A Flauta de Pan (Eco de uma alegada vitória de Pirro)Por António José Carvalho Ferreira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Pan, deus silvestre grego, cuja lusitana expressão política homológica acaba de fazer eleger um representante na Assembleia da República (causando logo afirmações algo disparatadas em certos comentadores dizendo ser a primeira vez que um pequeno partido consegue eleger um deputado em Portugal, olvidando o PSN do Professor Manuel Sérgio) é também o étimo de pânico, estado que levava (e leva) à paralisia dos viajantes que, ao atravessar os bosques, dele eram tomados ao ouvir o som da sua flauta. A eleição de um deputado do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) para a AR pode ler-se de várias maneiras (que isto da vida raramente é simples), os seus eleitores serão naturalmente os amigos dos pets que se mobilizaram para votar numa organização em que se sentem representados e disso não temos dúvidas, ou será também algo de mais complexo e evidencia um certo fastio e uma escolha que não signifique mais do mesmo. Isto não quer dizer que os seus fundadores e ideólogos sejam meramente "amigos dos animais", as suas motivações são muito mais profundas nomeadamente quanto ao vértice "Natureza" e ao seu papel ontológico. Marca esta eleição, sem dúvida, a expressão de um ganho civilizacional, pois transcende a imediata motivação "política".
Por outro lado e em concomitância, temos um sintoma em que não podemos deixar de enquadrar a vitoriosa derrota da CDU (que perde um lugar no pódio, mas sobe em número de eleitores e representantes e na sua costumeira auto-avaliação "ganha" sempre) e sobretudo do Bloco de Esquerda que suplantou o seu próprio melhor de 2009 (dezasseis deputados) com dezanove mandatos, tornando-se a terceira força política em termos parlamentares.
Pergunta-se: de onde terão vindo tantos votos? De onde terá brotado este caudal tomando como certeza certa que a votação da CDU (e a do BE nem se fala) ultrapassa largamente o seu "núcleo duro"?
A resposta é de que migraram principalmente do PS, que também aumentou e muito o seu número de eleitores e de eleitos, mas não de modo a impedir uma vitória, ainda que muitíssimo menos folgada do que a de 2011, da "coligação" (PSD/CDS) que mesmo não conseguindo a tal "maioria", não deixará se ser assombroso, mas não "espantoso", que depois de um mandato inteiro de patifarias, tenha conseguido ainda assim, ganhar.
Estas eleições foram férteis em wishful thinkings, bastante bem distribuídos por sinal, e a ausência de "espanto" para a vitória da dita "coligação" pode encontrar-se no título deste texto que evoca a Antiguidade Clássica. Ora o clássico é sempre actual, os arquétipos estão lá todos - o medo da mudança e o temor de que não o seja (juntos e ao vivo), o "Eco" (ninfa das belas palavras) das "circunstâncias normais", os maiêuticos fantasmas recentes e as também recentes alegadas "vitórias de Pirro", pretextadas para "justificar" uma defenestração que só seria "perdoada" pelo bálsamo do triunfo, conjuraram-se para que se reedite um interregno em que todo o insucesso será atribuído às costumeiras "forças de bloqueio".
Até a bandeira do "Livre" que dado como tendo um deputado eleito acabou por "morrer na praia", sendo uma papoila faz lembrar a "dormideira" que se vai instalar nos próximos tempos de verdadeiro "ópio do povo".
E já estamos a ver este espectáculo em reprise.
António José Carvalho Ferreira













