Uma nova imagem. Um novo discurso

Por António Sousa Pereira
Durante algum tempo quer nas legislativas, quer nas autárquicas, a força maioritária foi o Partido Comunista Português, ou as coligações através das quais essa força política se apresentava ao eleitorado.
Posteriormente viveu-se um período que pode ser considerado de “ciclo pendular” – nas legislativas vencia o Partido Socialista e nas autárquicas vencia o Partido Comunista/CDU, primeiro com maioria absoluta e depois com maiorias relativas.
No período das maiorias relativas o PCP foi gerindo a autarquia, contando, de forma directa ou indirecta, com a “parceria” do Partido Social Democrata.
O Partido Social Democrata desta forma encontrou, na sua acção autárquica, a almofada de apoio para de forma paulatina ir abrindo espaço e afirmar as suas posições na vida da cidade.
O PSD viveu e vive politicamente no Barreiro gerando por um lado uma estratégia de curto prazo de partilha do poder, utilizando desta forma todas as possibilidades para “gerar influências” e determinar algumas mudanças, sendo exemplo desta realidade a acção de Marcos Pimenta, que introduziu nas Escolas do Ensino Básico as refeições para alunos carenciados, ou de Eduardo Porfirio que introduziu o combate às barracas, com a opção política pelo PER, em ambos casos, contrariando as estratégias do quanto pior melhor defendida, ao longo de anos, pelas linhas mais ortodoxas do PCP.
Desta forma o PSD obrigava o PCP a “engolir o sapo” da convivência política com as “forças reaccionárias” e, simultaneamente, obrigava-o a dinamizar políticas contrárias à sua vontade, sempre apostada em tudo empurrar para o Poder Central.
Por outro lado, o PSD gera uma estratégia de médio e longo prazo, apostando na consolidação da vida democrática no Barreiro e desta forma afirmando-se como força política credível, respeitada, com quadros e capacidades de no futuro disputar a liderança política no concelho do Barreiro.
Convivência fatal
Esta “convivência política” acabou por ser fatal ao PCP porque, sendo o Barreiro uma terra de esquerda, esta “convivência” acabou por proporcionar ao eleitorado argumentos para perder o “respeito” pelas tradições e superar o estigma do preto e branco, dos reaccionários e democratas que, normalmente, conduzia a comportamentos de falta de respeito pelas diferenças. Todos sabemos que, regra geral, no Barreiro, quem não estivesse alinhado com o PCP, era olhado ou rotulado como “inimigo” da democracia, entre eles, naturalmente, os Socialistas.
No seu modelo de gestão, o PCP raramente deu aos vereadores da dita “oposição” quer aos do PSD, quer aos do PS (ou mesmo PRD) grande espaço de manobra, embora fossem atribuídos pelouros, sem a plena delegação de competências.
O PCP sempre apostou no “controle” do aparelho autárquico, partindo do principio que, quem tem o poder, deveria assumir a plenitude da gestão e a aplicação do seu programa eleitoral.
O PCP por essas práticas centralistas e centralizadoras da acção política, pela implementação de perspectivas municipalizadoras da vida local, acabou por se isolar da comunidade e gerou uma vida municipal e autárquica assente em rotinas administrativas – internas e externas.
Cultura da Cidade
Em vez de uma cultura de participação e responsabilidade gerou-se uma cultura de subserviência e de dependências. O PCP foi gerindo o poder, numa relação quase permanente de senhor –escravo, senhor-servo, senhor –patrão. O resultado final foi a vitória do PS.
O Partido Socialista apresentou-se ao eleitorado com uma proposta moderna, inovadora, com um discurso assente numa ideia força – o que é de todos por todos deve ser decidido.
Começou por delegar competências, da forma como nunca foi feito na Câmara Municipal do Barreiro.
Dinamizou uma relação do poder com os cidadãos, de constante diálogo e procura de caminhos.
Manifestou o interesse em dialogar, estabelecer pontes e manteve uma postura de estado respeitando e dando continuidade a todas as dinâmicas existentes na vida local, independentemente de estar ou não de acordo de forma global com essas perspectivas.
Quais os resultados desta postura? Como podem ser avaliados?
Equilíbrio desgastante
Primeiro, o PCP fomenta a ideia que o PS apenas faz o que PCP deixou feito.
