Arte Viva - Companhia de Teatro do Barreiro«As Criadas»:uma peça de metamorfoses que olha a cidade por uma janela
A primeira nota que queremos formular é que o público corresponda e com a sua presença possa dar um estímulo a esta equipa que teve a coragem de colocar em cena este espectáculo.

Por Jornal Rostos
A peça «As Criadas» é de grande complexidade, exige uma atenção apurada no acompanhamento do texto que é dominante e, de facto, exige das três actrizes um grande esforço e dedicação de forma a concretizarem pleno domínio dos papeis e das personagens.
Elas estão formidáveis. Três personagens que se digladiam dentro de si mesmas – personalizando-se e despersonalizando-se – numa vivência bipolar que obriga as actrizes a mudanças de voz, de expressão, de contextualização, de construção e destruição da personagem.
Uma peça que obriga a um trabalho muito exigente, que, de facto, é interpretado com muito rigor, com expressão corporal e gestual.
Uma peça que nos faz mergulhar pelo mundo da psicanálise.
No plano das interpretações a peça pode dizer-se está cinco estrelas. Senti que todas dominam e bem os seus exigentes papeis, tirando uma ou outra «nuance» da «Senhora».
As actrizes multiplicam-se nas vivências absurdas e contraditórias com naturalidade e dão-nos a dimensão da condição humana, nas sucessivas encarnações – entre o ser e o parecer, entre o que se é e o que se deseja, entre o que somos e o que queremos que imaginem que somos.
É uma peça que nos motiva a pensar o tempo que vivemos e as circunstâncias.
Acredito que muitas devem ter sido as conversas de bastidores entre as actrizes, a encenadora e toda a equipa, sobre o sentido de levar a cena este espectáculo – aqui e agora.
No que diz respeito à encenação, a forma como se exprimem as marcações no palco, permitem a fluidez e movimento, com enquadramento cénico, onde a luz é determinante e os momentos sonoros se enquadram na recriação estética.
Um espectáculo com dimensão dramática, que nos coloca perante uma realidade viva, onde a ficção se torna real e o real ficção, no contexto do pensamento filosófico existencialista.
Uma peça onde o tempo tem o ritmo do próprio tempo, pulsa nas palavras e nas emoções das personagens, tendo o texto como linha condutora dos comportamentos, quer ao nível físico, quer ao nível psicológico.
Uma peça de qualidade. Com uma boa encenação.
Uma peça que marca pela sua actualidade,porque nos exige que a contextualizemos no tempo que vivemos, este tempo, de jogos palacianos, dos bons e dos maus, de comissões de inquérito, de facebook – onde só há pessoas boas – um tempo marcado pela dimensão do parecer e não pelo ser.
Uma peça de metamorfoses, que olha por uma janela para uma cidade lá fora que anda à procura de si própria – entre a realidade e a ficção.
No palco há teatro. As emoções fluem. E numa terra de operários, pensar esta peça no plano social, por vezes, parece que ela nos conduz a sentirmos «as criadas» como um grito à consciência que nos leva a pensar por dentro do que fomos, o que somos e o que continuamos a querer parecer, mas, afinal, já não somos.
No plano psicológico, enfim, ela traduz o drama da vida. Afinal, todos sabemos, que os piratas são sempre os outros, nós, somos sempre a perfeição! É o absurdo da vida, porque, no limite - somos todos iguais - nesse encontro que nos espera: a morte!
António Sousa Pereira
SINOPSE
Duas criadas, uma Senhora. Duas Senhoras, uma criada. Uma Senhora que é criada, uma criada que é Senhora, ou serão duas? Uma Senhora prestes a ser assassinada pelas criadas mascaradas de Senhora. Duas criadas oprimidas, pobres, invejosas. Querem os vestidos, querem a riqueza. A vontade é alimentada pelo desespero. Duas aspirantes a Senhora.
Uma Senhora que não sabe... não saberá? Entre o “silencioso arroto do lava-loiça” e a Senhora e “a sua estola, as suas pérolas, as suas lágrimas, os seus suspiros, a sua doçura”, há máscaras, mentiras, segredos e angústias.
Espectáculos às Sextas e Sábados, 21:30
Personagens – Actrizes
Clara – Patrocínia Cristovão
Solange – Vanda Robalo
Senhora – Manuela Ramos Félix
Ficha Técnica
Autor – Jean Genet
Tradução – Luiza Neto Araújo
Encenação – Carina Silva
Cenografia – João Pimenta
Construção e Montagem – Ricardo Nunes e João Henrique Oliveira
Adereços- Manuela Ramos Felix
Figurinos – Femmes Créatives
Confecção – O Dedal
Desenho de Luz – João Henrique Oliveira
Operação Técnica – Igor Angélico, Joana Matos e Marisa Conceição
Design Gráfico – João Pimenta
Produçao Executiva – Rita Conduto
Fotografia – Claudio Ferreira
Apoio Geral
Igor Angélico, Joana Matos e Marisa Conceição
Estagiários da Escola Secundária D. Pedro V













