Inferências- Barreiro : pensar a «organização do trabalho na cidade»Um concelho marcado pelos serviços, pela crise e pelo pensar CUF
Começou a perder a sua dimensão de concelho industrial, transformando-se numa cidade dormitório, com predomínio dos serviços, realidade evidente nos anos 80.

Por Jornal Rostos
A última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro é bem um exemplo paradigmático de como, o território da ex-CUF e a cultura da «fábrica» é uma realidade indissociável do discurso político de todas as forças politicas do concelho do Barreiro.
Estava a assistir a esta Assembleia Municipal do Barreiro e, a certo momento, ocorreu-me à memória uma conferência realizada no Barreiro, sobre a indústria corticeira no Barreiro.
O declínio da indústria da cortiça
António Camarão, Técnico da Câmara Municipal do Barreiro, nessa conferência defendeu que “a estrutura urbana” do Barreiro, desde os finais do século XIX foi “crescendo ao redor das fábricas de cortiça”.
Segundo António Camarão, o início do declínio da indústria da cortiça no concelho do Barreiro, nos anos 50 e 60, teve origem na “pressão enorme” que era feita para que “as fábricas deixassem o Barreiro Velho” e fossem “corridas para a Verderena”, quer devido ao “avanço urbano”, quer ao “crescimento demográfico”.
“O urbanismo pressionou as fábricas da cortiça” – sublinhou, referindo que foi o concelho da Moita, Alhos Vedros que beneficiou com este facto, para onde se registou a deslocalização de fábricas do Barreiro.
O Barreiro e a fábrica
Registo estes factos, para introduzir as razões que me levaram a pensar nesta conferência, enquanto decorria o debate sobre o Terminal de Contentores do Barreiro.
Porque considero que este estudo tem uma importância crucial para se entender algo que é essencial no pensar as cidades e, muito particularmente, pensar o Barreiro.
Este estudo permite compreender que um território desenvolve-se de acordo com o modelo da sua organização de trabalho, que depois de traduz nas suas dinâmicas sociais.
Foi assim, com a chegada da linha de Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, que atraiu as fábricas de cortiça e a CUF.
Foi assim, com o desenvolvimento da CUF e o crescimento da influência da fábrica em todos os hábitos e costumes e na vida das famílias.
O Barreiro com ligação ao rio
O Barreiro, segundo historiador António Ventura, começou com uma intencionalidade do Poder da época, no século XVI, com o desmembramento do concelho de Alhos Vedros, retirando-lhe a sua importância estratégica, promovendo a criação dos concelhos do Barreiro e Lavradio.
Refere António Ventura que quando da criação do concelho do Barreiro, a sua actividade económica era essencialmente piscatória – “50% das pessoas que nasceram eram filhos de pescadores”.
O concelho do Barreiro sublinha limitava-se a uma área correspondente à zona entre a Feira Nova no Lavradio e a Verderena, enquanto o concelho do Lavradio, estendia-se até Palhais. No entanto, a zona de Vale de Zebro continuou a pertencer a Alhos Vedros.
O concelho do Barreiro nasceu com base na sua actividade piscatória e também na sua actividade portuária sendo a zona mercantil de passagem de mercadorias para Lisboa, retirando essa importância a Alhos Vedros e Moita.
A terciarização do concelho do Barreiro
Ou seja, ao longo de décadas, ontem como hoje, o Barreiro – como todas as cidades - desenvolve-se, cresce de acordo com as características de um modelo de trabalho.
Nos anos 70, com o forte crescimento urbanístico, inicia-se uma nova realidade, ao ponto de o Barreiro, apesar de ter uma vida própria, fruto da sua ligação à fábrica, começa a ser classificado como cidade-dormitório.
É aqui que se inicia um processo de descaracterização do Barreiro, dado que começa a perder uma referência de «modelo de trabalho» que marque a vida do concelho.
É aqui que se inicia o processo de terciarização do concelho do Barreiro, que, já nos anos 80, era bem claro que o sector dos serviços era dominante, acentuando-se com a crise da sua desindustrialização, que nada teve a ver com as nacionalizações, mas, com a crise internacional e a emergência de indústrias, com menos custos, noutros pontos do globo, por exemplo dos Adubos na Argélia ou Chile, ou a queda da indústria têxtil, crise que não encontrou saídas, nem procurou soluções alternativas.
