A(nota) mentosHá mais «dança» para além da «dança» do «mito urbano»
Um «mito urbano» muito ligado, desde sempre à cultura da «fábrica» - das fábricas de Cortiça à CUF e Oficinas Ferroviárias.

Por Jornal Rostos
Há quem afirme e sublinhe que nas vivências do Barreiro, tudo aquilo que ficava para lá da linha férrea, ou não existia, ou não existiu, ou sempre teve pouca visibilidade.
E de facto, é verdade, sempre senti, ao longo das minhas vivências no concelho, donde não sou natural, mas que é o concelho dos meus filhos, e, é, na realidade o concelho que me recebeu, onde construi a minha vida e no qual gosto de viver, por diversas e diferentes razões.
Mas, dizia, que sempre senti esse «mito urbano» que o Barreiro, por diversas razões históricas, termina e começa na linha férrea – Rua Miguel Bombarda, na «passagem desnivelada versus túnel» ou na Rua da Recosta.
Um «mito urbano» muito ligado, desde sempre à cultura da «fábrica» - das fábricas de Cortiça à CUF e Oficinas Ferroviárias.
Mas, desde os anos 70, com a «terceira vaga» de «desenvolvimento local» a expansão urbana, esse «mito urbano» tem vindo a esvaziar-se, pouco a pouco, muito lentamente, porque há sempre epifenómenos que parece querer dar-lhe continuidade.
É que a explosão urbana deu origem a novas realidades e vivências comunitárias que levaram a pensar e sentir o Barreiro para além do mundo da «fábrica».
Vem isto a propósito do documentário «Dança Camarra» que assisti recentemente, onde, mais uma vez esse «mito urbano» emerge, sendo dado relevo apenas ao que existiu no espaço geográfico do chamado «mundo camarro».
Não é o que o resto não tenha existido, ou não tenha tido visibilidade e presença activa na vida local, é, porque se ignora ou esquece que há mais Barreiro – se, se pretende fazer história e memória do concelho – que aquele emergente do eterno «mito urbano», que pensa e sente Barreiro, para além e aquém da linha férrea.
Nos anos 60, uma orquestra que marcou a vida local, que levou o nome do Barreiro por diversos pontos do país foi a «Orquestra Ideal Ritmo» , pois, mas essa era do Lavradio e o Lavradio, de facto, não integra, nem nunca integrou essa área do «mito urbano».
E já agora, porque não recordar o Grupo de Jazz "Os Leças", bom, mas este também está para lá da linha, logo – “não tinha visibilidade”.
Fica o registo, para que em próximos documentários, sejam, recordados e registados, porque há mais Barreiro – concelho, para além do território Barreiro «mito urbano».
Ah, é verdade e a propósito de bandas, dessa época, recordo apenas os «Principes da Paródia», com músicos vivos e com muitas estórias para recordar. Basta ir ao Lavradio, estão por ali, na SFAL.
Após assistir ao primeiro episódio de Dança Camarra (1940-1959), no final, comentei para o realizador Eduardo Morais, que num dos próximos episódios não devia ser esquecido Fernando Albuquerque, um grande trompetista .
E, para que conste, quem foi Fernando Albuquerque, aqui fica um texto de João Saraiva, editado no jornal «Cachaporreiro», da SFAL.
«Fernando de Albuquerque, o maior trompetista português de todos os tempos, famoso nas décadas de 40 a inícios da de 70 do século XX, com actuações por toda a Europa, América do Norte, África do Sul, 1º Prémio Ibérico de Jazz, 1º Prémio de Imprensa para Instrumentistas, 1º Prémio Nacional de Trompetistas e, segundo a revista «Reflexo», de Janeiro de 1975, depois de escolhido à última hora devido à doença de um músico inglês, aquando duma actuação no Monumental e no meio de um conjunto de doze músicos ingleses: «Parece que nunca fez outra coisa na vida que não fosse tocar neste conjunto, e, como se não bastasse, logo com o Hair, para, mais à frente: Onde teria chegado este homem se tem nascido num país onde a música ligeira tivesse um papel de destaque.»
Um dia, por acaso, há alguns anos, numa viagem, no meu carro, ia escutando na Antena 2, uma entrevista do protagonista do Festival de Jazz de Cascais, não recordo o nome, e, na conversa começou a referir que um dos grandes nomes do Jazz português era Fernando Albuquerque, do Barreiro.
Pois. Não é do Barreiro, é do Lavradio. Fica o registo para que não seja esquecido nos documentários da «Dança Camarra».
Uma nota final. Gostei do primeiro documentário. Está sóbrio, deixa em aberto temas para reflectir, abre pistas de análise e abordagem diferenciada.
Está bem estruturado e é agradável o seu visionamento. É um bom ponto de partida para abrir debates sobre este tema da música no Barreiro, que, acreditem, vai mesmo para além da fábrica, das bandas filarmónicas e, até, é uma marca geracional de uma época vanguardista e pioneira no país.
S.P.
Foto - «Orquestra Ideal Ritmo» Lavradio













