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Inferências

O fado eternoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Agora, o destino das cabeças bem recheadas é a emigração, com alegre patrocínio dos que se pretendem descendentes dos governantes de antanho. Patrocínio que se materializa, não subsidiando os que partem, mas arcando com as despesas de formação das tais cabeças bem recheadas, com largo proveito dos países que as recebem.

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O fado eterno Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Disse um dia Frederico Felini, por alturas da filmagem do seu filme “Felini 8 ½” que passamos vinte anos das nossas vidas a meter coisas na cabeça, e o resto da vida a tentar tirá-las de lá.
De fato, assim é. Há imagens, sons, emoções que ficam, desafiando toda a lógica e escarnecendo do nosso super ego. Por vezes agradáveis, outras vezes desagradáveis, muitas vezes absurdas - mas ficam. Disso vivem os publicitários, que são peritos em enviar mensagens cómicas, disparatadas ou mesmo de puro mau gosto, desde que a ideia fique. Quantos exemplos temos de campanhas aparentemente condenadas ao fracasso, por falta de qualidade ou de conteúdo, e que ficaram – e, portanto, resultaram.
No tempo da minha meninice, passavam na rádio verdadeiras agressões ao bom gosto em termos de letra e música (o fenómeno não é recente!); por estranho que pareça, algumas, conforme disse Felini, veem recorrentemente à nossa memória, normalmente naquela hora intimista do duche ou de outra atividade rotineira (o duche, em Portugal, é uma atividade rotineira, ao contrário doutros países da Europa dita mais evoluída).
Foi assim que há dias me veio à mente uma cantiga, dificilmente definível entre fadinho popular ou nacional cançonetismo, dedicado aos bairros antigos de Lisboa, com um refrão que dizia assim:
“Porque, afinal,
Foi destas pobres vielas
Que saiu o Portugal
Que embarcou nas caravelas…”
Ora, este conceito parece-me, ainda hoje, notável. Não pelo lado populista da visão da História: não só da chusma da marinhagem se compunha a tripulação das caravelas, e havia decerto uma hierarquia severa a bordo. Mas porque este conceito desafiava uma outra orientação do regime de então. Carneiro Pacheco, o importante Ministro da Educação, fundador da Mocidade Portuguesa, havia definido como devia ser orientado o estudo dos nossos antepassados: a História que convém à nossa juventude.
Deste modo, quem passava à História eram os grandes capitães; nem sequer os pilotos (os únicos que sabiam orientar a caravelas e naus) mereciam uma referência. E mesmo esses grandes capitães deveriam ter uma marca da Divina Providência, a mesma que fizera figurar, nuns painéis do século XV, a vera efígie de Salazar.
Ora, temos, como todos os povos, constantes históricas. Emigrar tem sido uma delas, com motivações que variam menos do que se pensa. Como escreveu um poeta:
“Ao cheiro desta canela,
O reino se despovoa”.
Os cheiros de canela ou outras especiarias, de ouro ou diamantes, de euros ou dólares, continuam a despovoar este Reino. Mas há, apesar de tudo, uma subtil diferença.
Tempos houve em que a massa dos emigrantes saía das pobres vielas, ou dos magros campos, e em que as pessoas mais sabedoras eram cuidadosamente resguardadas desse destino, e até impedidas de sair do Reino, sob pena de sanções que podiam ir até à perda da bem recheada cabeça.
Agora, o destino das cabeças bem recheadas é a emigração, com alegre patrocínio dos que se pretendem descendentes dos governantes de antanho. Patrocínio que se materializa, não subsidiando os que partem, mas arcando com as despesas de formação das tais cabeças bem recheadas, com largo proveito dos países que as recebem.
Estarão à espera de que regressem? Das caravelas, voltavam poucos, mas o apelo das “pobres vielas” era, apesar de tudo, motivador, já que para isso contribuíam os valores culturais da época. Conforme referia o tal fadinho.
Qual será, na era da globalização, o apelo motivador do regresso?
Aparentemente, nenhum. E assim teremos, no século XXI, o que só se tinha visto no Brasil, em seis séculos de diáspora: colónias de fixação de portugueses, integrados noutras culturas, não por fatalidade, mas por opção.
E, em modo de conclusão, um pensamento (quase) profundo: se fosse hoje, Fernando Pessoa teria sido um grande poeta e escritor… de língua inglesa.
Isso, sim, estaria de acordo com o fado eterno…

Nuno Santa Clara

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