Durão Barroso revisitadoPor Ricardo Bernardes
Montijo

Por Jornal Rostos
Prestes a dar o lugar a Juncker depois de dez anos no cargo, é tempo de fazer o balanço do mandato – e mais do que isso: do percurso – daquele que foi o primeiro português Presidente da Comissão Europeia.
Com uma formação académica sólida – a média de 17 valores em Direito fala por si–, José Manuel Durão Barroso teve cedo o seu espaço como líder estudantil. Companheiro de percurso de Maria José Morgado ou José Luís Saldanha Sanches, que fizeram outros caminhos, os seus discursos inflamados de fervor maoísta, de que ainda hoje podemos encontrar registos nas redes sociais, dificilmente (ou talvez não!) fariam adivinhar o dirigente de centro-direita em que se tornou anos mais tarde.
Já no PSD é recomendado a Cavaco Silva por Eurico de Melo, que reconhecendo as suas qualidades políticas, o promove sucessivamente no Governo, de Secretário de Estado da Administração Interna, logo em 1985, a Ministro dos Negócios Estrangeiros, sete anos depois, na sequência da demissão de João de Deus Pinheiro. Mesmo apreciando a sua atuação no Executivo – e, particularmente, o modo como conduziu o dossier de «Timor» durante o tempo em que liderou a diplomacia portuguesa – Cavaco terá ficado surpreendido (conforme confessa na sua Autobiografia) com a decisão de Barroso se candidatar à sua sucessão no PSD em 95, onde não se consegue impor a Fernando Nogueira, há muito tido como favorito.
Mas a ambição de Barroso ainda o haveria de levar à liderança laranja e mais tarde mesmo à chefia do governo, resistindo o tempo suficiente para ganhar as legislativas a Ferro Rodrigues em 2002, apesar de as ter perdido contra Guterres três anos antes – e cumprindo assim, contra muitas expectativas, a sua profecia pessoal – é-lhe sobejamente atribuída a afirmação de que sabia que chegaria a
primeiro-ministro, só desconhecia quando.
Para se alavancar até ao poder e superar a pressão da oposição interna, o ex-Ministro de Cavaco aproveita o desgaste do período final do Guterrismo, e numa campanha colorida pela demagogia, aposta num «choque fiscal» de descida dos impostos, acabando, depois de eleito, por fazer justamente o contrário, alegadamente por ter encontrado o País «de tanga».
No essencial, a atuação do seu Governo centra-se na diminuição do deficit do Orçamento de Estado – missão que a História nunca permitiu saber se seria ou não cumprida com sucesso, mas que se pode bem estimar pela situação financeira em que o Gabinete que lhe sucedeu – de Santana Lopes – deixou o país, tendo herdado a quase totalidade da execução Orçamental de 2004 de Manuela Ferreira Leite e governando apenas cerca de 8 meses. Pelo meio, ficaria a Cimeira dos Açores e a decisão de apoiar a intervenção militar no Iraque, cujos fundamentos se viriam a provar falsos e a iniciativa um mero expediente de promoção pessoal.
A chegada de Durão Barroso à presidência da Comissão, mais do que consequência do seu currículo ou de prestígio internacional acumulado, é a confluência de um conjunto de interesses de ocasião: em primeiro lugar, o interesse do próprio em ultrapassar o «beco sem saída» em que se encontrava depois de a derrota esmagadora da coligação PSD-CDS nas Europeias fazer adivinhar resultado semelhante nas legislativas seguintes; em segundo, o de alguns Estados reforçarem o seu poder de decisão através de uma debilitação das instituições europeias, o que a escolha de Romano Prodi, 5 anos antes, de certo modo já deixava antever e foi depois confirmado com o «espartilhamento de poderes» consagrado no Tratado de Lisboa.
Deixando para trás António Vitorino, que chegou a defender ser o candidato português ao lugar, Barroso foi na Europa o que era previsível que fosse: sem um projeto claro de atuação ou o peso político de alguns dos seus antecessores (Jacques Delors à cabeça), permitiu que o poder da Comissão se apagasse em favor do poder de um diretório de Estados, primeiro comandado pelo Eixo Franco-Alemão e por fim quase limitado a este Estado. Esmagado pela burocracia institucional, por um discurso titubeante – onde até não faltaram boas intervenções, mas muitas foram contraditadas pelo próprio de seguida – e não encontrando em Von Rompuy um protagonista com características diferentes, Barroso deixou a União Europeia sem uma resposta inteligente e atempada à maior crise que a assolou.
Ao leme esteve a Chanceler Merkel, segura e sem grande oposição, que sempre que necessário, não hesitou em moldar a Europa ao jogo dos interesses da Alemanha, ou à sua própria sobrevivência política.
Pergunta-se o que virá a seguir. Barroso disse há dias atrás ter muitos convites. É possível mesmo que a política portuguesa o reabilite a tempo de sonhar com Belém. Mas dificilmente poderá apagar a impressão de que a sua aventura europeia foi, afinal, uma experiência falhada.
Ricardo Bernardes
Docente Universitário, coordenador da JS do Montijo, membro do secretariado da Federação Distrital de Setúbal da JS e do secretariado concelhio do PS de Montijo













