Barreiro – Por dentro dos DiasA morte é uma certeza. Viver é uma incerteza.
Quando sentirmos que vivemos, não matando os dias, mas construindo os dias.

Por Jornal Rostos
Hoje, pela manhã, comentava que não me incomoda a morte, até, porque, esse é um final ao qual nenhum de nós pode fugir, nem vai conseguir fugir. Todos nascemos para morrer. Esta é a realidade.
E, nos comentários, eu salientava que, de facto, o que por vezes dói, não é o morrer, é viver uma vida apenas à espera da morte. Assim, como quem vive à espera que os dias passem, que vão passando, não sentindo o tempo por dentro. Estar por aí, apenas, consumindo as horas e os dias. É isso que sinto tristeza da vida. Envelhecer apenas por envelhecer.
É por pensar o tempo e sentir o tempo, por dentro, que não quero envelhecer, assim, apenas envelhecendo. Quero envelhecer sentindo os dias por dentro do tempo, sentir as alegrias do que é ver o nascer e o pôr-do-sol, sorrindo.
A morte é uma certeza. Viver é uma incerteza. Essa é força da vida, todos os dias construir, criar, aprender, sorrir, amar, descobrir em cada dia um novo dia, dando certeza às incertezas.
Aprender a envelhecer é aprender a morrer, com um cântico nos olhos e nos nervos.
Um dia, em tempos idos, alguém me dizia que eu tenho uma tendência para escrever quando algum amigo morre, ou quando estão dias de chuva, ou o sol teima em se esconder entre as nuvens, negras de silêncio.
Morreu hoje um amigo. O Lomélio Carapau Quarenta. Um dedicado contínuo da Escola Mendonça Furtado. Um Bombeiro Voluntário. Um sonhador da revolução nos tempos do PREC.
Mantivemos sempre uma relação de amizade, de cortesia, de cumplicidade silenciosa. Não é que fossemos íntimos, mas sempre que nos cruzávamos, trocávamos uma fraterna saudação.
Um destes dias fotografei-o, junto ao antigo Campo de Futebol do Barreirense, ele, com a D. Cândida, da Transmontana. Os dois sorrindo com o jornal «Rostos» na mão. Não sabia que estava doente. Ele também não comentava, caminhava sempre com um ar sóbrio e erguendo os olhos. Um senhor, com nobreza no seu carácter e gestos de simplicidade.
Ao receber a notícia fiquei triste. E pensei nos meus pensamentos matinais. E pensei neste dia de nuvens e chuviscos.
Viver de facto é caminhar para a morte, mas, dá mais força ao nosso viver quando, um dia partirmos e sentirmos que percorremos os dias, sorrindo e inscrevendo a nossa vida em muitas memórias.
Quando sentirmos que vivemos, não matando os dias, mas construindo os dias.
E, para fechar, esta nota, como comentava, hoje, pela manhã, quando atingimos os dias dos cabelos brancos, mais que matar os dias, o importante é dar-lhes vida, cor, emoção e vivê-los com paixão.
É isso, de facto, aprender a envelhecer, é isso aprender a morrer – vivendo!
É por isso que me dói a perda de um amigo, porque, sempre que perdemos um amigo, perdemos um pouco daquilo que é belo na vida.
Até sempre Lomélio. Nunca mais vou comentar, como era habitual:Oi, Carapau Quarenta! E tu dizia: “Oi, amigo!”!
António Sousa Pereira













