InferênciasPCP votou contra “Grandes Opções do Plano”. E agora?
Será que Emídio Xavier vai retirar a confiança política aos eleitos do PCP/CDU retirando-lhes os pelouros? Ou será que os vereadores comunistas/cêdêuistas vão colocar os pelouros à disposição do presidente?

Por António Sousa Pereira
Na última Assembleia Municipal do Barreiro algumas intervenções balizaram a actual situação política do concelho do Barreiro.
Carlos Humberto, PCP, ao salientar que as votações “não são ocas” e que “são opções políticas” está a deixar claro que o PCP/CDU, obviamente, se demarca das opções assumidas pela maioria que viabilizou as “Grandes Opções do Plano e Orçamento para 2003”.
Tal fica, ainda, muito mais claro quando, Carlos Humberto, acrescenta que nas votações registadas há uma opção política – “opção do PS entender-se com o PSD”, sendo na sua opinião este facto o assumir “uma maioria na gestão municipal” e sublinha o dirigente do PCP que é esta uma opção política assumida para “gerir a Câmara”.
Vai o PCP/CDU entregar os pelouros?
Perante esta leitura política do PCP e dado que este partido considera que há uma “maioria política” assumida na gestão da autarquia, então, certamente, se o PCP/CDU não se identifica com esta dita maioria, fica a pergunta: Será que tem condições políticas para assumir pelouros?
Na verdade, segundo a opinião do PCP/CDU está criada uma “maioria” com a qual aquele partido não se identifica e contesta com o seu voto contra.
E, se Helder Madeira, PCP, considera que as “Grandes Opções do Plano e Orçamento de 2003” são carentes de “estratégia para o concelho do Barreiro”, não clarificam objectivos e não colocam explicações para as prioridades, para além de, na sua opinião, este Plano e Orçamento, gerar uma situação que irá originar que – “não há mais capacidade de endividamento para os anos seguintes”.
Então, o PCP/CDU não pode, nem deve, pactuar numa gestão que discorda e que vai conduzir o concelho para um caminho, na sua opinião, de “desequilíbrios financeiros”.
Daniel Cabrita, PCP, numa sua intervenção referiu que no executivo Municipal há “opiniões diferenciadas” e “opções diferenciadas” e que quanto a votação dos vereadores do PCP/CDU - “não é um drama votarem contra”. Procurou meter água na fervura...já é tarde, porque está tudo em ebulição.
É óbvio que não é um drama. É uma opção política. E as opções políticas têm que ter coerência e consequências.
O PCP/CDU foi afunilando as suas posições e colocou-se num beco sem saída. Por um lado quer passar à “oposição pela oposição”, por outro lado quer garantir a gestão de pelouros e tempos.
O PCP, ou parte do PCP preferia desde já largar os pelouros, mas, não quer assumir essa “opção política” quer empurrar o PS a assumir aquilo que não tem coragem política de fazer, porque há outra parte do PCP/CDU que prefere manter-se como protagonista de gestão. Este é que o drama!
A “muleta” está definitivamente enterrada?
Bruno Vitorino, PSD, veio sublinhar que o seu partido rejeita “desde sempre uma política de terra queimada” assumindo uma “postura responsável” porque, na sua opinião, “ser oposição não é votar contra”.
Segundo Bruno Vitorino, se o PSD votasse contra as opções do Plano e Orçamento – “ninguém iria compreender a votação” até porque, acrescentou o PS – “deve ainda ter o beneficio da dúvida”.
Para o líder social democrata a opção do PSD é que “estamos a seguir o nosso caminho” que aposta em sermos “voz activa na definição de políticas municipais”.
A opção de voto dos sociais democratas veio enterrar, talvez, definitivamente, o conceito da “muleta”. Agora emergiu o conceito “maioria de gestão”.
Basta avaliar as palavras de Carlos Humberto, PCP, que considera que esta opção de voto contribuiu para gerar uma maioria na gestão municipal – “uma opção PS-PSD”.
Se esta opção, para o PCP é negativa e pode ser considerada por sectores de esquerda do concelho como sendo “contra natura”, que dizer então da opção política que gerou a maioria PCP-PSD que funcionou nos últimos mandatos?
