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Inferências

Uma pedra redonda - BarreiroEste um retrato do meu país que nos faz perder a esperança

Esta tragédia é um retrato do meu país, neste século XXI. Desta luta diária de muitos – vivendo o sobrevivendo – neste combate de “um dia de cada vez”.
O Tejo, sempre o Tejo, neste encontro com memórias de um país que não se encontra dentro de si mesmo e perde-se, lentamente, nas águas do Tejo, por ali, como diz o poeta, o lugar que se vai para o mundo.

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Uma pedra redonda - Barreiro Este um retrato do meu país que nos faz perder a esperança

Por Jornal Rostos

O sol nasceu, em mais um dia. A luta pela vida recomeça. Cá estamos, neste percurso dos dias. Caminhando. Sempre caminhando. Lutando.
Todos os dias são mais um passo e outro passo, na forma que nos habituámos a viver, neste nosso canto, aqui, onde repetimos, uns para os outros: “Vamos vivendo um dia de cada vez:”

Ontem, o Manel saiu de casa pelas 7h30, rumo ao Tejo, onde, procurava obter o essencial para a sua sobrevivência e de sua família.
Trabalhador da construção civil, neste tempo de crise e falta de trabalho, encontrava na sua actividade piscatória um meio de garantir a sua sobrevivência e de sua família.

Num dia que o sol teimou em chegar, disseram-nos que o nevoeiro intenso, veio «barrar» o caminho entre as águas do Tejo e a margem.
A hora habitual de chegar a casa inquietou seus familiares.
Foram à sua procura. Estava lá o seu carro e roupa.
Alertaram as autoridades e iniciou-se a busca. Eram três os pescadores desaparecidos.
O corpo do Manuel, foi descoberto na outra margem, perto do Seixal. Os outros encontram-se desaparecidos.

Esta tragédia é um retrato do meu país, neste século XXI. Desta luta diária de muitos – vivendo o sobrevivendo – neste combate de “um dia de cada vez”.
O Tejo, sempre o Tejo, neste encontro com memórias de um país que não se encontra dentro de si mesmo e perde-se, lentamente, nas águas do Tejo, por ali, como diz o poeta, o lugar que se vai para o mundo.

O Manuel é um exemplo deste país que labuta, que luta, sufocado por troikas.
Quantos já ficaram perdidos neste tempo de dor?
Quantos continuam a aguentar no silêncio as dores que fazem os dias e nos obrigam a viver, silenciosamente – um dia de cada vez.
Dói. Dói mesmo. Ver o meu país afogar-se nas águas do Tejo.
Estava ali, no Mexilhoeiro, olhando as águas e aquela paisagem, vendo Lisboa, na minha frente e sentindo a dor das famílias, encostadas ao muro, à espera de noticias tristes vindas das ondas do Tejo.

Este um retrato do meu país. Onde sobreviver parece fazer mais sentido que viver.
Este um retrato do meu país que nos faz perder a esperança.

O Manuel era quem garantia e sobrevivência de sua família, lutava, todos os dias, nas águas do Tejo.
Uma manhã de nevoeiro traiu a sua luta.
Nunca mais vai ver o sol nascer e deixa-nos com esta tristeza de ser, afinal, um, entre muitos, que lutam, não desistem e combatem para manter essa frase como um lema: “um dia de cada vez”.
Até quando?
Há muitos “Manueis”, em muitos rios, em muitas ruas, em muitas casas, que estão ao nosso lado, todos os dias, mas nós não os vemos, nem os sentimos, porque, afinal, é Natal – tempo de prendas e festas solidárias.

Amanhã, outro dia, outro Manuel, dos milhares que todos os dias percorrem as águas do Tejo nesta luta de “um dia de cada vez”, será notícia.
É este um retrato do meu país, aqui, neste lugar, onde o Tejo ainda é uma porta que nos abre as portas ao mundo.

António Sousa Pereira

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