PCP recusa reconhecer alteridade histórica

Por António Sousa Pereira
Ao longo de décadas foi-se desenvolvendo o conceito “identidade barreirense” que todos fomos aceitando de forma pacífica, por sentirmos como algo real, uma identidade marcada na luta pela conquista da liberdade, pelos valores associativos – solidariedade, fraternidade, amizade – por ideais humanistas.
E, sem nos apercebermos, de facto, enquanto para uns “identidade barreirense” se identificava como uma forma própria de estar e viver Barreiro, para outros a “identidade barreirense” sempre foi conotada com uma carga ideológica partidária.
Se havia dúvidas sobre esta vontade de identificar o conceito “identidade barreirense” com essa carga ideológica ela, finalmente, ficou clara quando um dirigente do PCP, em pleno século XXI, vem afirmar que o Barreiro é do PCP ( ele disse CDU, mas como a CDU não existe enquanto espaço ideológico e nunca, pelo menos no Barreiro, passou de uma coligação que, desde sempre, se extingue após o acto eleitoral). Foi isso mesmo que quis afirmar.
Sou dos acredita e defende o conceito “identidade barreirense” mas recuso, sempre recusei, atribuir-lhe uma carga ideológica partidária.
Defendo que a “identidade barreirense” é algo que nos marca, quer aos que aqui nasceram, quer aos que adoptaram por várias razões esta terra como a sua, por ser a terra dos seus filhos, dos seus mortos, ou dos seus amigos do quotidiano.
A vitória dos “estrangeirados”
As últimas eleições autárquicas para além de terem aberto uma nova perspectiva de olhar para a “identidade barreirense” retirando-lhe a carga ideológica partidária que lhe estava subjacente também, na verdade, abriram também espaço à afirmação na vida local de “barreirenses” não autóctones, quebrando, obviamente, o mito muitas vezes, indirectamente sustentado - repetido como arma de combate político eleitoral - que para se amar o Barreiro era condição necessária cá ter nascido, olhando-se para os “estrangeirados” como “personas” não gratas. E, esta, foi, indiscutivelmente, uma vitória pessoal de Emídio Xavier.
Hoje, é claro, pelas mais diversas razões, quer aqueles que defendem a tese que “identidade barreirense” significa “identidade com o ideal comunista”, ou mesmo aqueles que defendem a tese que os “estrangeirados” devem submeter-se aos autóctones não perdoam, nem nunca irão perdoar, os resultados das últimas autárquicas. Foram duas derrotas contra aquilo que os defensores destes pontos de vista sempre defenderam como a única verdade histórica.
Política de ressentimento
Todos sabemos que o ressentimento não ajuda a pensar, nem a agir com coerência.
Po exemplo, os factos recentes, registados na última Assembleia Municipal e outros que, certamente, se irão seguir emergem como dados de reflexão que resultam de uma estratégia política marcada por uma cultura de ressentimento, que conduz ao sofrimento e à incapacidade de aceitar, em plena democracia, a alteridade política, resultante da liberdade de opção dos cidadãos.
Os próximos tempos vão ser decisivos para afirmação, no Barreiro, de uma cultura de esquerda moderna, aberta ao futuro, sem estigmas.
A cultura do Barreiro não é a cultura do PCP. A cultura do Barreiro não é uma cultura comunista. A cultura do Barreiro é de esquerda. E este é outro erro do PCP, porque teima em considerar que para se ser de esquerda é preciso ser do PCP.
O Barreiro é uma cidade com cultura, é uma cidade que pensa, porque tem gente que vive o pensamento, age com ideias e ideais. O PCP sabe isso, o PCP sempre soube isso, por isso fomentou o mito da “identidade barreirense” com uma carga ideológica.
Talvez por isso mesmo, hoje como ontem, o PCP vive, sobrevive na cidade, gerindo a sua estratégia com base num permanente combate mundo das ideias, procurando tudo identificar com aquilo que considera ser o movimento da sua interpretação da história.
O PCP vive gerindo os “conflitos” ou “pseudoconflitos” como “armas ideológicas”.
E, quando toda essa conflitualidade é levada ao limite então, por vezes, o retrocesso é impossível.
Foi o que aconteceu, na verdade, na última Assembleia Municipal do Barreiro, porque quem agita “purismos” acaba por ser vitima dessa orientação estratégica.
Os gritos dos munícipes – “traidores, vendidos” – dirigidos aos deputados do PCP eram inevitáveis. Sempre ouvi dizer quem brinca com o fogo queima-se.
Mas, imaginem que alguém, no Barreiro, mobilizava a população de Palhais, contra a aberração urbanística que ali vai ser implantada, com os votos dos vereadores comunistas. Ou se aquilo tivesse sido aprovado com os votos dos vereadores socialistas, que agitação já não haveria hoje junto à opinião pública?
É verdade, onde está a Associação dos Amigos da Mata da Machada?
Mudança é inevitável
O PCP sempre procurou confundir “identidade barreirense” com “identidade ideológica” e esta tese está em fase de sublimação.
O Barreiro é, sem dúvida, uma terra com identidade e, como o PS defende, de forma positiva, é uma “identidade que marca”. A marca da “identidade do Barreiro” diz-se: liberdade, diz-se cultura.
O discurso da cidade está a mudar. As pessoas começam a sentir a mudança.
A verdade é que o PCP recria fantasmas porque teme a modernidade anunciada e a inevitabilidade das mudanças históricas resultante do último acto eleitoral, donde emergiu um novo poder.
A mudança é inadiável porque o PCP apenas representa a “tradição de esquerda” da identidade barreirense, enquanto o PS representa a esquerda do progresso que sempre foi a força motora da “identidade barreirense”.
A mudança sente-se na rua...basta afirmar um novo discurso na cidade e no aparelho autárquico, porque aí, continua presente, em alguns, não a certeza, mas apenas a dúvida – Será que o PCP vai voltar? Ao PS basta-lhe demonstrar que isso é uma ilusão emergente de uma estratégia ideológica que vive, sempre viveu, a anunciar amanhãs sempre adiados.