Ou seja, quando o PCP, para gerir, sentiu necessidade de colocar completamente de lado o PS e optou por gerar uma maioria PCP-PSD, tal era uma coisa boa. Era para manter equilíbrios. Agora se o PS tomar opção idêntica, porque com o PCP não consegue dialogar, já é uma coisa má – assume-se uma maioria de gestão.
Claro que as opções não são ocas. E são menos ocas quando esvaziam estratégias de rupturas anunciadas.
E agora, que caminho seguir?
Emídio Xavier, deixou claro que aceitou as sugestões dos sociais democratas, reconhecendo que o PS não se considera dono da verdade e aceita os contributos daqueles que querem ajudar a decidir por isso, na sua opinião, as sugestões do PSD permitem que as opções vão ao encontro de resolver “prioridades mais representativas da população barreirense”.
Emídio Xavier, sublinhou no decorrer dos trabalhos da Assembleia Municipal que gostava de gerir a autarquia com o contributo de todas as forças políticas, criar iguais condições a todos os vereadores e que foi isso que fez – “nunca foi feito isto pela CDU” tratar os vereadores em plano de igualdade, por isso acrescentou que o PCP –“não venha dar lições de democracia”.
Na sua intervenção ficou em aberto uma mudança de opção política, dado que com PCP/CDU, pelos vistos, o diálogo é missão impossível.
E agora, que caminho seguir? Uns exigem que o presidente retire os pelouros aos vereadores do PCP. Outros consideram que devem ser os vereadores comunistas a ter a coragem de entregar os pelouros.
Está, de facto, criada pelo PCP/CDU uma situação de ruptura anunciada. Quem ganha com esta eventual ruptura?
O PSD ganha porque transformar-se-á na força política de charneira.
O PS perde espaço de manobra numa gestão de “corda bamba”.
O PCP perde capacidade de influência na vida local.
O PSD perde espaço de manobra como oposição autónoma porque, em coerência, não pode transformar-se num PCP número dois.
O PS ganha porque se afirma, definitivamente, como a força que lidera o poder a nível local, acabando com as insinuações que o PCP continua a ser uma força com grande influência.
O PCP ganha como força de oposição porque fica com as mãos limpas para criticar à PCP – fogo a torto e a direito.
O Barreiro ganha porque, não precisa esperar pelas próximas eleições autárquicas para clarificar qual a força de esquerda que vai marcar, na vida do concelho, os destinos nos próximos anos e a sua estratégia de desenvolvimento.
PCP suicidou-se politicamente
Com o seu voto contra o PCP suicidou-se politicamente no Barreiro. O PCP porque tem pelouros, partilha o poder, podia ter optado pela abstenção – criticava e deixava nas mãos do PS as responsabilidades das opções. Ganhava espaço político.
A partir de agora ao PCP/CDU só lhe resta ser oposição. Se for coerente entrega os pelouros e não espera pela humilhação da inevitável “chicotada psicológica”. Ou não será verdade que um jogador que não joga na equipa, tem que ser substituído?
É que o PCP esqueceu, ou ignorou, que este ano para o PS foi o ano do benefício da dúvida, das expectativas. Até aqui o PCP não podia, nem devia, esquecer que o PS geriu a herança e deu continuidade ao seu trabalho.
Agora ao PS resta-lhe afirmar que está determinado a levar a mudança para a frente, ora uma mudança não se faz com quem perdeu...faz-se com quem quer ganhar o futuro.
O PS, com o PCP/CDU na oposição de terra queimada ganha espaço para as batalhas das reformas que anunciou ao eleitorado.
O Barreiro é uma terra de esquerda, culta, certamente compreenderá as opções que venham a ser tomadas, mesmo que seja, dar, também, mais uma vez, ao PCP o beneficio da dúvida...se este partido quiser viver num clima de democracia partilhada.
Ficam as perguntas: E agora Emídio Xavier? E agora PCP?
Qual será a reposta? Ambos têm que encontrar uma resposta. Um casamento de conveniência conduz, mais tarde ou mais cedo, ao divórcio. E aqui, neste caso, nem há casamento...foi apenas partilhar, com desconfianças, a cassa comum













