Há uma grande diferença entre «pensar europa» e «ser europa».António Sousa Pereira
Barreiro
Sou europeísta, mas, hoje, sinto, com mágoa, que estou a viver um momento histórico, que vai agonizar nos próximos anos – o adeus ao europeísmo!

Por Jornal Rostos
A ideia de construção de um «Projecto Europeu» perante a própria história da Europa é, afinal, uma gota de água no oceano.
Hoje, na verdade, a notícia que corre o mundo é a saída do Reino Unido da União Europeia. É uma notícia há muito anunciada.
Num mundo cada vez mais marcado por uma visão global, por regiões estratégicas, de facto, a construção do «projecto europeu» que tem vindo, pouco a pouco, a ser construído, após a 2ª Guerra Mundial, era um caminho nobre para consolidar uma «unidade estratégica» e dar uma dimensão cultural à ideia de europa, aglutinando-a na sua diversidade.
Dar à Europa uma dimensão e unidade que a projecte no mundo com a sua cultura e humanismo seria, sem dúvida, um caminho para dar continuidade à presença da «europeização», no mundo global.
Neste processo de desenvolvimento da ideia de Europa, com a sua unidade na diversidade, vivemos até aos dias de hoje, essencialmente, em sucessivos tratados com base numa mera visão idealista.
Apesar dos muitos esforços que possam ter sido feitos, na verdade, nestes anos de construção da ideia de Europa, não passamos do nível do desejo, não superámos o idealismo.
Andamos há anos a “pensar europa” e temos sido incapazes de “criar europa”, de criar um «conceito agregador» no plano intelectual, quer dê há Europa uma dimensão politica.
Há uma grande diferença entre «pensar europa» e «ser europa».
A Europa foi até hoje incapaz de encontrar a sua dimensão intelectual, porque, ao longo dos anos o que sempre foi dominante foram as ideias de mercados e de consumidores.
E, por fim, a ferro e fogo, quis forjar-se uma dimensão europeia centrada na construção da união monetária.
Existe, pode dizer-se, um vazio conceptual da ideia de Europa, que é bem sentida com a evolução de correntes de pensamento eurocépticas.
Ficou-se muito pela ideia que «penso europa, logo existe europa», ficou-se muito pela aparência e não se desenvolveu a substância.
A Europa foi sendo construída como quem faz uma peça de teatro, com encenações, com tratados e acordos, muitas vezes longe da realidade, com meras visões orgânicas e directivas, sem ter em conta as realidades regionais e as diferenças.
Alinhou-se por cima, pondo sempre os desejos como sendo a verdade e omitindo o que eles tinham de falsidade.
Entretanto o mundo mexe-se. O mediterrâneo esse mar onde está plantada a consciência europeia, trouxe as vagas de refugiados, os conflitos do médio oriente, a queda do muro de Berlim, e a Europa com «identidade orgânica» e sem «identidade conceptual», continua à procura de si mesma, porque existe esse “vazio mental».
Por essa razão, em nada me espanta, a noticia de hoje, que abre o caminho à saída do Reino Unido.
Claro que não é nenhuma catástrofe. Claro que tudo vai continuar. Este é apenas um primeiro sinal das diferenças «étnicas», outras existem, dos tais eixos que ao longo dos anos foram esticando a corda – que envolvem a França, a Alemanha, a Holanda, a Inglaterra, a Espanha, a Itália – os senhores da europa, que nunca se entenderam muito bem, e nas últimas décadas, tentaram entender-se criando a União Europeia, assente em valores económicos e financeiros e esquecendo o que seria central promover e valorizar a cultura europeia, criando unidade na sua diversidade.
Isso só teria sido possível, portanto, saindo do patamar do “pensar europa», para o patamar de «ser europa».
Em vez de construirmos uma «Europa a sério», andamos a construir uma «Europa Pedante», essa forjada em torno do euro.
A partir de hoje, tenho dúvidas, muitas dúvidas que, seja possível voltar atrás, claro, como diz Vladimir Nabokov – “o rebentar de uma onda não pode explicar o mar todo”, mas muitas vezes, o rebentar de uma onda, é a causa de um naufrágio.
Sou europeísta, mas, hoje, sinto, com mágoa, que estou a viver um momento histórico, que vai agonizar nos próximos anos – o adeus ao europeísmo!
E nós, por cá, voltaremos ao mar à beira mar plantado, com a nossa história milenar, ou então, perante um mundo globalizado, resta-nos o retorno aos ideais que marcaram a nossa intelectualidade no século XIX, que sonharam com a construção de uma União Ibérica, para, como dizem alguns – “ganhar escala e massa critica”.
António Sousa Pereira