Olhem, a FISIPE, hoje já estaria encerrada caso o Administrador Dotti não tivesse tido a visão de abrir novos horizontes e rasgar novos caminhos, ao ponto de colocar a empresa, nas mãos dos alemães que sabem e a reconheceram com empresa estratégica no mercado das fibras de carbono, que vai marcar o século XXI.
Ou seja, o futuro prepara-se. Foi o mesmo que pensou Sardinha Pereira, com a criação do Parque Empresarial da Quimiparque, e, assim, evitar o território transformar-se num deserto fantasma e, até, com a recolha de espólio que concretizou, com paixão, permitir a criação de um Museu Industrial e preservar muitas memórias.
A perda de centralidade
Tudo isto para dizer que o problema do concelho do Barreiro reside na indefinição de um «modelo de trabalho» que possa ser marcante para o processo de consolidação de uma ideia de cidade e do papel do concelho na região.
Problema este, ainda mais afectado com a construção da Ponte Vasco da Gama, que contribui para a crise da sua «valência» no campo da habitação e colocou o Barreiro descentralizado na Península de Setúbal e na AML.
E se não fora, o Barreiro ter uns Transportes Colectivos que prestam um bom serviço à sua coesão territorial, muito pior teria sido a sua desertificação e o envelhecimento do concelho.
Esta – os TCB’s - também, uma realidade que tem retirado ao município alguns milhões de euros, que dariam para fazer piscinas, pavilhões e tantas obras. Foi uma opção estratégica, talvez das melhores que deram ao município um papel único, e pouco reconhecido, para garantir algum equilibro sócio-económico do concelho.
Um concelho marcado pelos serviços e pela crise
O Barreiro é hoje um concelho marcado pelos serviços, por pequenas e médias empresas. Os seus maiores empregadores são o Hospital do Barreiro, a Santa Casa da Misericórdia do Barreiro – daí o seu crescimento laboral na área da saúde, desde os anos 80 – a Câmara Municipal do Barreiro e os seus TCB’s, e, talvez, a seguir seja a FISIPE.
Depois serão os Centros Comerciais, as empresas de distribuição – Pingo Doce, Continente, LIDL’s etc e muitas PME’s nos mais diversos sectores, de empresários que arregaçam as mangas e dedicam-se ao trabalho, gente que vive e luta todos os dias num combate, que perante a perda de poder de compra e do grande número de desempregados que afecta o concelho - dos mais elevados da região e do país - fruto da crise e das troikas, sente na pele as dificuldades.
A expansão urbana
O mais fácil é apontar um culpado. Afirmando que a culpa do envelhecimento, da perda de habitantes é do Poder Local que não tem estratégia. Arranja-se um culpado por bulling partidário e jogos de poder e fica tudo resolvido.
Havia uma estratégia, ela está espelhada no actual Plano Director Municipal, a linha central era o crescimento urbano, procurando dar respostas a necessidades de habitação da região, embarcando na «bolha imobiliária», como se dizia, essa era linha de pensamento nacional, e nosso caso, até, procurando dar respostas à implementação da Autoeuropa.
Isso, de facto, aconteceu até aos 90, sendo a última grande referência nesta matéria a Urbanização dos Fidalguinhos.
Perder referência de «modelo de trabalho»
Ou, então, outro culpado, pode ser acusar o Poder Central, porque deixou sem perspectivas o antigo espaço industrial da CUF e não valorizou os sectores ferroviários ou a mobilidade, optando pela travessia do Montijo e isolando o Barreiro.
O problema é que o Barreiro desde os anos 70, antes do 25 de Abril, começou a perder uma referência de «modelo de trabalho» que marque a vida da cidade e do concelho.
Começou a perder a sua dimensão de concelho industrial, transformando-se numa cidade dormitório, com predomínio dos serviços, realidade evidente nos anos 80.
Hoje, de facto, já não é um concelho industrial.
Hoje, embora, ainda seja um ponto de referência na procura de habitação, está a perder perante a concorrência da região, pela atractividade do Montijo ou de Alcochete, e, até mesmo de Palmela.
Barreiro pensa excessivamente CUF
Aposta-se agora, nessa esperança da «Plataforma Multimodal do Barreiro», porque todos sabem o problema do Barreiro reside no seu desenvolvimento económico e a criação de emprego.
