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Inferências

Notas do meu blogue>Politica de Negação
Barreiro

Não gosto da política feita com a sua vertente de «politica de negação», porque ela faz-me cócegas, afinal, esta é a génese de discursos populistas e demagógicos, que só olham para o que está mal e nunca nada é bem feito.

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Notas do meu blogue> Politica de Negação Barreiro

Por Jornal Rostos

Por muito que falem que o Barreiro é “isto” e “aquilo” e “aqueloutro”, com alguns discursos, iguais aos que já escuto ao longo de muitas décadas, eu escuto essas palavras e sinto que há uma enorme distância entre o dito e o real.
Nestes anos todos aprendi uma lição muito simples – a vida são factos e não são palavras que alteram os factos, por muito que achem que os factos, são o factos expressos por certas palavras.
A vida não é marketing. A vida é real. E por muito que utilizem técnicas «pavovlianas», repetindo frases curtas e simples, de forma a condicionar o pensar sobre o real, impondo uma «interpretação», não me conseguem convencer que o Barreiro é uma terra onde não existem condições para viver e, nem mesmo, que é uma terra sem vida.

Desculpem, devem viver noutra terra, ou sou eu que sou um felizardo e sinto que nem tenho tempo para estar em todas e viver os muitos acontecimentos e eventos que dão vida regular a esta cidade.
E, de facto, se não vou a mais a eventos, e, também, se não escolho jantar fora ou almoçar fora muitas vezes, aqui na cidade, onde há bons restaurantes e muitas opções, não é que não gostasse, mas, apenas porque não posso e tal devo agradecer à troika que me tirou a mim e a muitos, mas esqueceu-se dos offshores.

Ignorar o pulsar da cidade é ignorar a vida da cidade.
Até admito, e tenho comentado muitas vezes, que a cidade podia e devia potenciar alguns eventos, que nascem pequeninos, mas têm dentro de si a semente para crescer e transformarem-se em eventos de dimensão regional, nacional ou até mesmo internacional. Mas isto também faz parte da «cultura da cidade», cada um estar por si, em vez de unir vontades e saberes.

Mas, depois penso, e como penso, sei que a cidade não tem uma dimensão económica que possa ser, ela mesma, também protagonista, potenciadora e dinamizadora, pelo facto do tecido económico ser essencialmente de pequenas e médias empresas, gente que arregaça as mangas, trabalha e luta para manter a sua actividade e, perante todas as dificuldades e desafios lá vai conseguindo encontrar coragem e resiliência, sendo esse, na verdade, um factor que acaba por influenciar um «modus vivendi», muito com base no – «cada um por si, próprio».
Imaginem se todos os comerciantes da zona do centro da cidade se unissem numa «plataforma de acção» e decidissem ao longo do ano criar vários eventos - «Noite Aberta», ou «Dia dos 30% de desconto», ou «Dia da Flor», estimulando a co-operação e agindo em comum no fazer negócio e fazer cidade. É um sonho.

Somos uma cidade que vive com dignidade, com um tecido económico baseado em gente de trabalho, micro, médias e pequenas empresas.
Somos uma cidade com imensos voluntários que dedicam seus tempos para manter vivos espaços de cultura, formação desportiva, de lazer, de convívio, no fazer cidadania.

Somos uma cidade que está a sobreviver de forma nobre, que a todos nos deve orgulhar a uma desindustrialização feroz que destruiu milhares de postos de trabalho directos e outros tantos milhares indirectos. Afectando todas as vivências e a sua dimensão económica.

Somos uma cidade que tem vindo a recuperar as condições de vida do seu espaço urbano, herdado de uma construção desenfreada, sem regras, sem consideração pelas populações. Construíam-se casas e a habitação terminava à porta da rua. Não existiam passeios, nem estradas e inclusive, muitas vezes, sem acesso a redes de saneamento ou redes de abastecimento de água. Este tem sido um trabalho digno e impressionante do Poder Local após o 25 de Abril, onde foram gastos milhões, mesmo muitos milhões, que, certamente, davam para fazer piscinas e pavilhões multiusos e promover eventos que nos tornariam referência em Portugal, na europa e no mundo, tanta tem sido a criatividade das nossas gentes.

Há dias comentava os milhares de euros que vão ser investidos para dar condições de vida digna aos moradores do antigo Bairro da CUF e os milhares que foram gastos para recuperar os espaços exteriores do Bairro Alfredo da Silva, aplicados no Barreiro Rocks, ou no Out Fest, ou no desenvolvimento desportivo, que dinâmicas sociais seriam possíveis realizar, estimulando a nossa imensa criatividade. Até criando novos empregos.
E todos os anos, há décadas, que são recuperados logradouros. Uma injustiça.

Espero que um dia exista um plano de curto, médio e longo prazo de recuperação dos equipamentos sociais do Movimento associativo, olhando aqueles espaços não como espaços privados, mas como «praças públicas da cidadania» e de participação no fazer cidade.

