As coligações anunciadas...rentrée barreirense31 de Agosto de 2003
Mas, este ano, houve novidade, porque, com algum tempo de distância, na MEI – Mostra Empresarial e Institucional o PSD e o CDS/PP apresentaram-se, conjuntamente, como que anunciando uma futura coligação para as autárquicas no concelho do Barreiro

Por António Sousa Pereira
Na verdade, esta apresentação conjunta pode ser apenas um entendimento, circunstancial, de duas forças políticas que partilham o poder, no Governo.
Mas, por outro lado, pode também significar, um desafio estratégico de prosseguir uma dinâmica de apoio ao governo e de consolidação de uma estratégia de direita em Portugal.
Uma pergunta que se coloca é se, uma coligação desta natureza, pode ou não, influenciar os resultados autárquicos no concelho do Barreiro.
Sendo o eleitorado do Barreiro, um eleitorado urbano e com uma “cultura de esquerda”, então, numa primeira análise, pode parecer que uma coligação de direita, não irá conquistar grande espaço neste concelho, podendo até beneficiar o Partido Socialista, força de esquerda, que, actualmente, conta com o apoio da maioria do eleitorado barreirense.
Mas, esta coligação pode também representar, a médio prazo, o desenvolvimento de uma corrente de opinião que, pouco a pouco, venha a afirmar-se como uma alternativa ao PS.
PSD alternativa
Na realidade, o PSD que pretende, desenvolver uma estratégia tendo como objectivo afirmar-se, no futuro, como alternativa ao Partido Socialista, na liderança da Câmara Municipal do Barreiro, por essa razão, naturalemente, interessa-lhe conquistar espaço político e aumentar a sua influência na vida da cidade.
Sem dúvida, com esta eventual coligação, o PSD vai consolidar o eleitorado da direita em torno de uma candidatura que, obviamente, terá um rosto social democrata.
O primeiro objectivo do PSD será, portanto, aumentar a sua expressão eleitoral, ao afirmar-se como um partido que quer, a médio prazo, retirar ao PS espaço político.
O PSD, com esta coligação, começa, igualmente, a lançar as sementes que contribuem para esvaziar a dita bipolarização do eleitorado barreirense entre o PS e PCP, gerando um novo espaço alternativo.
O PSD com esta coligação, naturalmente, irá desenvolver dinâmicas políticas que contribuam para evitar que o PS, eventualmente, conquiste a maioria absoluta, de forma a continuar a impor-se, quer como partido charneira, quer como força política que tem que ser escutada e respeitada.
Naturalmente, o PSD, com esta coligação irá lutar pela conquista do seu segundo Vereador, e, ao conseguir esse salto, alterar, completamente a correlação de forças na vida política da cidade.
Sabemos que os “amores” de Verão, por vezes, são passageiros mas, desta vez, tudo indica que a coligação PSD/CDS-PP é uma “paixão” anunciada, com pompa e circunstância e irá continuar, porque se insere numa estratégia de médio e longo prazo, visando gerar uma alternativa de centro - direita no concelho do Barreiro. Não devemos esquecer que o PSD, em pleno cavaquismo, já conquistou no Barreiro o lugar de segunda força política.
Bruno Vitorino, líder social democrata, sabe que tem muito tempo, sabe que pode esperar e, portanto, o interesse central da sua acção política é – retirar espaço ao PS, acabar com a bipolarização PS-PCP, criar um espaço alternativo, levando consigo o CDS, para descansar à direita e, simultaneamente, retirando espaço ao PS conquistar espaço no centro esquerda.
O CDS/PP sendo uma força política com pouca expressão no eleitorado barreirense só tem a ganhar ao entregar-se nas mãos do PSD e, naturalmente, desta forma manter-se activo e tornar-se uma força com influência na vida local.
Esquerda sem coligações
Quanto a coligações à esquerda não parece que venham a existir. O PCP quer ser alternativa por si mesmo, aliás, está mesmo convencido que pode opor-se ao PS e retira-lhe de novo a liderança da Câmara.
O PS não tem qualquer interesse em avançar com uma coligação com o BE – Bloco de Esquerda, até porque tal, seria, sem dúvida, um sinal de fraqueza e de medo perante o PCP.
O BE, sublinha até que o PCP só faz coligações com forças que se anulem na estratégia do PCP.
O BE poderá ser uma força que, pouco a pouco, irá conquistando espaço no Barreiro, mas, em eleições como as autárquicas nas quais a abstenção tem um importante peso político será que o BE consegue afirmar-se como uma proposta alternativa para a cidade?
As eleições no Barreiro, mesmo com uma diminuição das tensões PS-PCP, no que diz respeito ao esvaziamento da bipolarização, continuarão a ser, intensamente disputadas por estes dois partidos, ao nível dos diversos órgãos autárquicos.
O PS conta a seu favor o facto de ser o partido no poder, isso, como se sabe, conta muito, aliás, foi essa a razão que manteve o PCP tantos anos na liderança.
O PCP conta a seu favor com a correlação de forças e de interesses ao nível local, quer de autóctones, quer de grupos económicos ou sociais, que continuam ainda um pouco indecisos, e, presos ao cordão umbilical de 27 anos de gestão comunista.
Uma coisa parece ser certa, pouco a pouco, a correlação de forças ao nível local vai-se alterando e o anúncio da coligação PSD/CDS-PP é uma prova que o tempo do “quem não está por nós está contra nós” já passou...se o PS souber, obviamente, não se transformar, no poder, como um novo PCP.
O PS continua a beneficiar de muita gente, do benefício da dúvida, porque, na verdade, não se pode exigir que seja feito, em quatro anos, o que não foi feito em 27 anos.
Mas, como referia Mário Durval do Bloco de Esquerda, todos continuam expectantes, aguardando mudanças que marquem...a diferença.
O PS conta ainda com outro trunfo importante, Emídio Xavier, um presidente que não sendo populista, nem pedante, é um homem que aposta no diálogo e vai a todos os recantos da cidade dialogar com as populações. Um trunfo que o PS não pode perder.
Não é por mero acaso que, nos últimos tempos, uma das armas de arremesso do PCP é visa esvaziar e criticar a personalidade que lidera a Câmara Municipal do Barreiro.
Mas, o PS deve ser capaz, igualmente, enquanto partido, afirmar-se na vida da cidade e ser capaz de efectuar o combate ideológico que caracteriza a acção política do PCP.
O PCP continua a ser o partido político mais activo e mais interveniente na vida política local, é um partido de militância e isto é muito importante na vida política local.
Mas, há sempre um mas, o PCP continua a ser incapaz de demonstrar que é capaz de aceitar diferenças e respeitar quem critica as suas posições, e, nesta matéria o PS, no poder, já demonstrou que não interessa o que defendes politicamente, interessa é o que fazes e o que vales tecnicamente, nem sequer interessa se cá nasceste, mas se esta é sim a terra onde queres viver e onde estás a construir a tua vida...no e pelo Barreiro.













