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Inferências

Por dentro dos dias – BarreiroOs alunos são a escola

Gostava de ter contado uma experiência única, vivida no Barreiro, nos anos 80, quando foram realizadas as Jornadas do Ensino no Concelho, estimuladas pelo Drº Helder Fráguas...ou falar do projecto da escolas ligadas à comunidade, com serões com pais e alunos, no âmbito de experiências pedagógicas do professor Rui D`Espiney, que acompanhei como associativista.

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Por dentro dos dias – Barreiro Os alunos são a escola

Por Jornal Rostos

A convite de Álvaro Cidrais, da Rumo, participei na Tertúlia que decorreu na Escola Conde Ferreira, tendo como tema - «Educação e Desenvolvimento - as mudanças que queremos».
Foi uma conversa aberta, de troca de opiniões e de experiências de vida, numa dimensão intergeracioal, de âmbito global, tendo sido um momento para conhecer diferentes visões e abordagens sobre esta temática.
Na altura comentei desconhecer as razões porque foi convidado para estar naquele núcleo de cerca de 30 convidados.

Escutei as diversas opiniões. Mas a certo momento, quase de forma natural pode dizer-se que «explodi», daquela forma que por vezes me caracteriza, assim como quem diz. «lá vai disto».
Pareceu-me estar a viver um momento de catarse, expondo, pela primeira vez na vida, publicamente o meu sentimento interiorizado em relação ao sistema escolar.
Contei de forma desabrida, e calorosa, aquela mágoa que guardava de criança- jovem, daquele dia que, quando frequentava o ensino preparatório, após dias de estudo e total dedicação, por saber das minhas insuficiências em matemática, obtive uma nota positiva, fui o único suficiente mais na turma, tudo o resto foi rodada a medíocre.
Então, a senhora professora, resolveu em plena sala de aula, injuriar-me, dizer que era impossível que eu tinha copiado. Recordo aquele dia como se fosse hoje, uma dor de lágrimas nos olhos. Não tinha copiado nada tinha estudado com afinco, com vontade de saber e superar as lacunas que sabia que as tinha na área de Matemática.
Lacunas essa que resultaram de durante cerca de três ou quatro meses, não ter frequentado o Ensino Primário, pois, após o falecimento de minha mãe o meu pai resolveu trazer-me com ele para Lisboa. A minha primeira vinda para a cidade grande. Um tempo sem escola, só brincar nas ruas de Campolide, naquela escavadeira dos comboios.
Depois regressei à minha terra, integrei-me nas aulas e sempre fui um aluno cumpridor, embora, com lacunas na área da matemática que ia recuperando, mas sempre com algumas dificuldades.
A minha professora do Ensino Primário, D. Ana, era uma excelente professora, sempre me deu apoio e sempre teve conhecimento dessas minhas dificuldades. Guardo dela um carinho enorme.
Em certa altura, na 4ª classe a D. Ana, ficou na sala de aula com alunos da 2ª classe e tinha os da 4ª classe, enquanto ela dava aulas à 2ª classe, responsabiliza-me e eu dava História, Geografia e Português, enquanto o Vasconcelos dava Matemática.
Gostava da escola. Adorava a escola. Quando saía das aulas a primeira coisa que fazia ao chegar a casa, onde vivia com a minha avó, na Rua da Espanha, era fazer os trabalhos de casa e, a seguir, logo que prontos, lá ia para a «vadiagem» junto ao rio, ou jogar à bola na rua.

Aquele dia, no Ensino Preparatório - Na Escola Industrial - marcou, definitivamente a minha relação com o ensino, e a «avaliação» qualquer avaliação era sempre para mim um tormento. Talvez por essa razão, já adulto, quando andei, por ali, na Faculdade de Letras, cheguei a entregar trabalhos de fim de ano, e, depois faltava na fase final de discussão.
Já agora, acrescento que, quando um dia precisei de um Certificado de Habilitações e o requisitei na Reitoria da Universidade, foi com surpresa que registei, um professor, a quem tinha entregue o trabalho final e, naturalmente, tinha avaliação de outros trabalhos ao longo do ano, tendo faltado à última e necessária avaliação, ele, atribuiu-me nota. Deu-me um 13. Foi quando fiquei a saber que tinha concluído aquela cadeira do 3º ano. Nunca acabei a Licenciatura.

Nasceu em mim sempre um sentimento que a escola não respeitava o aluno, o professor, da sua cátedra, assumia-se, sempre, como um “quero posso e mando".
Quando pensava e lia sobre estas matérias da educação e ensino, ficava sempre triste, então, optei por viver, por mim mesmo, o conceito de “aprendizagem ao longo da vida», um pouco autodidacta, descoberta por mim mesmo de saberes.

