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Inferências

Os postulados de ClausewitzPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Nesse sentido, a sua atualidade mantem-se. Apenas há que ter em atenção que a obra de Calusewitz não é como um livro de receitas de cozinha (x gramas disto, Y gramas daquilo, sal q.b.): é sobretudo para refletir e adaptar às circunstâncias.

Para melhor ilustrar essa questão, pode citar-se outro grande teórico do século V A.C., o chinês Suen Tze (também conhecido por Sun Tzu): conhece-te a ti mesmo e ao teu inimigo, e travarás cem batalhas sem derrota.

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Os postulados de Clausewitz Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Dois séculos passados, as doutrinas expressas por Carl von Clausewitz, publicadas postumamente no livro intitulado Vom Kriege (Da Guerra), continuam a fascinar os pensadores da Estratégia. Notável longevidade, desafiadora da constante mutação das técnicas e táticas da guerra. E não só: tem sido objeto de estudo tanto nas academias militares dos Estados Unidos e Europa Ocidental, como da antiga União Soviética e seus aliados.
A que se deve esta quase unanimidade? Em primeiro lugar, à qualidade do Autor. Depois, porque a sistematização que ele propunha fazia jeito. Algumas das suas máximas, tais como “só a ofensiva conduz à vitória”, ou “a defensiva é a forma mais forte de fazer a guerra” passaram a ser como dogmas. Aqui, há um certo paralelismo com certas formas do pensamento matemático. Euclides, um dos considerados pais da Geometria, formulou alguns postulados, ou seja, afirmações que dispensavam demonstração, e sobre as quais se desenvolvia a sua teoria. Mais tarde, houve quem o contestasse, e daí nasceu a Geometria não-euclidiana.
Não só nas ciências puras isto acontece. Na Declaração de Independência dos Estados Unidos, escrita em 1776 por Thomas Jefferson, constava que “Consideramos estas verdades como evidentes (self explanatory), que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, de entre os quais a vida, a liberdade e a busca da felicidade” (muito embora a escravatura fosse aceite na América). A “evidência” surge aqui como um postulado, e sobre essa evidência se forjou a Constituição americana.
Voltando a Clausewitz, a aceitação universal das suas teorias transformaram-nas numa espécie de postulados. Só que Clausewitiz escreveu na sua época; e, dois séculos mais tarde, não será pecado contestar algumas das suas afirmações. O grande teórico alemão foi um produto do “século das luzes”, da razão de Estado e da racionalidade. Em que as guerras eram conduzidas entre estados soberanos, de modo racional, visando objetivos concretos e limitados, em que o tratado de paz fazia parte da ideia de manobra.
Ainda que o mesmo Clausewitz tivesse escrito que, sendo a guerra a ascensão aos extremos, qualquer consideração humanitária seria descabida, acabou por reconhecer também que, de acordo com o princípio de ação e reação, o modo como tratamos os inimigos reflete-se no modo como ele nos trata.
Daí as diversas Convenções sobre o comportamento dos beligerantes. Troca de prisioneiros, tratamento dos feridos, normas sobre correio, regras de conduta, armas permitidas, tudo isso tendeu a limitar os horrores da guerra – só que dentro do princípio da reciprocidade.
Mas, se um dos beligerantes não aceita as regras? Ou seja, se, em vez de uma guerra “civilizada”, se entrega a uma guerra de extermínio puro e duro, como algumas guerras civis com carácter de supressão biológica (até na Europa!), ou a um confronto multifacetado, em que alguns intervenientes não são estados, como na Síria?
Então, entramos num conflito não-clausewitziano. A expressão não é nova: alguns pensadores e historiadores militares já a vêm empregando. Nestas guerras, não há estados organizados, não há objetivos ponderados, não há regras de conduta: vão desde o genocídio ao extermínio de meros opositores ou não colaborantes.
Daí que muitos analistas fiquem perplexos, e que os decisores andem à procura de soluções. Atitude curiosa, porque, a partir da I Guerra Mundial, os conflitos tiveram sempre uma componente ideológica, por vezes dominante. Mudando do ideológico para o religioso, estamos agora perante um confronto desse tipo. Mas isto, para nós, nem é novidade: entre as brumas da memória, recordemos as invasões se almorávidas e almoadas, as últimas já durante a existência do reino de Portugal.
Na Síria e Iraque, diversas fações unem-se e desunem-se, ultrapassando questões religiosas ou éticas, ao sabor de alianças efémeras e oportunistas, um quebra-cabeças para os amantes de soluções fáceis, classificações em diagramas ou chavetas, e definições arrumadas em gavetas certas. Voltando ao exemplo histórico, como na Península Ibérica no tempo dos pequenos reinos taifas dos muçulmanos e dos nascentes reinos cristãos, que se digladiavam e aliavam entre si sem complexos de culpa.
Tomemos como base da organização da Ciência que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. Sendo assim, quais as diferenças entre as hordas de almorávidas e almoadas e os jiahdistas de hoje? São mais as semelhanças que as diferenças: trata-se de fenómenos criados por governos incapazes e corruptos, pela degradação das condições de vida, pela falta de perspetivas de futuro, pela recordação de um passado glorioso, e pela desvalorização da religião, seguida de um ressurgimento fervoroso.
Este caldo de cultura é o ideal para o recrutamento de voluntários para uma guerra santa; apenas se muda da cimitarra para a Kalashnikov (e outras coisas mais sofisticadas). Há também que atender ao espírito de aventura, transversal em todos os conflitos
E, como nos primórdios da nossa Independência, a solução não será encontrada no campo de batalha, mas na alteração das condições internas dos estados ou sociedades belicosas. Não é possível continuar com um fluxo de recrutamento, se as causas da mobilização deixarem de ter interesse.
Ou, como dizem os mais avisados, é preciso tratar do problema na origem – e as divisões e egoísmos dos estados organizados têm de ser ultrapassadas para atingir esse desiderato. A verdadeira guerra é essa; o desdobramento de meios sofisticados e mediáticos pode ter o efeito de convencer os tais voluntários que a guerra não é uma atividade saudável e que a esperança de vida encolhe drasticamente; mas não substitui a ocupação do terreno, nem causa a quebra imediata da vontade do guerreiro.
E quanto aos postulados de Clausewitz? Pois bem, ele definiu como objetivo da guerra submeter o inimigo à nossa vontade. E “submeter” não é sinónimo de “aniquilar” – nem era essa a postura dos beligerantes da sua época. E mais ainda, disse que a batalha começa a vencer-se na cabeça do adversário. Nesse sentido, a sua atualidade mantem-se. Apenas há que ter em atenção que a obra de Calusewitz não é como um livro de receitas de cozinha (x gramas disto, Y gramas daquilo, sal q.b.): é sobretudo para refletir e adaptar às circunstâncias.
Para melhor ilustrar essa questão, pode citar-se outro grande teórico do século V A.C., o chinês Suen Tze (também conhecido por Sun Tzu): conhece-te a ti mesmo e ao teu inimigo, e travarás cem batalhas sem derrota.
Conhecer significa estudar, compreender e agir de acordo. Ou seja, a solução deste conflito, como qualquer outro, passa por arranjos políticos. E estes passam pelo reconhecimento do outro e das suas motivações.

Nuno Santa Clara

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