A(nota)mento do DiaRecordar o tempo das Rádios Locais do Barreiro e Moita…afinal, «Porque hoje é sábado»>

Por Jornal Rostos
Em tempos idos, quando as Rádios Locais, até, eram “clandestinas”, ali, em Alhos Vedros, emitia a Rádio Opção, num programa aos sábados, convidaram-me para produzir uma crónica. Aceitei o convite. Na altura dei-lhe o título genérico – «Porque hoje é sábado». Regularmente, durante meses, aos sábados, lá estava no ar a minha crónica.
Foi assim, também, na Rádio Sul e Sueste, onde gravava uma crónica - «Carreira 7» - que era transmitida em vários dias da semana, logo a seguir aos noticiários.
Mais tarde, fui convidado e iniciei um programa de rádio, na Rádio Sul e Sueste, com esse mesmo título - «Carreira 7». Foi uma experiência que guardo, uma recordação dos dias vividos.
Igualmente, a Rádio Margem Sul, convidou-me para emitir uma crónica semanal, integrando um painel de convidados, reservando um dia por semana a cada um dos cronistas para abordarem de forma livre um tema de actualidade.
Ocorreu-me isto ao pensamento hoje, afinal, «porque hoje é sábado». E recordo com tristeza porque apesar de aquelas frequências continuarem a existir, nos dias de hoje, não temos uma rádio local, nem ao serviço do concelho do Barreiro, nem ao serviço do concelho da Moita.
Um vazio que se sente, principalmente, para aqueles que viveram esses tempos de voluntarismo e muita paixão e que marcaram uma época – da «clandestinidade» à legalidade.
Talvez, no futuro, ainda possamos, de novo, voltar a ter no concelho do Barreiro, ou no concelho da Moita, as nossas Rádios Locais. É difícil.
As Rádios Locais, tal como a imprensa regional, sofrem uma problema, todos querem divulgar as noticias, todos acham importante o seu papel na vida da região, mas, de facto, são poucos os que se disponibilizam para apoiar estes projectos – quer com publicidade institucional, quer empresarial –porque, na verdade, quando se trata de patrocinar estes projectos, são poucas as vontades.
Por essa razão a imprensa regional sobrevive, luta e com dificuldades, vai mantendo a sua acção primordial para a promoção da vida das comunidades, para a valorização da democracia, para dar visibilidade ao que se faz e dinamiza na região.
Os títulos nascem e morrem. É preciso muita carolice e paixão, raramente reconhecida, sempre criticada. Exige-se profissionalismo. Procura-se fazer trabalho com essa dimensão, mas é impossível dar todas as respostas pela falta de recursos.
Mas, «porque hoje é sábado», surgiu-me esta ideia de escrever este apontamento. Um registo.
Uma mera reflexão sobre coisas que ocorrem à memória de quem tem vivido estas coisas da imprensa local e regional há décadas e vendo o tempo passar, sente, afinal, que os problemas estruturantes são sempre os mesmos.
Desde os tempos do primeiro projecto que criei no Barreiro «O Jornal Daterra».
Por isso acabaram as Rádios Locais e as frequências estão ao serviço de grupos nacionais.
Por isso acabam os títulos da imprensa regional – desde que o Rostos começou há 13 anos, no Barreiro, já nasceram e morreram, pelo menos três títulos de jornais, um título de imprensa digital, títulos de duas ou três revistas. E acabaram dois títulos de referência e com história – Voz do Barreiro e Jornal do Barreiro. Na Moita também ficaram para trás diversos títulos.
No Barreiro, tive a honra de escrever páginas brilhantes, com equipas brilhantes, quer como Chefe de Redacção, quer como Director do Jornal do Barreiro.
Recordo que quando cheguei ao JB, vendiam-se 10 jornais por semana, na banca junto ao Mercado Municipal 1º de Maio, quando sai vendiam-se mais de 200 por semana e, recordo, havia semanas que o Velho Tomé gritava: "São precisos mais jornais para o Mercado!».Belos tempos de paixão jornalística. Não cito nomes. Mas recordo esse tempo e essas equipas.
E o trabalho pioneiro realizado nos tempos do «Jornal Daterra». Conferências. Edições diárias nas Festas do Barreiro.
Enfim memórias.
Nós cá estamos, mas sentimos na pele, ontem como hoje, os problemas e as dificuldades… vamos lutando porque sentimos o pulsar das palavras e a importância da nossa acção.
Afinal, sentimos a felicidade de ter diariamente milhares de leitores, a mesma paixão que nos movia noutros tempos: fazer jornalismo!
Porque hoje é sábado…a vida continua.
Pois, afinal, num órgão de comunicação social desta natureza todos os dias são dias de trabalho!
António Sousa Pereira