Segundo, o PCP vai minando a vida local, rotulando de forma constante de incompetência a acção dos socialistas.
Terceiro, o PCP vai lançando a ideia que o seu regresso é inevitável para bem do Barreiro.
Quarto, o PSD vai criticando o PS por não mudar nada e manter tudo como dantes.
Quinto, a verdade, é que o PS, sendo uma força com maioria relativa está emparedado entre duas forças que lhe são hostis.
Por um lado o PCP, dito de esquerda, mas que é incapaz de partilhar o poder e apenas se limita gerir uma estratégia de desgaste, de ir queimando o PS em lume brando.
Por outro lado, o PSD que sabe pode conquistar franjas na área do PS, não abdica do caminho determinado – partilhar poder, abrir espaço, preparar o futuro.
O PS, de facto, está a seguir o seu próprio caminho, sem dúvida, caracterizado pela “mudança serena” ou “revolução serena”, com respeito pelas diferenças e mantendo uma cultura de diálogo.
Discurso saudosista
Mas, o PS, na realidade, é um partido que está só, porque está entre dois fogos e gerir estes equilíbrios deve ser desgastante. Terrivelmente desgastante.
Um PCP com um discurso arrogante, saudosista, que vive com má fé e numa autêntica feira de vaidades – tudo o que estão a fazer é nossa ideia e mataram algumas das nossas belas ideias.
Um PSD ambicioso, interveniente, com o sangue na guelra e a agir hoje, sempre e sempre, com os olhos numa estratégia de longo prazo – semear hoje para colher amanhã.
O PS só lhe resta continuar a caminhar sozinho. Não pode contar com o PCP. Nem pode contar com o PSD.
Que convergência?
No Barreiro é impossível pensar uma estratégia de poder que possa apostar no fazer convergir forças reconhecidas, eventualmente, como sendo de esquerda. Porque o PCP quer ser a única força de esquerda e, esta opção, leva-o a preferir estar só, do que mal acompanhado. Neste rumo vai-se esvaziando e perde o seu espaço lentamente.
No Barreiro é impossível pensar uma estratégia de “bloco central” porque o eleitorado está focalizado numa cultura de esquerda. O PSD ainda tem muito que crescer na vida local. E, tendo objectivos de médio e longo prazo, não vai alterar a sua estratégia – gerir o espaço político como “muleta de mudança” rumo ao seu projecto.
O PS é, afinal, a força que tem condições políticas para nas próximas décadas ser a força “âncora” da vida política local. Mas, nunca irá contar com muletas. Ou tem a maioria absoluta e está solidamente à vontade. Ou vai gerindo equilíbrios, que naturalmente se irão extremando para a esquerda e para a direita.
Discurso Inovador
Mas, o PS, para tal, tem que começar a afirmar o seu projecto. Basta retirar da gaveta, onde está colocado há alguns meses, o seu Programa Eleitoral.
O PS não pode ignorar que a máquina autárquica assente em rotinas só vai continuar a gerar rotinas.
O PS tem, no seu Programa Eleitoral, um discurso inovador, moderno, aberto. O PS tem, no seu Programa Eleitoral, propostas inovadoras, modernas, potenciadoras de políticas que farão, rapidamente, esquecer o modelo que foi instituído durante décadas, porque são o contrário de tudo o que foi feito até aos dias de hoje ( mesmo, nalguns casos, que foi feito durante o PRESEC – Processo Revolução Serena em Curso ).
O PS não deve é abdicar de aplicar o programa que lhe deu a vitória eleitoral.
O PS se pegar no seu Programa, rapidamente nascerá um novo “discurso da cidade”. Uma nova cultura, de esquerda – uma esquerda que não abdica da palavra liberdade!
E a verdade é que o PS tem um discurso elaborado pronto a aplicar, tem um rosto – Emídio Xavier – que é líder desse discurso.
A mudança de imagem foi uma ruptura perfeita. Sentida. Desejada. Feliz. Aponta rumos de futuro. Respeita as tradições.
A mudança de imagem tem que transportar ideias...um novo discurso. Ele existe. Está na gaveta, vão buscá-lo e mostrem-no com orgulho.
Façam esquecer os “Velhos do Restelo” que fomentam ódios, paixões e com narcisismo continuam a pensar que são insubstituíveis.













