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Inferências

BARREIRO - InferênciasUm concelho que tem o coração a pulsar à esquerda
. Reflexão sobre um ano de Mandato no Barreiro

A primeira nota politica é que de facto, para além de matérias nacionais, só duas forças politicas que estão no terreno a agir e a trabalhar para a população do concelho do Barreiro – PCP/CDU e PSD.
As restantes forças politicas, na prática, hibernaram e devem regressar nas próximas eleições autárquicas.

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BARREIRO - Inferências Um concelho que tem o coração a pulsar à esquerda . Reflexão sobre um ano de Mandato no Barreiro

Por Jornal Rostos

No próximo dia 20 de Outubro completa-se um ano sobre o actual mandato da Câmara Municipal do Barreiro.
É pois, este, um bom motivo para fazermos uma leitura das estratégias e das acções politicas que marcaram a vida politica local.

Hibernaram e devem regressar nas próximas eleições autárquicas

A primeira nota politica é que de facto, para além de matérias nacionais, só duas forças politicas que estão no terreno a agir e a trabalhar para a população do concelho do Barreiro – PCP/CDU e PSD.
As restantes forças politicas, na prática, hibernaram e devem regressar nas próximas eleições autárquicas.
O Bloco de Esquerda lá vai emergindo nas reuniões da Assembleia Municipal ou numa ou outra freguesia, mas como acção politica própria, tirando as suas vivências na politica nacional, localmente parece que está a fazer uma travessia do deserto.
O PCTP/MRPP elegeu um deputado na Assembleia Municipal mas raramente se dá pela sua existência.
O CDS/PP hibernou completamente.

PSD tem sido de facto oposição à CDU

O PSD, pode dizer-se, é a força politica que vai intervindo e marcando diferenças em relação à CDU, quer no plano ideológico, quer mesmo na contestação a algumas visões estratégicas.
E, diga-se, mantém esta postura de demarcação-oposição e critica em relação à CDU, ao mesmo tempo que aceita pelouro e trabalha na vida autárquica e municipal.
Aliás esta tem sido a postura de há décadas do PSD, quer quando tinha um papel de partido charneira, quer nos tempos actuais, com a CDU com maioria absoluta.
O PSD, por vezes até “estica a corda”, procurando encostar a CDU à s cordas e procura agitar os sectores mais “aguerridos” da CDU. Só que a CDU dá espaço e não responde, ou responde quanto baste, assim como quem diz- se quiserem entregar o pelouro, então entreguem, esse é um problema vosso e não da CDU.
O PSD tem sido de facto oposição à CDU e ao mesmo tempo uma força politica dinamizadora de causas, nomeadamente na área do Ambiente.
É uma força politica que, para além das politicas nacionais, aqui, tem sabido respeitar a vida local e fazer respeitar-se.

PS só quer gerar factos políticos

Quanto ao PS, no início do mandato, cheguei a comentar que tinha a ideia que este seria diferente, estava convencido que a CDU ia ter um osso duro de roer com os novos autarcas socialistas, que pareciam mais determinados e convictos, pondo fim a práticas politicas de preocupações com o buraco da rua, com o processo disciplinar do trabalhador x ou y, com as querelas do diz que diz-se, portanto, uma nova postura mais critica e distinta das politicas da CDU, demonstrando que no Barreiro, por razões históricas há alternativa e não apenas alternância à CDU. Não tem conseguido afirmar-se nem como uma coisa, nem como outra.
Comecei a verificar que a opção dos eleitos do Partido Socialista foi começar a agendar, em sucessivas reuniões de Câmara, pontos na ordem de trabalhos, que visavam colocar em discussão de forma permanente as propostas do programa eleitoral apresentado ao eleitorado.
Isto é, realizaram-se eleições autárquicas, o Partido Socialista apresentou o seu programa ao eleitorado, a CDU venceu com maioria absoluta e agora (nem falo da pseudo discussão politica em torno do aceitar ou não aceitar pelouros) e os socialistas em reunião de Câmara pretendem que a CDU vote favoravelmente aquilo que a população disse não de forma contundente. Nunca cheguei a perceber esta estratégia. Nem se percebe.

