Por dentro dos dias - BarreiroSinto a tua ausência…oh Muchu!
O Muchu – Xuxu como eu a brincar lhe chamava – não mais voltou. Alguém o levou ou estará perdido pelas ruas.

Por Jornal Rostos
Quase todos os dias, pela manhã, quando me sentava para tomar o pequeno almoço, lá estava ele, com os seus lindos olhos a mirar-me da janela. Olhava. Mexia o rabito. Içava a perna e lá fazia a sua tentativa de abrir a janela. Quando estava no trinco, desistia. Mas, quando notava que conseguia abrir um pouco, voltava de novo a tentar, um primeiro gesto, depois de a abertura estar com alguma dimensão, tentava meter a cabeça. Forçava um pouco. Por fim conseguia e passava para o lado de dentro da minha cozinha. Eu sentado. Ele olhava-me nos olhos, bem de frente. Se eu fazia um gesto, ou falava, chamando-lhe – Xuxu! Ele ficava de pescoço erguido, parado e sereno.
Por vezes, voltava para trás e lá ficava, do lado de fora, de novo a olhar.
Outras vezes, num salto, corria pela sala até ao meu terraço e lá ficava sentado ao solinho. Num espaço que foi conquistando como seu, depois, muitas vezes, circulava pelos terraços da vizinhança.
Era uma companhia diária. Entrava na minha casa. Metia-se por baixo dos móveis e até chegou a ir para debaixo da cama.
Era uma companhia diária. Agora, nos últimos tempos, juntava-se com o Simão, o outro gato, da minha vizinha do lado ( que também já me visita) e ficavam os dois a olhar-se e mirar-se.
Era um ritual. Ver o Muchu passear pela minha casa e vê-lo pelos terraços.
Por vezes era preciso gritar e lá vinha o Muchu, ao fim do dia, outras vezes, ele mesmo ao pôr do sol regressava.
Um destes dias, na tarde de sábado, vi-o, como sempre passar por mim, esbelto, um pelo branco reluzente de pureza. Uns olhos lindos, verdes e cativantes.
O Muchu – Xuxu como eu a brincar lhe chamava – não mais voltou. Alguém o levou ou estará perdido pelas ruas.
Se alguém souber do paradeiro de um gato branco, pelas zonas do Lavradio, ou Baixa da Banheira, alerte.
Eu tenho saudades do Muchu e a sua família está destroçada.
De manhã, sinto a tua ausência naquela janela e quando passo pelos corredores da minha casa ou vou ao terraço, dou por mim, a olhar na distância, com a esperança de te ver regressar.
Ainda, hoje, pela manhã, e à tarde, ao passar pela via rápida, dei por mim a olhar, para as bermas, na esperança de ver um novelo de pureza branca a correr e, então, eu gritar de alegria : “Xuxu, anda cá!”
S.P.













