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Inferências

PS versus PCP ou a fábula –“O Boi e a Rã”

Os últimos acontecimentos da vida política barreirense foram marcados por fenómenos que podem ser interpretados como verdadeiros confrontos entre o “eu” e o “super eu” dos nossos políticos, entre a “catarse” e o “ressentimento”, entre a “libertação” e o “recalcamento”.
8 min de leitura
PS versus PCP ou a fábula –“O Boi e a Rã”

Por António Sousa Pereira

Na verdade, o conjunto “inesperado” de acontecimentos que marcaram a vida política, nestes últimos dias, no concelho do Barreiro podem ser interpretados à luz de uma terminologia psicanalítica.
De parte a parte, as duas principais forças políticas em confronto, se acusam mutuamente de “má fé”, acusações estas que pressupõem a emergência e a existência de comportamentos de conflitualidade que, de certa forma, têm vindo a ser superados e de que marcam as “relações” que, ao longo de décadas, foram sendo geradas, no concelho do Barreiro, entre estas duas forças de esquerda - PS e PCP.

Superar a “Neurose da Oposição”

O PS ao assumir, claramente, a sua posição de ruptura com o PCP, deu um passo em frente no sentido de superar a sua “neurose de oposição”, resultante de muitos anos de luta pela conquista do poder. O PS fez a catarse do “fantasma” que o atormentava.
O PS assumiu o seu “eu” libertando-se da “subsídio dependência” do PCP. De facto existia uma pressão, por parte do PCP, que estava a tornar-se insustentável, porque quanto mais os comunistas afirmavam que o “PS limita-se a promover as nossas propostas”, mais, na realidade, o PS sentia que estava a ficar sem espaço de manobra para se afirmar como força política credível e com um projecto para a cidade.
O “super eu” do PS vinha a dizer-lhe – “Tira os pelouros ao PCP. Não vês que eles não te respeitam”.
O “eu” do PS dizia-lhe – “Não posso. Eu não sou como eles. Eu respeito a democracia e a partilha do poder. Eles vão integrar-se.”
Este confronto entre o “eu” dos socialistas e a pressão do seu “super eu”, criava uma agitação permanente e, de facto, a continuar, podia evoluir de forma muito negativa, nomeadamente para uma eventual “nevrose política”.
E, sendo o PS um partido que valoriza o “eu” estava a ser-lhe cada vez mais difícil gerir esta conflitualidade, até porque o PCP teimava, constantemente, em promover “sentimentos de inferioridade” aos socialistas.

O complexo da superioridade moral

Por seu turno, o PCP ao insistir no seu discurso de “superioridade moral e política” visando, por esta via demonstrar que o PS não era alternativa ao PCP, que o PS não tinha ideias próprias, estava a assumir de forma plena o seu “super ego” – afirmando a sua dimensão social – e reduzindo o PS a um partido de incompetentes e incapazes.
A votação contra o orçamento de 2003, demonstrou que, ao longo deste ano, o PCP foi incapaz de superar os recalcamentos resultantes da derrota eleitoral.
O PCP continuava a apostar no esvaziamento dos socialistas colocando-os na opinião pública como força impotente e sem capacidade para assumirem um discurso da cidade e para a cidade, até porque, afirma o PCP – “O Barreiro é CDU”.
O PCP é um partido que vive a sua acção dominado pelo “super eu”, o seu voto contra o Orçamento é disso um exemplo, porque a sua moral inibe-o de assumir um “eu” que seja capaz de viver submetido ao exercício e ao respeito das diferenças. A verdade é o PCP, ponto final.
O “super eu” do PCP sufoca o seu “eu”, gerando os fenómenos de “renúncia”. O PCP vive em demasia a fomentar o complexo de culpa. Vota contra porque quer culpar os outros das suas insuficiências.
O “super eu” do PCP dizia-lhe : “Eles não prestam. Só fazem aquilo que nós propusemos. Eles precisam de nós. Eles têm medo de nós. Nós é que sabemos e não estamos aqui para os servir. Não nos calamos porque eles ganharam as eleições com promessas demagógicas. Nós não perdemos. Nós temos que voltar e eles sabem que nós vamos voltar por isso respeitam-nos. Nós continuamos a ser o poder. Os barreirenses querem o nosso regresso. Não lhes daremos um momento de sossego. Não pensem eles que nos compram. Nós não temos preço. Somos o futuro.”.
O “eu” do PCP dizia-lhe – “ Eles não têm coragem de nos tirar os pelouros. Eles dramatizam mas não têm coragem para nos retirar a confiança política, porque ficam dependentes do PSD. E eles sabem que a esquerda somos nós. Sabem que nós uma força igual a eles - empatámos”
Neste discurso entre o seu “eu” e o “super eu”, o PCP estava em vantagem, não tinha conflitos e continuava, por essa razão, a agir empurrando o PS para viver com o seu drama a “nevrose da oposição”.
O PCP vivia com a sua “superioridade moral” e estava num caminho sem retorno.

