Por dentro dos dias - BarreiroO lugar é o lugar e o tempo

Por Jornal Rostos
Um lugar, qualquer lugar, é muito diferente, mesmo muito diferente, pela forma como o olhamos e sentimos.
Um lugar é muito diferente, mesmo muito diferente, de acordo com os objectivos que colocamos na forma de olhar e o sentir.
A nossa rua, a nossa Colectividade, a nossa escola, a nossa empresa, as pessoas, os cães – como diz Pessoa, que também existem – tudo o que encontramos no nosso lugar, são, afinal, expressos pela nossa liberdade de sentir, ou pela prisão dos pensamentos, com os quais queremos sentir ou teimamos em imaginar que sentimos.
Há aqueles que imaginam o lugar perfeito sem mácula. Um mundo, certamente, apenas irónico, porque não existe.
Há outros, que imaginam um lugar com defeitos, só com defeitos, olhando para o lugar vendo-o apenas cercado de mágoa e rancor.
O lugar onde vivemos, onde apenas sentimos o tempo passar, é, muito diferente de um lugar onde nós nos inscrevemos – vivendo.
O lugar é o lugar e o tempo. Vamos envelhecendo e transportamos na memória as memórias do tempo.
Sentimos as mudanças.
Um dos medos que por vezes sinto, é, se um dia, este lugar onde vivi a minha vida, possa, eventualmente, transformar-se num lugar onde não posso viver. Um lugar impróprio para velhos, perdendo as memórias, ou refugando as memórias.
Um lugar que nós sentimos, como nosso, é aquele que gostamos de partilhar, todos os dias, é um lugar onde sentimos pulsar o coração – olhamos as flores, o céu azul, os espaços verdes que existem e tocamos na paisagem com a alegria de viver, sem perfeição, com todas as lacunas próprias de qualquer lugar, onde, os homens e mulheres constroem as suas vidas.
Gosto do Barreiro por ser uma terra feita de muitos lugares, sítios, pontos de encontro – cafés, colectividades, ruas, feitas de gente, muitos velhos que continuam a mexer e a sentir… e os novos que empurram, querem mais e melhor, sonham mais e melhor, essa geração nascida na Liberdade, que viveu sem CUF e sem Ferroviários, que sonha, que constrói, que vive – como pode – mas acredita no que faz com criatividade.´
É tudo isto que dá força, calor humano, essa energia que move dificuldades, motiva e mobiliza – que senti no Dia B, que senti no Depósito do Alto da Paiva, que senti na homenagem a GDESSA, ou no Futsal do Fabril, em festa nas ruas da cidade, que senti nas peças do Arte Viva, do TEB ou do Projéctor, que senti no Sarau da SFAL, os nos concertos da Banda do Barreiro, do Barreiro Rocks, do OUT.FEST, da ADAO, da Escola Conde Ferreira…
Esse lugar que tem espaços que são resíduos, mas, onde, ali, já vi o Vhils lançar as sementes da utopia.
É esse lugar que gostamos, ou não gostamos, feito de pessoas, com diferenças, um lugar que mais que estigmatizar, criticar, o que eu gosto, e é isso que me apaixona é acordar, todos os dias e com o meu olhar, abrir os olhos e sentir que está vivo.
S.P.