A unanimidade politica gerada em torno da defesa do Terminal de Contentores dá bem essa leitura da visão estratégica que existe para o desenvolvimento do concelho do Barreiro, toda ela, em grande força centrada no pensar o território da ex-CUF.
A CUF foi – as Colónias de férias, os milhares de postos de trabalho, a formação de qualidade, a cultura do Mestre. Tudo isso foi.
Por vezes, tenho dito que o problema do Barreiro reside no pensar excessivamente CUF, viver a olhar para algo que foi e já não existe e continuar a alimentar a esperança em projectos que – sem dúvida deve apoiar – mas que já aprendeu com a história como, na verdade, tudo se perde e tudo se transforma.
Afinal que fazer dos 350 hectares
Quando um dia escrevi, nos anos 90, a propósito da proposta de instalação da ETRI, que em vez de ETRI, podíamos ter aqui nossa EXPO na margem sul, esse era um sonho, talvez possível, se na altura, tivesse sido agarrado com coragem pelo Poder Central.
Mas, afinal, a ideia só começou a ser estimulada ou pensada, depois do município ter lançado um desafio, que até era contrário ao previsto no PDM, com o projecto do Arquitecto Salgado.
Foi preciso o município lançar um repto. Querem pais, este é um pai. Mas, tudo não passou do papel.
Depois veio o Masterplan. Seguiu-se o Arco Ribeirinho Sul. Agora temos o Terminal de Contentores, que já evoluiu para «Plataforma Multimodal».
A realidade é que temos 350 hectares do território do concelho, o qual foi a sua centralidade no século XX, anda em bolandas, sem objectivos nem finalidades, porque o seu gestor tutelar é o Poder Central e para ele não tem tido projectos.
Os que existiram após o 25 de Abril foram elefantes brancos – Forno Cal, Zinco Metálico, Poliois, CPB, Kow-seiko, etc. Se calhar até, meramente, para entrarem fundos do FMI, quando da primeira ruptura do país.
Discussão central do seu futuro
A realidade de hoje, é que o Barreiro precisa de discutir e aprofundar o seu «modelo de trabalho». É esta a discussão central do seu futuro.
E, é essa discussão que os partidos políticos não estão a fazer. Foi isso que senti ao assistir aos trabalhos da última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro.
O Barreiro continua a pensar chaminés, quando chaminés são uma mera referência espacial e histórica.
O Barreiro continua a pensar no seu futuro numa galinha de ovos de ouro, que já não existe, o território da ex-CUF. E todos lavam as mãos de assumir uma discussão séria sobre a discussão do «modelo de trabalho da Cidade», que implicará a sua afirmação na região.
Barreiro é uma terra criativa
O Barreiro é uma terra criativa, tem muita gente que gosta de viver aqui e quer viver aqui, e sente necessidade de ver a cidade crescer.
Que cidade queremos legar aos nossos filhos, antes que eles fujam de cá ? Que serviços dinamizar? Que dinâmicas culturais? Que dinâmicas no Desporto? Que fazer da sua rede de cidadania - dita associativismo? Como galvanizar as PME’s para a construção de projectos? Como dar vida ao centro da cidade?
É preciso criar postos de trabalho, em diferentes frentes.
Que papel pode desempenhar o Hospital do Barreiro?
Que papel para o Instituto Politécnico do Barreiro? Neste caso ao nível da reabilitação urbana.
Está em discussão a estratégia do Barreiro 2020, muito bem, centremos a reflexão, neste parâmetro que pode ser definidor do modelo de cidade – que «modelo de trabalho» queremos que a cidade assuma na região.
Uma cidade de serviços, porque não ? Que serviços privilegiar?
Uma cidade de comércio , porque não? Como unir – Pingo Doce, Continente, Forum, Retail Planet - numa frente de promoção da cidade como espaço com marcas de referência?
Que podemos fazer para afirmar o Barreiro na região, como referência económica, cultural, desportiva e social?
Dar força ao que somos
Obviamente, não coloquemos de lado a discussão da Plataforma Multimodal do Barreiro, nem ignoremos a importância da Terceira Travessia do Tejo e até, perspectivemos o Barreiro e a sua importância na região, se o Aeroporto de Lisboa for construído em Rio Frio, mas, existe o hoje, o aqui e agora.