E se eventualmente, os vereadores socialistas estão convencido (admito que estejam) que as suas opiniões programática são contributos importante para o desenvolvimento do Barreiro, então, certamente, deviam promover uma “politica de influência” de forma a cativar a CDU para essas propostas, em “politicas de compromisso” e não como um adversário. Ser um exemplo de que o objectivo é fazer uma cidade para os barreirenses e não uma cidade para os socialistas, sem os comunistas. Ser o exemplo de politica de inclusão e não de de politicas de exclusão, de maus e bons.
A ideia que ficou é que o objectivo era apenas gerar factos políticos. Gerar uma permanente discussão politica que contribuísse para gerar a imagem (uma questão de marketing politico) que os “maus” da CDU não aceitam as propostas do PS e os “bons” do PS são sempre estigmatizados.
Só houve uma proposta – nesta estratégia dos socialistas - colocada à discussão e aprovada e pelo que nos apercebemos a mesma mereceu análise prévia e diálogo, graças ao empenho de um vereador Frederico Rosa, mas este é um homem de diálogo.

As propostas apresentadas durante um ano pelos vereadores socialistas foram, no essencial um reprise de um programa eleitoral recusado pelo eleitorado.
Os socialistas no Barreiro podem de facto, por razões históricas e de realidade social local, ser a alternativa à CDU, mas por este caminho, qualquer dia é mais provável o PSD colocar-se nesse patamar , porque tem trabalho no terreno e sabe efectivamente ser oposição.
O Partido Socialista, que já geriu à Câmara Municipal do Barreiro, é incapaz de perceber os seus erros – não afirma um discurso de diferença em relação à CDU, afirma-se em contestação e contra a CDU.
Ainda agora, a propósito das questões orçamentais vem falar em “orçamentos empolados”, ora esta foi a realidade de todas as gestões de Câmara da CDU e do PS, situação que acabou com a imposição de regras pela troika.
Depois fala-se em lugares na Câmara para maridos e outras coisas do género. Por amor de Deus, valha-me Nª Srª da Misericórdia, tirem-me deste filme!
O PS acha, está mesmo convencido que a sua vitória autárquica reside no fomentar ódios e paixões. Faz politica não com base em ideias e projectos, mas com “marketing”, gerar um “inimigo comum” – os tenebrosos comunistas que destruíram o Barreiro. Por favor, já chega de comer criancinhas!
O PS se fizesse politica a sério e fosse capaz de afirmar as suas diferenças de forma de estar e de viver e fazer cidadania no Barreiro, era um osso duro de roer para a CDU, como, de facto é o PSD, só que o PSD tem o estigma cultural de ser de direita, num concelho que tem o coração a pulsar à esquerda.
O PS no Barreiro até tem personalidades e cidadãos que podiam ser os rostos de um projecto politico, não se percebe porque se afastam ou os afastam desse protagonismo.
Nas últimas eleições autárquicas a minha filha perguntava-me: “Pai o Jorge Fernando é candidato a presidente da Câmara?”. Respondi-lhe: “Não, é o outro que está no cartaz”. É que um candidato não se faz com cartazes. Um candidato tem que ter raízes na vida da cidade, trabalho realizado e quando não as tem, então, deverá ser um personalidade prestigiada. Não basta ser bom orador e ter lido Górgias ( um filosofo sempre actual).
Em suma, um ano depois das eleições autárquicas, o PS limitou-se a fazer “politica de sprint”, roda a roda com a CDU – onde é que eles erram para nós atacarmos. O REPARA está atrasado vamos criticar. Há um buraco na Avenida da Praia vamos criticar.

