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Inferências

Inferências - BarreiroUnidade factor decisivo no processo eleitoral autárquico
Por António Sousa Pereira

A unidade interna não se faz «unicamente» em torno do objectivo de conquista do poder, a unidade interna faz-se com ideias que mobilizem e perspectivem futuro.

Não são as palavras que alteram os factos. Não se mata a vida de uma cidade só porque se quer, imaginariamente, demonstrar que somos uma cidade morta.

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Inferências - Barreiro Unidade factor decisivo no processo eleitoral autárquico Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos

Na vida política local, neste tempo que vivemos pré-eleitoral, os motores vão aquecendo, e, de facto, dá para nos começarmos a aperceber de algumas linhas estratégicas dos discursos que vão ser as linhas de força de algumas campanhas eleitorais. Vão emergindo sinais.
Mas, um aspecto importante que os partidos políticos deviam pensar é que, antes de se voltarem para a vida da comunidade, pudessem pensar-se por e para dentro de si mesmos.
Uma das questões centrais que, na minha opinião, e, de facto, não é mais que isso – uma opinião - deviam como primeira linha de acção politica dinamizar um intenso trabalho de «unidade interna», este é o ponto de partida na preparação de uma «batalha» eleitoral.
A unidade interna não se faz «unicamente» em torno do objectivo de conquista do poder, a unidade interna faz-se com ideias que mobilizem e perspectivem futuro.

Nas memórias eleitorais, aqui, recordo dois momentos curiosos. A derrota da CDU em 2001.
Naquele processo eleitoral talvez, pela primeira vez, a força politica que se forjou como alternância, contou com diversos factores a seu favor:

1. A CDU politicamente não se uniu em torno do seu candidato Carlos Mauricio, que diga-se, apresentou um dos melhores programas eleitorais da CDU, perspectivando uma «cidade verde».

2. Entretanto, refira-se que a CDU estava desgastada no exercício do poder autárquico, por uma prática politica desligada da população, autista e elitista no plano de cultura de cidade.

3. Alguns sectores eleitores do PSD optaram pelo PS, dando-lhe o beneficio da dúvida e não votaram como muitas vezes até o faziam nas autárquicas.

4. O PS desenvolveu um movimento social amplo de debate de ideias – o BEM – que agregou em torno de si uma «percepção» de «mudança» e «esperança».

5. O PS apresentou um programa eleitoral ambicioso e criando imensas expectativas e projectando um novo conceito de cidade e cidadania.

6. O líder concelhio do PS – Aires de Carvalho – foi capaz de «engolir sapos» e uniu as mais diversas sensibilidades, motivando um PS unido e em força para o acto eleitoral. Conhecia bem tudo e todos. Os que lhe chamavam nomes nas costas e na frente sorriam, coisas da politica e politiquices.

7. Tudo isto para dizer, que a questão central e principal da acção politica nestas eleições autárquicas, que levou à vitória do PS, foi a existência de uma forte união política do PS e, ao mesmo tempo, no facto de o seu principal adversário, a CDU, estarem latentes alguns conflitos.

8. Recordo que a derrota da CDU, aconteceu no final de um dos seus mandatos que mais obra realizou, desde pequenas obras, até obras estruturantes, por exemplo o Parque da Cidade – e, simultaneamente, lançou projectos que foram depois inaugurados pela gestão PS, caso AMAC ou Centro Comunitário do Lavradio.

9. Ou seja, não foi a obra feita que motivou os eleitores, porque uma cidade é mais que obras.

Em 2005, foi a derrota do PS, após apenas quatro anos de poder, e, nos anos seguintes a CDU foi sucessivamente reforçando a sua força politica, passando de maioria relativa para maioria absoluta, isto num concelho que, há décadas, nas legislativas o PS vence, exemplo real que aquela ideia de «bastião comunista» é um «percepção» que nada tem a ver com tecido sociológico do concelho do Barreiro.

Vejamos alguns factos que estiveram na origem da derrota do PS:

1. A morte de Aires de Carvalho, um líder forte, que unia e dividia, mas conseguia com pulso de ferro e grande elasticidade «unir mais que dividir».

2. As lutas internas do PS pelo poder, que afastou o partido das suas prioridades, vivendo-se mais os combates internos do que as necessárias acções de ligação à população. O PS quase que não manteve ligações à população no período pré-eleitoral. Estava entretido consigo mesmo e convicto, absolutamente convicto, que ia vencer com maioria absoluta.

