Inferências - BarreiroMata da Machada e Sapal do Rio Coina Área Protegida Local
Uma marca do novo visual do Barreiro neste começo do século XXI
A inauguração do CEA não foi um acaso, resultou de ideias que estavam sendo germinadas e já tinham sido estruturadas com base num projecto assinado no ano 2000, entre a Câmara Municipal do Barreiro e a Universidade Nova tendo por objectivo dinamizar a elaboração do Plano Municipal do Ambiente.

Por Jornal Rostos
Vivo no Barreiro, na verdade, há algumas décadas, a caminhar para o meio século.
A Mata da Machada entrou no meu imaginário, nos anos 80, com a descoberta dos Fornos de Cerâmica, antes disso era – mesmo não sendo – um espaço reservado e de acesso limitado, pouco ou nada valorizado na vida local.
O Barreiro pulsava junto ao Tejo nas fábricas da CUF e essa era a sua identidade. Mesmo os ferroviários, tendo peso na vida local, sucumbiam perante o império CUF.
Sonhar o Barreiro Verde
No passado dia 5 de Junho foram assinalados 10 anos da inauguração do Centro de Educação Ambiental na Mata da Machada, no ano 2005, no decorrer do mandato da gestão do Partido Socialista, liderada por Emídio Xavier.
A inauguração do CEA não foi um acaso, resultou de ideias que estavam sendo germinadas e já tinham sido estruturadas com base num projecto assinado no ano 2000, entre a Câmara Municipal do Barreiro e a Universidade Nova tendo por objectivo dinamizar a elaboração do Plano Municipal do Ambiente.
Aliás, Carlos Mauricio, no seu programa de candidato a presidente da Câmara Municipal do Barreiro, derrotado por Emídio Xavier, lançou como ideia central a construção de um «Barreiro Verde», que implicava fortes intervenções nas áreas ribeirinhas, Sapal de Coina e Mata da Machada .
Como um dia escrevi, a ideia de construção de um «Barreiro Verde» era um “momento da utopia, que nos levava a “pensar o Barreiro como um «Barreiro Verde» em contraponto ao «Barreiro Cinzento» que foi a sua marca central no século XX”, era, afinal, começar a pensar o Barreiro do Século XXI.
Elaboração do Plano Municipal do Ambiente
A gestão PS, dando continuidade ao protocolo assinado pela CDU com a Universidade Nova desenvolveu o processo de elaboração do Plano Municipal do Ambiente, um processo muito bem dinamizado e acompanhado pelo então Vereador Luis Pedro Cerqueira. Debates abertos, vivos e participados.
O Plano Municipal do Ambiente (PMA) do concelho do Barreiro seria apresentado em 13 de Dezembro de 2008, com a orientação politica de Bruno Vitorino, vereador eleito pelo PSD, responsável pela área do Ambiente.
Um documento que pretendia ser a base estruturante de uma política de gestão municipal com a ambição de promover o desenvolvimento ambiental sustentável.
Dizia Bruno Vitorino tratar-se de um instrumento “na lógica do pensar globalmente, agir localmente” que na prática, disse, na altura: “terá a importância que a sociedade e a classe política dela souberem retirar”.
PDM – defende zona ecológica
Mas, voltando à Mata da Machada, já no ano de 1992, os escuteiros do Barreiro, por serem dos grandes utilizadores daquele espaço natural e sentirem que o mesmo estava desligado da comunidade barreirense, em abaixo assinado defendiam que aquela área fosse preservada como “área natural” de forma a evitar a sua destruição pelo alastrar do urbanismo.
Este abaixo assinado foi apresentado em reunião de Câmara, no ano de 1992, pelo então vereador do Ambiente, João Pintassilgo, eleito pelo Partido Socialista.
Aliás, o PDM - Plano Director Municipal, aprovado nesse ano de 1992, na gestão de Pedro Canário, CDU, defendia a zona do Sapal de Coina e Mata da Machada, como reserva ecológica do concelho.
Plano de Protecção de Incêndios
Um longo processo. Com diferentes actores. Um processo aliás que incide sobre uma área do território que não é de jurisdição municipal.
Recordo, que quando por razões profissionais, estive ligado ao Serviço Municipal de Protecção Civil, registei as diversas preocupações e intervenções do executivo municipal em defender a Mata da Machada, lançado as bases estruturantes de defesa de incêndios, colocando as bocas de água na zona envolvente.