Depois, fui sentindo que as discussões sobre o sistema de ensino eram circulares, mudavam governos, mudavam registos, via no ensino um sistema que só servia para «tirar o canudo» e ser «doutor». Estatisticas. Rankings.
Quando li Paulo Freire, registei o sentido de uma pedagogia centrada na partilha dos saberes, na co-operação, na co-laboração.
Com Agostinho da Silva, revivi esse olhar sobre educação, o prazer de saber.
Uma educação que deve estar centrada sobre o aluno, nos seus sonhos e prazer de realização, não submetido a «curriculuns», como se todos fossemos iguais, com os mesmos objectivos e formas de sentir e olhar o mundo.

Quando escuto conversas sobre educação é em tudo isto que penso, numa escola que se ligue à vida, que seja parte de uma relação intergeracional, que se ligue ao Movimento Associativo, que os «curriculuns» tenham um conjunto de disciplinas nucleares, adequadas à importância de atribuir as ferramentas essenciais – basta ler Platão - e depois, o restante que seja escolhido de acordo com realidades locais e interesses motivadores de cada aluno.
São as escolas e os professores que têm que se adaptar aos alunos e não os alunos a adaptar-se à escola e ao sistema.

Acredito que um dia será assim, quando o sistema, que continua dominado pelos professores - sindicatos e ministério, se abrir à vida real e deixar de se autoproteger.
E, quando isso acontecer, então o ensino nada terá a ver com este sistema escolar do «quadro negro» ( agora quadros digitais) numa sala para formatar alunos. Uma herança da Revolução Francesa.

Era, talvez um pouco isto que gostava de ter dito e não disse, porque sufoquei, emocionei-me, regredi no tempo. É vida, às vezes acontece.
Gostava de ter contado uma experiência única, vivida no Barreiro, nos anos 80, quando foram realizadas as Jornadas do Ensino no Concelho, estimuladas pelo Drº Helder Fráguas, onde para além de uma mostra de tecnologias de ponta para a época, foram divulgadas experiências pioneiras na sala de aula – uma escola do ensino primário do Lavradio – a funcionar com um sistema de aulas como se fosse uma escola secundária – com horários para disciplinas. Uma aventura do Professor Silva e sua esposa. Uma vivência entusiasmante de ligação da escola à vida.
Ou falar do projecto da escolas ligadas à comunidade, com serões com pais e alunos, no âmbito de experiências pedagógicas do professor Rui D`Espiney, que acompanhei como associativista.

Porque se perderam tantas experiências. Porque o sistema mata tudo. Depois vão existindo, por aí, aqui ou acolá, novas experiências, escolas modelo. Até um dia...
Era em tudo isto que pensava e nessa aberração do professor considerar que deve ser ele a definir a escola, quando a escola é de todos.
E, para fechar, acho que, no futuro, uma das formas de dar a volta é que, de facto, as competências da escola passem para as autarquias e os respectivos recursos, de forma a envolver as escolas na comunidade, motivar os pais a sentir a escola como parte da vida e não como um lugar onde colocam os filhos... e outros que tratem deles.

E, com isto, não estou contra os professores, como disse, sou casado com uma professora e sempre senti o carinho e a paixão que ela colocou na sua relação com os alunos e, esses, para ela, sempre foram a sua grande paixão. Adora ver as crianças crescer e partilhar com eles esse crescimento e descoberta de vida.
Os alunos são a escola.

Pronto, por aqui me fico, disse o que não disse, e, aos que escutaram o meu «irritante» tom de voz, é caso para dizer – desculpem qualquer coisinha.
Todos temos dias. Acho que fui brusco na forma como “não comuniquei”…

Ah, é verdade, e ainda nos dias de hoje, em muitas escolas do concelho do Barreiro são desenvolvidas experiências e projectos de muito interesse para a comunidade, só que, na verdade, ficam fechados na escola, e, nunca será uma pontual «Feira Pedagógica» que contribuirá para ligar a escola à comunidade.
Façam mais tertúlias e, nelas, envolvam pais, professores, autarcas, empresários, associativistas, e, não esqueçam o centro da escola. ..os alunos. Não três de fora, três de cá, que digo, foram excelentes nos seus testemunhos. OK
Porque, sem dúvida a escola é essencial para a educação e o desenvolvimento, mas, não é por ela, nem apenas com ela que será feito o caminho.

S.P.

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