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Inferências

É A TERCEIRA VEZ QUE A ADMINISTRAÇÃO DO PORTO DE LISBOA (APL) NOS QUER TIRAR A PAISAGEM!Por Armando de Sousa Teixeira
Barreiro

Ainda bem que a população barreirense está a despertar a tempo mais uma vez, chumbando um projecto que destrói aquilo que o Barreiro tem de mais bonito, a sua paisagem ribeirinha!

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É A TERCEIRA VEZ QUE A ADMINISTRAÇÃO DO PORTO DE LISBOA (APL) NOS QUER TIRAR A PAISAGEM! Por Armando de Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

No âmbito da Auscultação Pública em curso sobre o projecto da APL para o Porto de Contentores do Barreiro, junto uma "Participação Pública" reafirmando e clarificando as posições que ao longo dos anos tenho tomado, por escrito ou oralmente, sobre este assunto.
A esta obrigação cívica e imperativo de consciência, junto um conjunto de ideias/propostas que sintetizam aquilo que tenho avançado em nome individual ou que tenho defendido no âmbito da Associação de Defesa do Património a que pertenço, que aqui não represento e terá posição própria.

Barreiro, 16/6/17
Armando de Sousa Teixeira

Participação pública
É A TERCEIRA VEZ QUE A ADMINISTRAÇÃO DO PORTO DE LISBOA (APL) NOS QUER TIRAR A PAISAGEM!

1. 1973

Na Campanha Eleitoral para a Assembleia Nacional, em Outubro de 1973, que a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) aproveitou para um grande esclarecimento e mobilização popular, surgiu um projecto da AGPL (Administração Geral do Porto de Lisboa), elaborado na Profabril (universo CUF) em segredo.

Um grande aterro da coroa do Mexilhoeiro, mais de um quilómetro rio adentro, para a instalação de uma Estação de Tratamento da Gaslimpo, dos resíduos dos petroleiros que entram na Lisnave para reparação e que está a ser feito precariamente, num barco em pleno rio que polui as águas continuadamente.
Para “dourar a pílula”, haveria um aterro frente à Avenida da Praia (então Duarte Pacheco) com jardins, campos de ténis, basquetebol, instalações náuticas, etc. A Oposição Democrática e a população barreirense denunciam e recusam veementemente a ideia e a Revolução de Abril de 1974 pôs termo a este projecto megalómano. A Lisnave não durou muito tempo, infelizmente.

2. 1983/85

A Siderurgia Nacional, é a “menina dos olhos” das Nacionalizações. A APL (caiu o Geral) manda fazer um projecto para a construção de um Porto Graneleiro e para o necessário aprofundamento da cala do rio Coina. Para onde vão os lodos/areias das dragagens?
Para a Alburrica, exemplarmente aterrada com a criação de campos de jogos, jardins, instalações náuticas (o rebuçado do costume!).

Na frente da Avenida Marginal (agora Bento Gonçalves), o resto das dragagens serviria para construir um Cais Graneleiro e uma linha de Caminho de Ferro privativa, para levar o carvão à projectada Central Térmica do Lavradio. E seriam feitos mais campos de jogos, jardins, instalações náuticas, blá, blá, blá!
Hesitações! Uma delegação vai à Holanda ver os aterros milagrosos feitos pelos holandeses e vem maravilhada!

Entretanto a autarquia barreirense, representada no Conselho Consultivo da APL, questiona seriamente o projecto que também equacionou a Ponta dos Corvos, no Seixal, cujo município recusa.
Discussão acesa, opiniões divididas. Por trágica ironia, o desempate é feito pelo governo de direita de Cavaco Silva/ Eduardo Catroga (1985), que inviabilizou rapidamente o Plano Siderúrgico Nacional e destruiu a Siderurgia.