Foi uma “Vitória” ou um “empate”?

Em palavras do quotidiano. O PCP nunca aceitou que perdeu as eleições. O PCP viveu e vive, ainda hoje, com um filtro de análise da situação política local que lhe reduz espaço de flexibilidade estratégica – “as últimas eleições ditaram um empate técnico”. O PCP não perdeu. O PCP empatou. E este é o ponto determinante de toda a sua estratégia. Uma estratégia dominada pela ideia que o PCP conhece, sabe, tem experiência e, obviamente, vai voltar, não abdicando de “exigir o cumprimento de promessas eleitorais” que foram a causa da sua derrota.
Esta dimensão de avaliação, está, claramente, presente na “Declaração de Aceitação de Pelouros”, agora tornada pública, onde referem que – “as responsabilidades que agora assumimos ficam aquém da proposta por nós apresentada ao Presidente” e acrescentam – “tendo em conta...o conhecimento que temos do funcionamento da Câmara” e por fim referem – “mostrámo-nos disponíveis para assumir mais áreas de trabalho”.
Este discurso, está carregado de intencionalidades, não é inócuo e aponta caminhos de actuação, é o discurso que conduz, inevitavelmente, à votação contra o Orçamento de 2003.
O PCP foi vitima da sua própria estratégia. E, em continuidade, agora o PCP vai prosseguir esse caminho, numa oposição cada vez mais acesa e musculada – explorando sentimentos de vitima, de bairrismos, de xenofobia, não é por acaso, por exemplo, que já se comenta na cidade : “Veio esse gajo da Nazaré para aqui e está a prejudicar o pessoal que nasceu nesta terra”.
Vamos ter o PCP na sua melhor forma. Os socialistas que se cuidem. O PCP empurrou o PS para as mãos do PSD.
O PCP precisava de resolver esse seu problema interno, ou seja, saber, sentir conscientemente que perdeu e afirmar-se apenas como oposição.

O PSD é o “isso” do PCP e do PS

O PSD é, neste processo, em linguagem psicanalítica, o “isso” do PCP e do PS. O “isso” é o subconsciente que orienta alguns comportamentos.
No “isso” estão as recordações do PCP, que geriu durante dois mandatos a autarquia com o apoio do PSD.
No “isso” está a esperança do PS que aí encontra a forma de se libertar das suas angústias porque, se com o PCP não consegue dialogar, o PS tem que encontrar uma saída que lhe permita o controle das emoções e descobrir um rumo para os seus dias.
O PSD enquanto subconsciente e “isso” deste processo abre ao PS uma porta para a sua emancipação.
O PSD enquanto “isso” deste processo deixa ao PCP uma porta aberta para afirmar os seus impulsos de censura e de “superioridade moral”.
O PSD é o “isso” sem complexos de esquerda. Vive pelo poder e gerindo acima dos traumas – é tal famigerada “muleta” que permite gerir equilibrios.
Mas, agora, cada vez mais, é um “isso” apenas “isso” – um ponto de encontro entre o consciente e o inconsciente. Uma alavanca. Uma charneira.

Moral da história – uma rã nunca será um boi

Em conclusão, entre recalcamentos e catarses. Uns que renunciam a desejos condenados pelas suas convicções. Outros que se libertam fazendo a catarse de anos de silêncio.
Resta-nos a todos nós, que vamos vivendo este drama, sonhar, porque afinal, pelo sonho e nos seus símbolos talvez encontremos as razões que nos levem a descobrir porque será que a esquerda é tão racional e implacável consigo mesma...
Esta história toda, afinal, faz recordar aquela fábula – “A Rã e o Boi”. Recordam-se ?
O PS nesta história é o boi. O PCP, obviamente, é a rã. O PS é o poder. O PCP a oposição. Só que o PCP quer ser igual à rã – “Vocês estão a ver aquele boi tão grande e presunçoso. Pois eu sou capaz de ser igual ou maior do que ele”. Então começou a inchar, a inchar, a inchar e... já sabem como a história acabou. A rã rebentou. O boi continuou a pastar.
Moral da história, destes fenómenos conscientes e inconscientes, como diria o grego ESOPO – “Por orgulho, inveja e ambição, as pessoas julgam-se maiores do que são e consideram os outros inferiores. Os que assim se comportam acabam por dar um grande trambolhão”.

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