Quotidianos – BarreiroSonhar um espaço museológico no Bico da Passadeira

Por Jornal Rostos
Ontem, ao fim da tarde, por momentos, estive conversando com o Kira, ali, na esplanada perto do seu atelier. Falámos do Barreiro e de estórias desta nossa cidade. Falámos de vontade de fazer e sonhar.
Falámos de falta de energia motivadora, que quebra os ossos por dentro dos nervos.
Este é o tempo que vivemos. Este é o meu país, que nos sufoca. Mas, apesar de tudo, nunca desistimos de sonhar.
Neste fim de tarde, dou comigo a pensar, nas estórias e memórias que tenho lido de investigadores que procuram desbravar as «caves» do tempo.
Um território é um lugar feito e memórias, inscritas na paisagem.
Dou comigo a pensar que, ali, frente à Ilha do Rato – aquela Ilha do Tejo – diz-se há 5 mil anos, no Bico da Passadeira, registou-se um acontecimento marcante e revolucionário.
Dizem os investigadores que naquele lugar, pela primeira vez, foi utilizado o touro para actividades agrícolas, até aí, a mulher era quem lavrava os campos.
O uso do touro para a lavoura, coisa hoje natural, foi, naquele tempo distante, uma alteração revolucionária e, pelos registos dos investigadores, este território do Bico da Passadeira, no concelho do Barreiro, é uma das referências conhecidas de cultura ribeirinha ao nível europeu.
Dizem que naquele lugar existia uma fileira produtiva integral – bosques, sal, cerâmica, pesca, que a economia do povoado da Ponta da Passadeira tinha por base a pesca, a caça, a pastorícia, a agricultura e a apanha de moluscos estuarinos.
Dizem que na Ponta da Passadeira foi encontrado o 1º forno de cerâmica identificado em Portugal.
Dou comigo a pensar, a sonhar, como seria, interessante projectar, para aquele lugar, frente à ETAR, a construção de espaço um multimédia- museológico que permitisse uma visão de todo esse passado do IV milénio antes de Cristo - os bosques existentes, o fabrico do sal pioneiro, o lavrar pioneiro do touro, as actividades piscatórias.
Dizem, os investigadores, que este é um dos poucos lugares ao nível europeu, que se integra numa rede de economias e culturas ribeirinhas de referência.
Nunca deixei de pensar na dimensão que este facto tem para o concelho do Barreiro e para a Área Metropolitana de Lisboa, como ponto de atracção de turistas.
Lá vão dizer, este gajo é maluco. Pois é. Mas sonho.
Sonho que um dia, alguém há-de pensar, que é possível criar ali, na Praia da Barra-a-barra – com águas límpidas, terrenos requalificados, um espaço de lazer e cultura que nos transporte ao fundo dos tempos e que permita fruir a natureza, numa piscina natural, com restaurante, bar, café, esplanada e espaço museológico do neolítico.
Para o que me havia de dar hoje…sonhar!
Oh Kira…é lindo pensar neste lugar há 5 mil anos. Vamos lá amanhã ver, e, acredito que tu vais sonhar e criar.
António Sousa Pereira
Foto - Nascer do sol na Praia da Barra-à-Barra













