube com emoção. Que reza porque tem fé nos nervos. Um povo que trabalha, que constrói, nas fábricas e nos escritórios, nos rios e nos mares. Um povo que cava o ventre da terra, vertendo azeite e vinho – esse tinto licor que afaga os nervos. Ah, e esse doce de amêndoa, de figo, de cereja ou de mel.
Um povo único que sabe que aquelas portas de Abril são o começo de um caminho por construir, sonhar e erguer, lutar. Indignado. Canta a Grândola e sonha Abril no coração.
Para trás ficaram todos os impérios vincados nas ondas, os adamastores que nos atemorizaram, os Romanos, os Castelhanos, os Franceses que nos quiseram gerir e controlar. E erguemos sempre a voz em gritos de Liberdade!
O povo que se ergueu em 1385 e recomeçou essa construção de uma identidade – já iniciada em Pinhais de Leiria ou em paixões de amor de Inês, nas cantigas de escárnio e mal dizer, sempre um povo poeta.
O povo que se ergueu em 1640 para abrir caminhos a outros caminhos. Fazendo saltar o Conde. Aqui é Portugal!
Esse povo que lutou em Abriladas e escutou a Maria da Fonte, abrindo caminho ao nascimento do Brasil.
Esse povo que esteve sempre dividido entre os reis e os republicanos. Uma esquizofrenia que o separava de si e o mergulhava na Europa, de ideais de solidariedade e fraternidade, sempre na procura de ser mais livre, mais livre…
Um povo que abriu caminhos em Outubro a um sonho adiado de ser ele próprio, anticlerical, e depois, ficou prisioneiro dessa «cultura» e preso numa «Ditadura medieval» que tentou castrá-lo, porque lhe dizia, todos os dias, que não podia viver para além das suas posses, cultivando a amor à pobreza, como caminho de felicidade.
O 25 de Abril é o reencontro com o nosso começo, com os ventos da nossa história milenar, esse sentimento de povo livre que participou nas Cortes ao lado dos nobres e clero, esse sentimento de homens bons, que acreditaram e sonharam num mundo melhor, esmagados na espada de Nuno Alvares Pereira – o Santo!

O 25 de Abril foi há 40 anos. Esse é o recomeço de um novo ciclo que estamos a construir e, que, nesta esquizofrenia de sermos nós ou Europa, não sabemos que fazer, andamos à procura de caminhos, prisioneiros de um tempo por descobrir.
Sei que esse é um tempo que começa!
Um dia que fica gravado na nossa memória colectiva, como tempo único, e, sinto, sim, sinto que a história do futuro vai escrever de formas diferentes, com leituras diferentes, mas, aquilo que ninguém poderá ignorar é que o 25 de Abril, trouxe a Portugal o grito de Liberdade, aquele grito nascido em, 1143, de sermos um povo único, com história, com memória e por isso com futuro. Essa energia que deu sentido ao PREC e anti PREC. Um povo na busca do futuro!
Sei. Acredito. Continuaremos espalhando o nosso saber e língua por todo o mundo, afirmando, reafirmando, continuamente, que neste canto da Europa, há um povo, de facto, que não se governa, nem se deixa governar, porque quer ser um povo livre. Cala-se e canta, porque aprendeu a lutar cantando.
É pelo sonho e pelo canto que vamos – colorindo os dias em telas, onde do branco nascem todas as cores de Abril.

É talvez por tudo isto que, hoje, eu, nestes meus 60 anos, tenho um sonho, e quero pedir a essa geração nascida em Abril, hoje com quarenta, e donos do nosso destino, que me deixem, ao menos, viver e ser feliz para festejar os 50 anos de Abril.
Quero, nesse dia, sentir o orgulho de ter vivido o primeiro meio século de um novo tempo, este novo tempo, aquele que, acredito - “queira ou não queira o papão” - vai CUMPRIR PORTUGAL!

António Sousa Pereira
Lavradio - 22 de Abril de 2014

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