3. 2017

O primeiro projecto (2009/2010) para a Área Logística/ Porto de Contentores, inserido no PUTQAE (Projecto de Urbanização do Território da Quimigal e Áreas Envolventes), feito pela empresa Risco para a CM do Barreiro, na sua ingénua simplicidade e boa fé construtiva (empresas potenciadoras de postos de trabalho) mereceu o nosso reparo sério desde o inicio:

a) As dragagens vão mexer com milhares de toneladas de metais pesados (ferro, chumbo, cobre) mais cádmio, crómio e até vanádio. Não as encontraram, mas elas estão lá!

b) A frente rio seria “tapada” com contentores a 5 e 6 de alto (um quinto andar!). Vidé a estação da Bobadela, à direita quando se chega a Lisboa pela Vasco da Gama.

c) Seria introduzido um trânsito de camiões incomportável na rede viária do Lavradio, já saturada nas horas de ponta.

d) Ainda pior! A solução alternativa seria uma ponte directamente para o Montijo (baratinha!...) e lá se ia a Terceira Travessia por mais uns lustros!

e) Os postos de trabalho nunca seriam muitos. Vidé a Tanquipor, movimenta centenas de milhares de toneladas/ano, realiza milhões de euros, com 28 funcionários!

f) No fundo trata-se de uma transferência dos contentores que Lisboa não quer, devido à “galinha de ovos de ouro” do turismo massificado e aos milhões do capital apátrida, financeiro especulativo e oportunista, na “requalificação” urbana e no “equilíbrio” das contas públicas.
*
Dissemos e escrevemos isto na altura própria, excepto o último ponto e ficámos (quase!...) sozinhos a “pregar no deserto”.
Ainda bem que os desenvolvimentos recentes vieram alertar consciências e o projecto agora conhecido, qual novo “monstro dos mares”, veio clarificar os reais objectivos da APL e do governo que nela manda!

Só ficará admirado quem esqueceu a história, ou quem ignore a “mania das grandezas” de (alguns) gestores públicos (auto-estradas em triplicado, zona oriental de Lisboa densificada, por exemplo). Ou quem olvide a megalomania de (muitos) decisores políticos (Centro Cultural de Belém, Estádios de Futebol do Euro (10!), Comboio de Alta Velocidade, entre outros).

Ainda bem que a população barreirense está a despertar a tempo mais uma vez, chumbando um projecto que destrói aquilo que o Barreiro tem de mais bonito, a sua paisagem ribeirinha!
Perguntar-se-á nesta altura: então que propostas alternativas, que ideias novas, que futuro para os nossos netos, que soluções para a debilitação económica provocada pela destruição do tecido produtivo do Barreiro? (Iniciado e aprofundado pelo tal governo do PSD, Cavaco Silva/ Eduardo Catroga -1985/95).

Também sobre isso já dissemos e escrevemos muito:

1. “Tejo, património ambiental da humanidade”, um projecto multi-municipal já timidamente anunciado (esquecido?) por Lisboa, potenciando o desenvolvimento de programas de defesa do rio, “berço da nossa civilização” e o desenvolvimento de projectos de participação cultural e económica dos municípios ribeirinhos.

2. Manter e ampliar a produção industrial “sobrevivente” na área do ex-complexo CUF/Quimigal, valorizando algumas autênticas “memórias vivas” que não são incompatíveis com a naturalmente longínqua Terceira Travessia do Tejo.

3. Preservar, recuperar integrar, organizar o riquíssimo património arqueológico industrial, tendo em vista a classificação de “Barreiro Património Nacional de Arqueologia Industrial”.

4. Definir estratégias de fruição/visitação turística e cultural, assegurando a gestão sustentável dos Centros Históricos (Ferroviário e Químico) organizados em Núcleos, Áreas ou Sítios Patrimoniais.

5. Definir/atrair projectos de tecnologia diversificada para as áreas vocacionadas que não sejam o 3º “milagre/maldição”, como foram os Caminhos de Ferro no século XIX e a CUF no século XX.

Sabemos que algumas destas ideias são partilhadas pela Autarquia, outras serão consideradas utópicas e sonhadoras, parte delas são com certeza para um prazo longo, mas são sobretudo, respeitando a nossa idiossincrasia, contributos para a terra que amamos.

Barreiro, 16/6/2017
Armando de Sousa Teixeira

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