Por dentro dos dias – BarreiroUm saco de uma jovem com 31 anos
Dizia ela – “Hoje partilho este saco duma jovem com 31 anos que teve que fugir de casa onde o companheiro a trancou, tirou-lhe os contactos, deu -lhe uma tareia ao qual a pôs toda negra....”.

Por Jornal Rostos
Ontem, pela manhã, encontrei a minha amiga Antonieta, naqueles seus passeios pela rua do meu bairro, com os seus cães.
Disse-me com um grande sorriso: “Eh pá, tirei ontem à tarde uma fotografia espectacular que publiquei no facebook. Amigos meus perguntavam-me: Onde é isso? Eu respondia-lhes: É no Lavradio. Isso é outro mundo, comentavam eles.”
E com um grande sorriso, lá foi, com os seus cães, e, voltando-se para mim dizia: “O Lavradio é mesmo outro mundo”.
Continuei e fui meditando – Bolas, afinal há mais alguém que também gosta de viver aqui e que não vê só, nesta terra, um lugar terceiro mundista. Sorri.
No sábado, pela manhã, como é habitual estive na SFAL, -“um dos mais bonitos cafés do concelho do Barreiro”, como diz a minha amiga Filipa Lopes.
Quando por ali estava sentado, cerca das 12h30, entrou o Mário Mateus, sempre brincalhão e sorridente, divertido com a vida. Cumprimentamo-nos. Ele seguiu a seu caminho.
Ao fim da tarde, na rede de facebook, o Pedro Lima, colocava a triste notícia do falecimento do meu amigo Mário Mateus, o qual terá ocorrido cerca das 13 horas, pouco tempo depois de nos termos cruzado. Fiquei perplexo. São estas tristes situações que nos fazem sentir como a vida é tão breve e curta e, nela, tudo devemos fazer para viver, sorrindo e brincando. Realizando os nossos sonhos sem obsessões, mas vivendo.
Aqui fica o meu adeus ao meu amigo Mateus, que, recordo, tanto insistia que eu fosse conhecer a sua terra natal, lá para o Minho. Mostrava-me as fotos da sua casa, com grande orgulho, donde se via a paisagem do vale e da Igreja ao fundo – “é lindo, tem que lá ir”, dizia.
As redes de facebook, são hoje, cada vez mais, um espaço onde, as palavras, por repetidas, cansam e perdem significado.
Por razões, diversas diariamente visito e, por vezes, reencontro amigos, outras curiosidades, outras apenas aquilo que defino como “explicações lineares” que, de facto, muitas vezes, assentam numa visão “única”, construída entre as meias verdades e as meias mentiras. Aquelas que mais me divertem são as oriundas de personagens que apenas criticam, criticam e nunca, mesmo nunca, vindas daqueles lados, notei um qualquer elogio a qualquer coisa, mesmo que insignificante, que possa existir de saudável na vida. Por vezes, são, de facto, de quem nunca vi dar nada à comunidade.
Hoje, encontrei um registo de uma amiga a Zeza Loureiro que achei emocionante.
Dizia ela – “Hoje partilho este saco duma jovem com 31 anos que teve que fugir de casa onde o companheiro a trancou, tirou-lhe os contactos, deu -lhe uma tareia ao qual a pôs toda negra....”.
Acrescenta a Zeza, que a dita jovem, - “estava na estação a pedir ajuda às pessoas, inclusive na bilheteira e todos lhe viraram as costas”.
Salienta que – “nem no saco a ajudaram a transportar”, no qual ela, na fuga, colocou tudo o que conseguiu trazer de pessoal.
“Ofereci-me para lhe pagar o bilhete para Setúbal. Fiz participação às autoridades e vai estar um carro patrulha na estação à sua espera”, salienta a Zeza.
Conheço a Zeza há anos, somos daquela gente dos dias do PREC, onde a palavra luta se misturava com os sonhos de um mundo melhor.
Um tempo de conflitos e de valores, que nos apaixonávamos pela vida e acreditávamos que - “Os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes modos: do que se trata é de o transformar”.
Chegámos aqui, ao menos conseguimos dar o nosso contributo para manter a Liberdade e a Democracia, onde, apesar de tudo, existe espaço para manter vivos sonhos e, onde, acredito, ainda há algumas Zezas, que se erguem e agem para transformar e fazer um mundo um pouco, mesmo que seja pouco, melhor.
Fica o registo e um beijo à Zeza pelo seu gesto, um exemplo que a solidariedade existe e há pessoas com valores.
António Sousa Pereira