Sim, é verdade, e todos os anos, há décadas, que são investidos milhões nos TCB para manter um serviço público, dos poucos que existem no país, fora de grandes centros urbanos. E lamentamos que não sejam melhores. Também lamento. Mas nada se faz sem dinheiro.
Eu, se tivesse dinheiro abria um canal na TV cabo.
Eu, se tivesse dinheiro fazia um Centro Interpretativo na Praia da Barra-a-barra dedicado ao período neolítico e fazia uma grande piscina natural, aproveitando aquele imenso recurso natural do Tejo que ali está ao abandono.

Não estou disponível para dar sentido ao «estado de negação» do fazer cidade e cidadania.
E, como não acredito que o Poder Local possa subsidiar tudo, quando grande parte do seu orçamento é direccionado para concretizar os seus programas e manter vivos os seus espaços, mantendo viva a vertente municipal de fruição cultural, isso, de facto, leva-me a não acreditar em milagres.
Embora, diga-se, apesar de tudo, ainda há muitos que vão beneficiando, dentro do possível, dos frutos que nascem nesse «milagre», e, de facto, ir criando e sonhando. Muitos, sei, até esquecem o que receberam na sua formação humana. A isso chama-se ingratidão.

Não gosto da política feita com a sua vertente de «politica de negação», porque ela faz-me cócegas, afinal, esta é a génese de discursos populistas e demagógicos, que só olham para o que está mal e nunca nada é bem feito.

Os discursos para desacreditar, os discursos feitos dos rótulos fáceis, os discursos que não visam mais nada que criar um clima de desmoralização social e gerar ondas de maledicência, baseados na deturpação da realidade factual e impondo um clima análise arruaceiro. Esses discursos estão na origem da destruição da vida democrática.

Sei, sim sei, que por vezes isso resulta, há exemplos muito recentes, e, de facto, não é por mero acaso que, um pouco por esse mundo, vai se impondo o «trumpismo». Isso é viver a politica sem valores, nem ideais, é o combate pela conquista do poder pelo poder. Vale tudo. Mentir. Iludir. Criar factos imaginários. Deturpar a realidade manipulando a informação. Destruindo o carácter. Criticas injustas.
É por isso que o populismo vai aumentando e talvez um dia, possa ser tarde, e, então os democratas pensem como foram longe demais com as práticas geradoras de ódios e práticas estigmatizantes.

É esta a «espuma cultural» que vou sentindo emergir quando vejo certas «agendas de politicas de negação» que varrem por dentro destes tempos de guerras digitais, de perfis falsos para gerar confusão e, por vezes, pressionar e lançar o medo. Estimulando a destruição e vandalismo.

O mundo está mal. Há milhares a morrer no Mediterrâneo. Há milhares a morrer à fome em África. Há o Brexit. Há o Donald Trump. Há o Putin. Há o Estado Islâmico. Há corrupção. Há fraudes. A política é um negócio entre outros negócios e uma rede de empregabilidade. Mas tudo isto não é o mundo. Se eu valorizar só isto, o melhor que faço é deixar de acreditar na democracia e na Liberdade.

Vem tudo isto a propósito de sentir, cada vez mais, um discurso – repetido, permanentemente repetido – que me quer obrigar a olhar para esta terra, aqui, onde vivo, com um olhar marcado por um “estado de negação”, porque se diz ser esse o sentimento implantado no território. E como tal, se é esse o sentimento, aproveite-se a onda.
Recuso. Há factos e se há factos eles não me obrigam a negar as evidências. Há erros, claro que há, este não é o melhor dos mundos, nem esta é a melhor cidade.
Mas eu gosto de viver neste mundo. Adoro a europa e cultura europeia de liberdade e fraternidade. Mesmo sabendo que nesta europa existe a Hungria. Para mim a Europa não é a Hungria.
Tal como adoro viver nesta cidade e acho esta cidade uma cidade de afectos de encontros, de vida. Uma cidade onde todos nos conhecemos e encontramos em cada esquina um amigo. Uma cidade dividida entre o cosmopolitismo e o provincianismo. Uma cidade que tem tanto de vanguardista, como de conservadora.
Uma cidade que beija o Tejo. Com um imenso pulmão. Com história e com estórias e com muitos rostos.

O que desejo é que aqueles que assumem a gestão dos seus destinos a amem e contribuam, pela sua acção politica, para que ela seja, hoje, como antes do 25 de Abril – uma terra de Liberdade – de respeito pelas diferenças.
Uma terra onde aprendi a viver os ideias políticos, como ideal com valores, princípios e como causa nobre e humanista.
O «estado de negação» empurra-nos para uma análise negativa da cidade e do mundo e, no limite, obriga-nos a esconder o real e a viver com um imaginário de ficção destrutivo.

S.P.

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