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Inferências

Medos e confusõesPor Carlos Alberto Correia
Barreiro

Em todos os casos a apresentar aparecem, nas ditas redes, artigos e comentários, sobretudo, alinhados em prós e contras. Num maniqueísmo militante as pessoas dividem os atores sociais em bons e maus e, consoante a visão própria, defendem acerrimamente o seu partido, como se esse parcialíssimo ponto de vista contivesse toda a verdade do mundo.

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Medos e confusões Por Carlos Alberto Correia Barreiro

Por Jornal Rostos

Uma coisa é certa! Dentro de trinta a quarenta anos a maior parte dos empregos conhecido não existirá ou será feito por robôs e inteligências artificiais. É o mundo em mudança. Ameaça, mas não se extingue. Anunciam-se apocalipses e vamos a ver, dão-se umas convulsões – algumas com gravidade – e continua-se a caminho do próximo receio, da próxima mudança. “C’est la vie”! Outra coisa certa é que eu não estarei cá para verificar a justeza das minhas afirmações. Terei, há muito, ultrapassado o meu prazo de validade. Continua a ser a vida!

Não acreditando em destinos ou predestinações, creio firmemente nos efeitos sociais das escolhas dos indivíduos e das sociedades. Para aligeirar explicações, direi que, em cada escolha, seja ela a mais prosaica, acontecem, no mínimo, duas coisas: primeira, escolher implica rejeitar tudo quanto se não preferiu; segunda, cada escolha implica as escolhas seguintes e assim “ad nauseam”. Os efeitos visíveis dessas escolhas só serão entendíveis a muito longo prazo, no tempo histórico ou sociológico. No presente ficamos com a ilusão de que nada demais aconteceu, embora estivéssemos a produzir futuro(s).

Visa esta introdução colocar três temas cujos, de modo vário, têm sido debatidos nos últimos tempos, os quais pretendo ligar por nexo de causalidade. Todos eles têm em comum o forte debate feito nas e a propósito das redes de comunicação social.

Em todos os casos a apresentar aparecem, nas ditas redes, artigos e comentários, sobretudo, alinhados em prós e contras. Num maniqueísmo militante as pessoas dividem os atores sociais em bons e maus e, consoante a visão própria, defendem acerrimamente o seu partido, como se esse parcialíssimo ponto de vista contivesse toda a verdade do mundo. Qualquer terceira opinião será completamente exautorada e os seus seguidores levados à completa desautorização e inanidade.

Vejamos em primeiro lugar o debate sobre a Venezuela! De um lado está a fação – mais alinhada com as esquerdas – da conspiração ocidental neoliberal, contra um regime popular - do outro, os defensores de “sociedades abertas” – mais alinhadas com as direitas – clamando contra os ataques aos direitos humanos e democráticos, perpetrados pelo regime personificados em Maduro, o seu chefe.
Consigo encontrar algumas razões válidas em ambos os lados. Desconfio e penso inaceitável, a lógica do demónio e do anjo. Não desprezo as teorias sobre manipulações de interesses exógenos, sobretudo por causa do petróleo, mas também por desamor ao regime e a qualquer aproximação da ideia de república e poder popular. É-me igualmente difícil perceber que um líder de esquerda sobreponha a sua vontade de dominação, às angústias de um povo condenado à fome, à luta pela sobrevivência, ainda que possivelmente manipulado por forças ínvias. Não entendo como, para defender o povo, se permite aos polícias atirarem a matar sobre a multidão onde, certamente, predomina a presença dos “deserdados da sorte” ou, por mais simples palavras, desse mesmo povo. É uma situação a remeter-me para tristes e salazarentas memórias. Também nesse tempo, quando polícias e guardas marchavam contra os manifestantes, nunca eles representavam, fossem quantos fossem, o povo legítimo. Eram sempre agitadores comandados pelo exterior.

Lá, como cá, existirão sicários a soldos de interesses perversos? Certamente, sim, mas serão uma minoria. Na verdade, num país onde a inflação anual é da casa dos três dígitos, não se poderá pedir, a quem tem ordenados curtos e constantes, que fique quieto em casa, em nome de qualquer ideologia, à espera que uma batata custe o valor de três meses de ordenado. Um líder de esquerda, preocupado com o bem-estar popular, ou encontra soluções ou cederá o seu lugar a outro que as consiga. O resto é manutenção de poder pessoal e, se o não for ainda, um caminho célere para a ditadura. Por isso eu não gosto de Maduro e não permito que, por esta posição, me possam quer ligar, de imediato, ao conjunto dos inimigos do poder popular na Venezuela. Ao argumento de que ele lá está por eleições, contraponho primeiro ter sido sucessor (sou contra dinastias) e que, por votos, também Hitler chegou ao poder…

A gente às vezes engana-se!