Porque, enquanto nada disto acontece, talvez, o ideal, seja tomar por base uma estratégia de desenvolvimento indo ao encontro daquilo que somos, o que podemos potenciar – cidade residencial, cidade de serviços, cidade com valores e uma cultura cheia de potencialidades.
Pensemos como dar força ao que somos e ao que temos e, isso, cá por mim que não percebo nada de nada e estou meramente a especular, passa por definirmos – um modelo de trabalho com base na realidade.
Promover projectos de ideias, como esse que está em marcha para a Estação de Sul e Sueste e área envolvente. Avançar. Mobilizar a cidade e exigir ao Poder Central, com energia e com força que assuma as suas responsabilidades.
Depois, os sonhos de milhões e milhões – caso actividade portuária - quando se concretizarem, acrescentarão e darão mais força a um caminho que entretanto começarmos a construir.
Foi, tudo isto que senti e fui pensando enquanto escutava as «narrativas politicas» da última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro e ao pensar aquela conferência da cortiça e o discurso do António Camarão, que me dizia a cidade cresce e desenvolve-se à volta de um modelo de trabalho.
Viver a cidade
Porque, afinal, uma cidade só cresce e se desenvolve se tiver estruturado um «modelo de trabalho» e, sinto, cada vez mais, que esse é o problema do concelho.
Parece que todos sonham e acreditam que o seu desenvolvimento passa pela criação de uma nova CUF. Pode ser. Talvez já cá não esteja para ver.
E, afinal, como vivo aqui hoje e quero continuar a viver aqui acho que seria útil discutir e pensar, em simultâneo com o sonho, esta necessidade de potenciar coisas novas criativas e ao encontro da vida real – o tal projecto para dar vida e animar a Avenida da Praia, o dar força ao projecto Cidade para todos, o acreditar nas potencialidades da Mata da Machada, revitalizar o centro do Barreiro, promover as suas potencialidades em relação ao rio e também ao nível cultural e desportivo.
Envolver agentes diversos em debates e propostas de acção. Viver a cidade.
Um concelho cidade
Pensar e desenvolver aquele conceito, que defendo com unhas e dentes – o concelho cidade – um concelho polinuclear, de diversas centralidades – do Lavradio a Coina.
Um concelho que se afirme na região como o concelho da Liberdade de forma quem visite Lisboa, dê um salto a esta margem, ao encontro da sua história e memórias que existem vividas no seu quotidiano.
É que, na verdade, continuar a centrar o pensar Barreiro, tendo o território da CUF como questão central, para mim é redutor.
Pensar a «organização do trabalho na cidade»
Pensar a «organização do trabalho na cidade» e dar-lhe unidade na diversidade, é isso que o Barreiro precisa, com politicas estratégicas diferenciadas de curto médio e longo prazo.
Que mil postos de trabalho floresçam.
Os barreirenses a pensar e lutar pelo Barreiro. Depois, se os senhores do Poder Central, acharem que têm projectos para implementar no território da ex-CUF, nós cá estamos e apoiamos, mas, cá para mim, já chega, foram 40 anos a sonhar e a adiar sonhos.
Contemos com as nossas forças e lutas. Unamo-nos ao Seixal para criar uma ligação, como alguém dizia, nem que seja pedonal – estilo passadiço de Alburrica ( com uma ponte elevadiça para dar passagem aos barcos). Alarguemos o nosso espaço de comunidade.
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
O Barreiro tem todas as condições para ser uma grande cidade de serviços, de cultura, desporto, lazer e turismo. Se a tudo isto se juntar, no futuro, uma dimensão portuária, muito melhor. Não fiquemos à espera do Terminal.
É preciso, de uma vez por todas clarificar-se o «modelo de trabalho`» que se quer construir e desenvolver no concelho, é por aí que passa o seu futuro. É esse o desafio que se coloca aos nossos políticos.
Ser a cidade que «fomos» ou ser a cidade que queremos e podemos ser…
Subscrevo as palavras de Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro – Quem sabe faz a hora não espera acontecer!
Há mais Barreiro para além dessa «pérola» que não podemos ignorar, mas, de facto, se ficamos olhar para ela, só para ela, até parece que somos o Comendador Medeiros da telenovela «Império» - a sua vida perdeu sentido sem a joia de estimação.
António Sousa Pereira













