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Inferências

A(nota) mentos - BarreiroOs políticos com vergonha de ser políticos

A politica é uma causa nobre, deve ser entendida como uma missão, prestar serviço à comunidade, dar o saber pessoal ao serviço da comunidade.

A politica é uma causa exigente e como tal obriga, em democracia, que existam homens e mulheres que se disponibilizam para dedicar-lhe a sua vida a tempo inteiro.

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A(nota) mentos - Barreiro Os políticos com vergonha de ser políticos

Por Jornal Rostos

Quando alguém se candidata a um cargo politico, seja ao nível nacional, regional ou local, principalmente quando se assume como cabeça de lista de uma força politica, de certeza que, à partida está convicto, caso conquiste o voto do eleitorado irá ter que abdicar da sua vida profissional e entregar-se de forma total à causa que abraçou, assumindo o seu mandato a tempo inteiro.

Por isso, a legislação prevê os vencimentos e os direitos aos políticos eleitos.
Não me parece que isso seja uma coisa má, antes pelo contrário isso é o custo da vida democrática, do nosso direito de escolhermos aqueles que assumem a gestão da coisa pública.
Nem vejo como seria possível, por exemplo, um autarca, acompanhar a gestão de uma autarquia se não pudesse fazê-lo a tempo inteiro.

Claro que nem todos os autarcas exercem as funções a tempo inteiro, essa é uma prerrogativa para aqueles que receberam o voto maioritário do eleitorado.
Mas todos os autarcas recebem pelas funções que exercem. Recebem senhas de presença, desde as Assembleias de Freguesia, Assembleia Municipal, Juntas de Freguesias e Câmara Municipal.
Ainda bem que assim é, pois essa é uma compensação pela dedicação à causa pública.

Ser politico é estar disponível para, em qualquer momento do movimento da história de uma comunidade, ter disponibilidade para assumir cargos públicos a tempo inteiro.
Os políticos são criticados e, quantas vezes achincalhados na praça pública, acusados de tudo e mais alguma coisa, de tal forma que, tornou-se uma banalidade, falar mal dos políticos.
Aliás, para alguns é mesmo uma atitude de superioridade moral apontar os dedos aos políticos, principalmente para aqueles que fazem da vida politica a sua opção de cidadania.

Admiro os homens e as mulheres que optam por dedicar-se à causa pública e fazer da politica um modo de vida. Isso só é possível com convicções muito fortes, com ideologia, com vontade, com querer servir.
Por isso admiro pessoas como Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, que fez da acção politica a sua opção de vida.
Ou, Bruno Vitorino que sempre vi como um politico convicto, activo e que sempre fez da politica a sua opção de viver.
São homens com causas. São homens com ideologia. Um é do PCP. Outro do PSD.
Mas, obviamente, também há homens e mulheres de outros partidos que decidiram optar por este caminho e sempre que tal lhes foi proporcionado, lá estiveram na vida politica a tempo inteiro.

Estes homens e mulheres que optaram por viver para a causa pública e pela causa pública, mesmo que deles discordemos, mesmo que como cidadãos os combatamos no confronto democrático, são merecedores do nosso respeito.
Mas, cada vez mais, por diversas razões, pela perda de credibilidade da acção politica, por sentirmos que os discursos se afastam da vida real, isso leva a perda de confiança na politica e nos políticos.

Isto não significa que na vida politica não existam, como em tudo na vida, as excepções – os carreiristas, os que vêm na politica uma alavanca para subir na vida, mas, isso, também, muitas vezes, ou por vezes, o tempo resolve.

Escrevo estas notas, porque, de facto, uma coisa que me incomoda é quando são os políticos a apontar o dedo aos políticos.
Principalmente aqueles políticos que dizem não viver a politica a tempo inteiro - porque o eleitorado não lhes deu o voto - pois sabemos, caso tivessem ganho teriam que estar a tempo inteiro, ou então seria impossível exercerem o cargo para o qual se candidataram.

Esses políticos, afinal, sentem vergonha de ser políticos, porque, na verdade, mesmo não estando na politica a tempo inteiro, as responsabilidades politicas que assumem, exigem que se comportem como tal – políticos que vivem a politica a tempo inteiro.
E ser politico a tempo inteiro exige convicções, exige ideologia, exige carácter, exige dignidade, exige que respeitem aqueles que estão a tempo inteiro, como homens e mulheres ao serviço de uma causa nobre – a política.

Quando um politico, que opta por ser politico, aponta com desdém aqueles que são políticos a tempo inteiro, então, o melhor que faz é demitir-se do cargo politico que exerce, porque não é merecedor de receber aquilo que o erário público lhe atribui no exercício do seu cargo.
A politica precisa de pessoas que vivam a politica, sintam a politica, lutem pela politica, assumam o confronto politico – não em discursos de circunstância, mas em modos de estar e afirmar a cidadania.
Por isso, aqui deixo os parabéns a Carlos Humberto, pela sua dignidade, a Bruno Vitorino, pelas sua verticalidade e a todos os que fazem da politica uma causa nobre e que, afinal, contribuem, nas diferenças para que sintamos que há democracia.
O preço da democracia é termos políticos a tempo inteiro, termos partidos e pudermos escolher quem gere os nossos destinos.
O preço da democracia é, também, termos políticos que se envergonham da democracia e dos políticos a tempo inteiro.
Felizmente há democracia e há homens e mulheres que assumem com coragem ser políticos a tempo inteiro.

António Sousa Pereira

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