Se o PS tivesse quisesse contribuir para resolver problemas, usava politica de influência – já que não quer ter pelouros por razões de opção politica. Podia fazer tanta coisa, mesmo sem pelouros. Mas tinha que fazer e não se limitar ao “show das reuniões públicas”. Até podia pedir uns conselhos ao Bruno Vitorino, do PSD.
Por fim, para fechar um ano de mandato, na última reunião pública o candidato a presidente da Camara, eleito pelo PS, anunciou que o “mais cedo possível” o seu objectivo é sossegar.
Então, fica a pergunta: Porque não dá, desde já, o seu lugar a outro que queira fazer politica e lutar por gerar uma alternativa e que não tem por objectivo sossegar?!

Quanto à CDU, aqui há diversas notas a referenciar, em primeiro lugar a paciência e a calma de Carlos Humberto em gerir as reuniões de Câmara, por vezes, nota-se, que engole em seco, mas o “estratega” sobrepõe-se ao “humano”.
Por muito que o queiram desgastar politicamente, ele tem sete vidas, renasce sempre. Embora, naturalmente, os anos foram retirando o “estado de graça”, valendo-lhe a sua convicção na acção politica, não como modo de vida – mesmo sendo essa a sua realidade – mas pela sua vontade servir o Barreiro.
A CDU na Assembleia Municipal faz politica de “ferro e fogo”, aliás, é natural, porque mais que se discutir as politicas locais, naqueles pontos antes da ordem do dia a agenda é na sua maioria dos casos a vida politica nacional – saúde, ensino, direitos dos trabalhadores, privatizações, etc.
Na Câmara a acção politica é mais abrangente, mas, as dificuldades financeiras, os apertos da troika não dão margem para grandes voos, mesmo assim lá vão avançando obras estruturantes, caso do REPARA ou na Cidade Sol. Mas, recorde-se, a vida não são só obras. Há mais cidade para além das obras.
A CDU tem que resolver um problema politico – entende-se a sua postura por razões ideológicas, por questões de “frentes de luta” e de “classe”, mas, numa cidade que, sente-se está a brotar para “novas ideias” e “novos valores” – tipo OUT. FEST –, uma cidade onde as relações «interclassistas» ( do operário com o engenheiro, sempre foram realidade cultural), aqui, a CDU tem que ser capaz de abrir, mais que “controlar a cidade” deve deixar a “cidade respirar”.
O Barreiro é uma terra com tradição de LIBERDADE. O Barreiro é uma terra que não gosta da “intolerância”. A CDU devia ter aprendido esta lição. É descobrir o sentido politico de dar vida a esta “ruptura epistemológica” que reside o drama da CDU, uma brecha que o PSD tem vindo a explorar politicamente. O PS nem percebe este fenómeno, pois por vezes o que acha correcto é “copiar” o PCP, foi esse um dos seus erros políticos quando foi poder.
A CDU pode dar-se por feliz por ter a oposição que tem, no Barreiro o PCP/CDU pode continuar a estar tranquilo porque: o PS nunca percebeu, nem quer perceber o fenómeno do «ciclo pendular», e está convencido que falando mal do PCP é meio caminho andado para a vitória, o PSD percebe essa realidade, trabalha, cola-se e vai aguardando, até que um dia num novo contexto politico nacional, se abra uma brecha...Os outros estão hibernados e voltaremos a ouvir falar deles nas próxima eleições autárquicas.
E, por fim, vamos ver o que o futuro nos reserva mas, uma coisa é certa, também no Barreiro, tal como no país, vem por aí a geração dos 40 anos após Abril.
Por aqui me fico, e, afinal, escrevi mais do que desejava, mas é este o meu olhar sobre um ano de vida autárquica no concelho do Barreiro.

António Sousa Pereira

Nota - Não foi referida acção no terreno do MCI - Movimento de Cidadãos Independentes de Coina e Palhais, um fenómeno politico novo no concelho, cuja dimensão em termos de concelho, não parece ter pernas para andar. Ou terá?

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