Pessoalmente, tratei de três candidaturas, tendo-me deslocado a Moura para as entregar e discutir com os técnicos, as quais foram aprovadas, uma de limpeza de aceiros, outra de aquisição de motos de vigilância, e, ainda de alargamento da rede de bocas de incêndio, mesmo, de facto, esta não sendo da responsabilidade da autarquia, mas enquadradas no objectivo de criação de um Plano de Prevenção de Fogos na Mata da Machada.
Isto, na gestão da CDU, sendo responsável pela área o Vereador Carlos Maurício, que sempre vi como um entusiasta e defensor da Mata da Machada.
Unanimidade na criação da Reserva Natural
A Assembleia Municipal do Barreiro, aprovou em 28 de Setembro de 2012, por unanimidade, a proposta apresentada pela Câmara de Classificação da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina como Área Protegida Local, que tinha sido, igualmente aprovada por unanimidade, na reunião pública da Câmara Municipal do Barreiro, realizada no dia 8 de Agosto de 2012, um processo que foi acompanhado politicamente por Nuno Banza, vereador eleito pelo PSD, responsável pela área do Ambiente.
Felizmente, nesta fase já existia unanimidade, porque, antes, em Fevereiro de 2012, os vereadores do Partido Socialista abstiveram-se, afirmando em declaração de voto, que embora reconhecendo a qualidade do trabalho realizado no sentido da criação da Reserva Natural do Sapal do Rio Coina e Mata da Machada, tinham dúvidas sobre as competências definidas no Regulamento, justificando por essas razões a opção pela abstenção.
Plano Estratégico a aposta no futuro
Recordo este factos, porque já estou cansado desta politiquice de «bola de ping- pong» sobre os pais da criança.
O facto real é que a Mata da Machada durante décadas e décadas foi ignorada pelo Barreiro, uma realidade que se estende a muitos anos antes do 25 de Abril e mesmo após essa data revolucionária.
Aliás, ainda há por aí, segundo dizem, quem ande às voltas na procura da legitimidade do direito de propriedade individual sobre aquele território.
A realidade emergente após o 25 de Abril e o desenvolvimento de uma cultura ecologista entre os jovens nos anos 90, quer de escuteiros, quer de associações ambientalistas, entre as quais, a Geração Verde – onde participaram os jovens Nuno Banza e Rui Lopo – foi o pontapé de saída para um processo moroso, lento, conturbado e que ainda está muito por construir.
Por exemplo, aquele espaço «Parque Aventura», que tanta polémica deu e que, nos dias de hoje, está abandonado, podendo ser um óptimo espaço de educação ambiental e fruição da natureza, utilizado pelo Centro de Educação Ambiental ou pelos Agrupamentos de Escuteiros. Ali está abandonado entregue por protocolo a uma associação Equilibrio, que não faz nada , nem deixa fazer.
Não haverá coragem politica para resolver esta situação?!
Esperemos que a elaboração anunciada do Plano Estratégico para a Mata da Machada e Sapal do Rio Coina posa ajudar a reflectir e dar um contributo para resolver esta situação.
Novo visual neste começo do século XXI
A Mata da Machada e o Sapal do Rio Coina podem ser a alavanca para a ajudar à viragem de uma página da história do concelho e a sentir a sua entrada com um novo visual neste começo do século XXI.
Escrevi um dia que senti com a aprovação da Área Protegida do Sapal do Rio Coina e Mata da Machada estava fechar-se o capítulo começado nos finais do século XIX e que se estendeu ao longo do século XX – o Barreiro como terra que ficou conhecida pelo país e pelo mundo como “uma terra cinzenta e poluída” vai renascer como um dos pulmões verdes da Área Metropolitana de Lisboa.
Portanto, mais que pais, filhos e enteados, o importante é que existam politicas estruturantes e que este espaço natural contribua para o desenvolvimento do Barreiro e não seja uma arma de arremesso politico.
Que têm feito os sucessivos governos pela Mata da Machada e sapal do Rio Coina?
Não fosse a Câmara Municipal do Barreiro e os diversos agentes locais a Mata da Machada era um espaço ignorado na região.
É talvez a hora de discutir a municipalização daquele território e devida transferências de meios para o gerir na proximidade e na região.
Hoje, este, é um exemplo único no distrito de Setúbal, é um caso de estudo, faz parte da agenda de quem queira pensar e sentir o Barreiro do século XXI.
Devia talvez, esta, ser a altura oportuna, no âmbito da elaboração do Plano Estratégico, de promover um debate de âmbito cientifico, envolvendo o meio académico, sobre o «Caso de Estudo» Mata da Machada e Sapal do Rio Coina no contexto da AML, que vai para além dos aspectos ambientalistas, envolve matérias como turismo e história da e na AML.
António Sousa Pereira













