Barreiro - «Concerto para Sanca João» de Carlos Alberto CorreiaMemórias de um país escritas de forma sensível e com grande sinceridade
Ao pensamento ocorreu-me a ideia que é esse o caminho que colectivamente estamos a fazer.

Por Jornal Rostos
Acabei, neste momento de ler o romance «Concerto para Sanca João», de Carlos Alberto Correia. Levantei-me. Abri a página do Google, onde acompanho diariamente o pulsar do mundo. Leio a noticia da morte de Omar Sharif e escuto os sons do filme de Doutor Jivago.
Dou comigo a pensar nos pensamentos que ecoam por dentro de sons que guardamos no pensamento, aquilo que no romance é também uma realidade. As canções que evocam a memória dos dias.
O Doutor Jivago é um romance que nos faz viver por dentro os sentimentos de uma revolução. Uma revolução é sempre uma porta que abre caminho aos sonhos e a muitas contradições. Tempos de mudança.
O romance de Carlos Alberto Correia é também esse mergulho por dentro de tempos de mudança.
Quando estava a ler o romance de Carlos Alberto Correia em certos momentos o que me ocorria ao pensamento era a história recente e distante do meu país. Esse reencontro com a história de um povo. O povo dos Descobrimentos. O povo do Ultimatum. O povo da Guerra Colonial.
Um povo que fechou uma página da sua história milenar com o 25 de Abril. E iniciou um tempo novo.
Quando estava a ler o romance de Carlos Alberto Correia senti, muitas vezes, um sentimento de catarse. Um ajuste de contas com as memórias e a história.
Ao pensamento ocorreu-me a ideia que é esse o caminho que colectivamente estamos a fazer.
Recordei que, por exemplo, nos últimos tempos, no Panteão Nacional foram prestadas três homenagens, inscrevendo na nossa história colectiva três personalidades – Amália Rodrigues: essa voz do fado e da saudade ( a tal palavra única no mundo que marca a língua portuguesa).
Recordei como o Fado, antes do 25 de Abril, naqueles tempos de Guerra Colonial era considerado por todos os que se opunham ao regime fascista, como um símbolo do regime. Agora património imaterial da humanidade e simbolizado no panteão nacional por Amália Rodrigues.
Também Eusébio, o nosso rei do futebol, cujas lágrimas se multiplicaram por muitos rostos, quando no ano de 1966, no mundial em Inglaterra, sentiu o peso da derrota perante a equipa Inglesa.
E, recordei, como o futebol foi sempre uma arma de confronto ideológico contra o regime da ditadura – uma alienação do povo.
Agora, no Panteão Nacional, para memória futura dos valores de um povo, lá está o nosso rei Eusébio e com ele o futebol.
Ainda, recentemente, Sophia de Mello Breyner Andresen, poetisa, de quem todos recordamos “há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não”. Católica, daqueles que ergueram a voz nos tempos de ditadura cantando - "Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!".
Também ela, ali está no Panteão Nacional, como símbolo de um povo e da força que a poesia tem nas nossas vivências culturais. E como, afinal, o catolicismo é uma presença na nossa identidade. O Catolicismo que também, entrava nos três «Efes» do antes do 25 de Abril – Fado, Futebol e Fátima.
Tudo isto foi passando pelo meu pensamento enquanto percorri as 740 páginas do romance «Concerto para Sanca João».
Um romance que insiro no género de «Romance psicológico», onde as personagens estão ausentes e emergem por dentro das memórias, neste caso da memória do narrador.
O narrador personagem é a referência da acção e afirma-se como o conceito psicológico-moral.
Fazedor de história e juiz da história. Depois, o leitor que interprete e sinta. Li, antes do 25 de Abril, e não consegui encontrar entre os meus livros, um romance que não recordo o autor, mas que Óscar Lopes definia como sendo um romance pioneiro em Portugal neste género literário. Um mero registo.
Tudo se passa no romance por dentro das memórias da personagem – um romance dentro de uma cabeça – num reencontro com a visão ética, estética e ontológica do narrador. O romance de Carlos Alberto Correia tem esta matriz.
Um romance que nos faz reviver por dentro de contextos e situações, de antes do 25 de Abril e do PREC – sim, é verdade, como refere o narrador: o homem e as suas circunstâncias.
