Por dentro dos dias – BarreiroEntre a Liberdade, cânticos de esperança e hinos de amor à Vida.
Manuela Fonseca, entre dores e sorrisos. Perguntava-se o resultado do seu Futebol Clude do Porto. Interrogava se Bob Dylan já tinha aceite o prémio Nobel da Literatura.
O álbum dos anos 80, de Francisco Ceia, com canções como a «Bicicleta cor de rosa» ou «Rua do ácido sulfúrico», fazem parte da memória musical do Barreiro.

Por Jornal Rostos
Uma virose colocou-me em estado de fragilidade durante cerca de três dias. Algumas horas de cama, chá e torradas. Reduzi a actividade quotidiana. Foi uma pausa forçada. Falhei a alguns acontecimentos que tinha na agenda e que gostava de ter acompanhado, porque gosto de acompanhar, para obter informação e formular opinião. Embora, ainda existam alguns sinais residuais, pouco a pouco, estou a regressar à normalidade.
A doença tem estas coisas permite-nos encontrar a solidão, o nosso silêncio, as nossas limitações. É, afinal, mesmo assim, de um momento para o outro, inesperadamente – ponto final.
Uma coisa conclui, o sol continuou a nascer todos os dias, na rede facebook a vida manteve a sua intensidade, o comboio não deixou de passar nos mesmos horários, a chuva regressou, a vida prosseguiu seu ritmo, com toda a normalidade. Pessoalmente, senti a ausência do mundo exterior, o calor dos dias, a intensidade do fazer, agir, estar na vida com vida.
Tudo isto aconteceu, após ter regressado de uma ida ao Algarve, onde fui participar na homenagem que decorreu em Loulé, ao meu primaço Neto Gomes, pelos seus 50 anos de jornalismo.
Uma festa bonita, que juntou mais de 500 pessoas. Um momento que, certamente, o Neto Gomes vai guardar no seu coração.
Levei-lhe duas lembranças. E, para minha surpresa, ele tinha para me oferecer um livro que publicou com memórias da nossa terra natal – Vila Real de Santo António – um mergulho por dentro de estórias e lugares, de gentes que guardamos no coração – a nossa Rua da Espanha, a nossa Rua Estreia, o nosso Largo da Bica.
Mas, a maior surpresa foi ele entregar-me uma carta que lhe escrevi em 1975, ainda estava a cumprir o serviço militar. Uma recordação do PREC, de tempos de sonhos e lutas. Foi lindo reler palavras vindas do fundo do tempo, principalmente aquela interrogação: Quanto vale um homem?
E passado este tempo, o importante, na vida e na vida vivida, é que essa pergunta continua presente no quotidiano: Quanto vale um homem?
Um homem vale, aquilo que o meu primaço viveu, a amizade e o calor humano, expresso naquela noite, com poemas de Abril, com o cântico de José Régio e com o brilho reluzente de todas as camisolas, dos grandes clubes do Algarve a marcar presença, reconhecendo e agradecendo a dedicação de 50 anos de jornalismo – honesto e íntegro.
Tens a resposta primaço – é isso que vale um homem. O resto é a dor de quem quer calar e submeter, limitar, inferiorizar, e não cala, nunca cala, porque “há sempre alguém que diz não”.
Um grande abraço para ti Neto Gomes, afilhado de baptismo de minha mãe – Rita – que tu guardas com saudade, como eu guardo com ternura a T’i Maria Neto e a nossa rua de portas abertas, onde estão as nossas raízes de amor à vida, ao sol e ao mar – sempre pelo mar adentro!
Senti, nas tuas palavras, esse sentido, irónico, do viver e nunca desistir da palavra Liberdade!
No meio destas emoções, recebi a noticia que a minha «mana» Manuela Fonseca, estava no Hospital do Barreiro. Ainda está por lá, Fui visitar. Uma resistente. Uma lutadora. Uma apaixonada pela vida.
Entre dores e sorrisos. Perguntava-se o resultado do seu Futebol Clude do Porto. Interrogava se Bob Dylan já tinha aceite o prémio Nobel da Literatura. Comentava. Sorria.
Ali, ligada por tubos, não desistia de olhar a via e o mundo.
“Que dizes da sacanice que queria fazer ao Guterres? É uma honra o cargo que ele assumiu”, salientava.
Toquei levemente nos seus dedos.
“Tens umas mãos lindas”, comentei. Ela sorriu e falou de Antero Quental – “as mãos de Deus”.
“Estou cansada. Já não aguento mais”, dizia.
Olhava a Manela, aquela mulher eléctrica, híper activa, amante das letras e das artes. Uma mulher culta. Uma mulher de antes quebrar que torcer. Uma lágrima encostou-se nos nervos, mas eu não a deixei cair. Sorri.
“Sabes Manela, a vida é para lutar, mas cada vez mais, considero que devemos viver fazendo o que gostamos e amamos. Viver todo o tempo com a alegria de sermos”, disse-lhe.
Ela sorria. “Tens razão”, comentava.
Ternamente, passeava meus dedos pelos seus dedos. Ali, recordando, diversos momentos partilhados, neste percurso de paixão, porque a vida só faz sentido, afinal, vivida com paixão.
Por vezes dói, dói mesmo…dói nesse resistir, resiliente, símbolo enorme do que é ter amor à vida.
No sábado à noite, fui ao Fórum José Manuel Figueiredo, assistir ao espectáculo de Francisco Ceia. Uma delícia de voz e poesia. Quis marcar presença por duas razões, para viver a sonoridade, ao vivo, do seu canto, e, porque nesse dia ele assinalava 60 anos.
Francisco Ceia é um amigo de há muitos anos. Um cantor que inscreveu de forma brilhante, única, o Barreiro nos seus poemas e canções.
O seu álbum dos anos 80, com canções como a «Bicicleta cor de rosa» ou «Rua do ácido sulfúrico», fazem parte da memória musical do Barreiro. Temas inéditos, sentidos com o coração e com o pulsar das chaminés fumegantes. Foi esquecido pelo Barreiro.
Uma reedição em CD do seu trabalho era, sem dúvida, uma homenagem ao Barreiro operário a cruzar-se com a modernidade sonora dos anos 80. Um trabalho de uma riqueza melódica e poética que não deve ficar ignorado.
Olhem, convidem o Francisco Ceia, para dar um espectáculo, no Espaço Memória, tendo por tema o seu Álbum. Ele merece. O Barreiro merece.
Vivi com muita emoção o espectáculo no Forum José Manuel Figueiredo ao escutar o timbre angelical da voz da Catarina Ceia.
Vivi e emocionei-me com os olhos molhados de Francisco Ceia, recordando José Manuel Figueiredo – que também conheci - e mergulhando nas memórias, aí, onde residem os sonhos e a identidade de tudo o que nós somos.
Cantar o Alentejo. Cantar Abril. Cantar Liberdade. Cantar Amor.
Obrigado Ceia, pela bela noite que vivi a festejar 60 anos de amor à vida..e esperança no futuro!
E, por hoje, por aqui fico, sempre a viver, sorrindo, por dentro dos dias.
António Sousa Pereira