Ainda na mesma lógica do bom e do mau, sem estados intermédios, aterra-me em cima o caso da Caparica. Uns querem matar os pilotos porque, ao pousarem na praia, preferiram salvar as suas vidas à custa do sacrifício de uns quantos desconhecidos a povoarem o areal. Outros defendem tecnicamente a opção tomada pelos pilotos, equacionando a grande percentagem de insucessos nas amaragens. Nada sei de pilotagem. Limito-me a comprar bilhetes e voar - esperando sem problemas - nos autocarros aéreos que me levam rapidamente aos destinos pretendidos. No entanto, azares de guerra, tive uma experiência algo semelhante na Guiné. Um monomotor onde fazia vigilância aérea perdeu o motor. Apesar disso, o piloto conseguiu manobrar o avião de molde a conduzi-lo onde pretendia e a pousar sem danos para a população e para a tripulação. Curiosamente, tal como no caso da Caparica, ficou também com uma das asas quebrada. Penso, por isso, que esta questão vai para lá da técnica. Trata-se de uma decisão moral. Os pilotos, ao entrarem no avião, tomaram uma resolução com dois resultados possíveis: chegar incólumes ao destino, ou terem um acidente de onde resultassem ferimentos ou presumível morte. E, tacitamente, aceitaram-na. Os banhistas estiveram ausentes nestas decisões. É aqui que se intromete a falha ética. Ao definirem a vontade de voar, tornaram-se responsáveis por quanto adviesse dessa deliberação. Portanto mesmo sendo mais perigoso aterrar na água, caso fosse possível, é o que deveriam ter feito, independentemente dos riscos corridos. Uma escolha acarreta a responsabilidades das consequências, mesmo não imaginadas, e se algumas não estão nas nossas mãos, ali, talvez estivesse. Há um nome para quem não assume as consequências das suas escolhas. Podem não ser criminosos, mas tudo leva a acreditar terem sido egoístas e cobardes.

A isto junta-se o visível pânico que atravessa as hostes de comentadores e jornalistas. Ouvimo-los bramar contra a desinformação patente nas redes sociais; contra a informe primário, não tratado, mesmo falso, a campear nas redes. E têm razão. De facto, qualquer cidadão com um telemóvel documenta situações que a muitos conviria que não aparecessem na sua crueza. Se os argumentos de primarismo e facciosismo não deixam de ter cobertura, a maior ameaça para a informação profissional não virá, apesar de tudo, das redes, mas sim dos efeitos da conglomeração dos media em pouquíssimas empresas ou centros de poder, interessados em difundir “a sua verdade”. Perdem razão os investimentos cada vez que um popular mostra o que pretenderiam ocultar. Digam-no os polícias racista da América.

O risco de desinformação existe na rede? É um facto! As notícias falsas pululam? Sem dúvidas! O jornalismo profissional poderia servir uma informação acautelada, trabalhada e isenta? Podia, mas, na maior parte dos casos, também não o faz. Limita-se a informação de Agência, muitas vezes tão acrítica quanto a que circula nas redes, a cumprir desígnios de poderosas corporações. Culpas deles? Talvez não! Com certeza do medo de perderem o emprego e dada a rarefação de empresas de informação, saírem de uma é, muito provavelmente, condenarem-se ao desemprego permanente. Todos temos de pensar no bife!

Lembrando-me das imagens, sempre as mesmas, passadas nas televisões (fogos e Venezuela) repetidas durante semanas, a ilustrarem notícias de diferentes conteúdos e tempos, sem a indicação de não se referirem à notícia em curso, induzindo uma continuidade mentirosa, percebemos como estamos a ser manipulados por quem tem o dever de transmitir os factos com a maior isenção. Ás vezes até parece que não percebem a diferença entre notícia e opinião.

Concluindo! É confuso e temeroso o que se passa na Venezuela? Sim! Temos medo, muitas vezes com razão, de decisões individuais que podem trazer catástrofes às nossas vidas? Com certeza! Construímos teorias da conspiração, por tudo e por nada, porque descremos dos meios de comunicação - de quem eles servem e quem deles se serve - dos políticos e outros decisores que ajeitam a verdade à medida dos seus interesses, com “factos alternativos”? Indubitavelmente! Poderíamos, nos tempos que correm, estarmos menos confusos ou temerosos? Evidentemente!

Mas, sabem, isso dá muito trabalho! É uma chatice! “C’est la vie”!

Carlos Alberto Correia

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