Um dia, também antes do 25 de Abril, li o livro «Vietname – a chacina de Mylai», – este encontrei – de John Sack, que me ocorreu ao pensamento quando lia o romance de Carlos Alberto Correia, ao reviver as memórias da Guerra Colonial, uma realidade que, ainda nos dias de hoje, marca o sentir de muitos portugueses, principalmente a «geração das reguadas», que foi ensinada - na escola e na vida - a obedecer e respeitar os valores da pátria una e indivisível.
John Sack conta as suas memórias da guerra no Vietname de forma muito sensível e com grande sinceridade. Foi esse sentimento que fui vivendo ao percorrer as páginas do «Concerto para Sanca João». O narrador está sempre com os nervos à flor da pele.
Afinal, o narrador presta nesta sua obra uma homenagem ao guerrilheiro – Sanca João - que morreu sendo torturado, mas afirmando, que matavam seu corpo e não matavam sua ideia, como, afinal, aconteceu com muitos que durante 40 anos lutaram pela Liberdade. Sanca João é afinal o único e real personagem deste romance. E surge-nos no Prólogo, na guerra e no PREC (aqui, curiosamente, assumido como pseudónimo do narrador).
Em conversa, com Carlos Alberto Correia eu dizia-lhe – “Tu afirmas no teu livro”. Ele refutava – “Eu não, o narrador”.
O romance pode não ser uma autobiografia, mas, acredito, tem muito de autobiográfico, de situações vividas por dentro, sentidas, sofridas, quer na Guiné, quer no pós- 25 de Abril.
Gostei de ler o romance de Carlos Alberto Correia. Um reencontro com as memórias. Há acontecimentos relatados que penso – “Eu estava também aí!". Como na situação do Ralis.
Revejo a parada de Lanceiros 2, os sacos de areia, as metralhadoras, não no 25 de Novembro, mas no 25 de Abril.
Um, romance que nos convida a revisitar a história, acontecimentos, paixões. Aquelas paixões vividas de forma intensa nos dias do PREC que se inscreveram nas memórias de uma Liberdade, feita de sonhos. Só quem viveu por dentro estes dias, em todas as suas circunstâncias, sente a justiça e a injustiça dos tempos de revolução e mudança.
Ou indo mais atrás, aos tempos de censura da imprensa. O lápis azul. O escutar no silêncio da noite Zeca Afonso ou Adriano. Um sonho de fazer um país melhor e diferente.
O sonho da «geração das reguadas», que aprendeu a sonhar e calar. A lutar e obedecer. A viver e morrer.
Carlos Alberto Correia convida-nos a fazer esta «catarse», este reencontro com a história e as memórias.
Uma história que, afinal, não acabou no 25 de Novembro, nem começou no 25 de Abril, é uma história de um povo que abriu as portas à modernidade – como diz Hegel na «História da Razão» - espalhou sua cultura e língua pelo mundo, uma das mais faladas pela humanidade.
Um povo que aprendeu, desde cedo, que este canto – único e lindo à beira mar plantado – é afinal pequeno para as suas ambições, por isso parte, por isso chega, por isso ama e se inscreve, hoje, no seu Panteão Nacional com Amália Rodrigues, Eusébio e Sophia de Mello Breyner Andresen.
E, afinal, não é por acaso, que nos últimos dois anos nasceram na Noruega 200 bebés, filhos de portugueses, porque há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.
E, um povo com uma história milenar, uma língua falada por mais de 200 milhões, deve olhar para a sua história e memórias com coragem…não temer olhar para trás e seguir em frente.
Foi este o sentimento final que retive ao ler a última página do «Concerto Para Sanca João». Um romance que faz renascer, no presente, um narrador que morreu ou está algures, na busca de ressurgir, como se fosse o eterno mito de D. Sebastião.
Parabéns Carlos Alberto Correia. Gostei e entusiasmei-me na leitura. Desculpa, pode não ser e não será, obviamente, uma obra autobiográfica, mas, por vezes, eras tu que estavas, ali, a contar-me as tuas memórias!
António Sousa Pereira