3. Isso originou a incapacidade politica de fazer uma justa avaliação do exercício do poder durante quatro anos, erros cometidos, razão porque não se concretizaram objectivos eleitorais propostos, nomeadamente, a Hiper valorização de projectos a longo prazo – Caso Cidade do Cinema, e, em simultâneo desvalorização de obras estruturantes, só porque as mesmas tinham, sido da responsabilidade politica do eleito do PSD – Mendes Costa. Por exemplo, o hiper valorizar 400 metros de ciclovia e ao mesmo tempo ignorar a abertura de um via estruturante de grande relevo para a mobilidade na vida da cidade, resolvendo uma situação que a CDU não concretizou durante décadas - a ligação de Casquilhos a Santo André. No meu bairro, Urbanização dos Loios, foi arranjado e completamente reformulado o seu miolo central, uma obra de futuro, a mesma nem mereceu o mínimo de projecção, dizia-se nos bastidores – “era promover o Costa”.

4. O PS teve incapacidade de reformular o Programa eleitoral mais de acordo com a realidade, retirando-lhe a ficção.

5. Enquanto isto, no terreno a CDU, sob a liderança de Carlos Humberto fez um trabalho de formiguinha – uma espécie de BEM, ao contrário, mais ao estilo presta contas, fazendo autocritica e ligando-se à população, ao Barreiro que vive, todos os dias, e que muitos acham que não existe, mas pulsa e transforma. A CDU apresentou-se ao eleitorado forte, unida, com um programa eleitoral assente nas experiências e com novos rostos.

6. Recorde-se que no seu mandato o PS fez obra, o arranque do POLIS, deu passos inovadores ao nível do planeamento do território, motivando a abertura de um amplo debate sobre as potencialidades hibernadas do território da Quimiparque.

7. Tudo isto para dizer, que a questão central da derrota do PS em 2005, foi apresentar-se um partido dividido e, ao mesmo tempo, sem ter capacidade e apresentar um balanço prospectivo e projectivo do trabalho realizado.

8. Sim, e desta vez, sectores do eleitorado do PSD, com que o PS fez uma guerra inútil e desnecessária ao nível local, optaram por regressar nas autárquicas ao voto na CDU, como quem diz – “para pior já basta assim”.

Em conclusão, esta reflexão, visa só colocar, aqui e agora, para memória futura, como de facto, a unidade e a força de unir vontades, no seio do próprio partido, será um factor decisivo e importante no processo eleitoral autárquico.

E, na verdade, essa unidade faz-se unindo, sem ficções, ou milagres que multiplicam os desejos e criam visões nas quais as palavras são apenas palavras e os factos são factos.
Não são as palavras que alteram os factos. Não se mata a vida de uma cidade só porque se quer, imaginariamente, demonstrar que somos uma cidade morta.

A CDU está no terreno, com o objectivo de unir vontades, unir as suas forças, fazer o balanço e autocritica com os seus e ouvindo os seus. Pode não estar plenamente unida mas trabalha nesse sentido. Ouve as pessoas, dá voz aos seus, vai ao encontro da vida real, a vida que pulsa na cidade, que será aquela que vota. Uma cidade vota em pessoas reais, que acredita, porque são pessoas reais, não são números, são famílias. Aqui todos se conhecem e, afinal, sabem quem são os que vivem e fazem a cidade de mangas arregaçadas a lutar pelo Barreiro e a fazer Barreiro, todos os dias. O resto é ficção. A CDU faz um discurso pela positiva, valoriza o trabalho realizado, as obras, os projectos, mas, por vezes, parece que esquece uma simples verdade que “nem só de pão vive o homem”.

O PS apresentou-se, não me pareceu muito unido, há conflitos laterais. Ainda anda à procura de se unir, para além das franjas que estão unidas. A maior unidade sente-se na sua força juvenil, parece estar muito coesa.
Discutiu propostas de forma «académica» e temática e abriu um discurso inovador, por vezes querendo colar a realidade à sua «percepção». Sabemos que andou no terreno mas disso não houve retorno, pelo menos em documentos que contribuíssem para dar uma visão da dita «percepção» obtida – a CDU também fez esse tipo de contactos com agentes locais, através da sua presença no Poder Local – em muitas frentes.
E, por vezes, o PS também parece que esquece - há mais cidade para além da acção politica. Afinal, ela mexe-se.

Voltaremos a outras abordagens e leituras deste processo eleitoral em marcha, que está a aquecer, mas, por hoje, ficam estas notas, que valem o que valem, visando apenas suscitar uma reflexão sobre a unidade e o valor da unidade que tem que ser teoria em acção. Portanto, pensem, apenas que a unidade de uma força politica é um código postal essencial num processo eleitoral.

António Sousa Pereira

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