Por dentro dos dias - BarreiroMeu primeiro sonho foi surpreendente
Se calhar foi ele a causa do meu sonho…ou outros que também acham que possuem uma «ideologia» que é a verdadeira interpretação do tempo que vivem.

Por Jornal Rostos
Neste primeiro dia que começo a deixar para trás uns dias de descanso, dedicados a escutar gaivotas, ouvir as ondas do mar, sentar-me na areia de olhos fechados e mergulhar por dentro de mim mesmo, quero começar vos contar o primeiro sonho que tive, na primeira noite que voltei ao lar doce lar. Que saudades que tinha deste meu cantinho.
Pois é, o meu primeiro sonho foi surpreendente. Passei a noite numa longa discussão. Usei todos os argumentos possíveis, feitos de experiência de vida, para demonstrar a uma pessoa que, não sei quem é, porque nunca a tinha visto em lado nenhum, como a vida é complicada, como há coisas que resultam de processos legais e como as burocracias são difíceis de superar. Eu explicava e voltava a explicar.
Os temas eram absurdos e reais. Desde os incêndios que se repetem, passando pelos discursos dos políticos e os sistemas de protecção civil. Era como um retorno a coisas vividas por dentro.
Por fim, a pessoa com quem conversava, sem argumentos para contestar o que, na minha paciência, procurava explicar, voltou-se para mim e disse-me – “Oh palhaço, eu é que sei este carro é meu”. Uma resposta fora do contexto, que colocou fim à conversa e à longa discussão, da qual só recordo este episódio final, porque acordei.
Levantei-me. Sorri, Olhei o sol e disse «Bom Dia!».
Comentei – “Tive um sonho que afinal é uma lição de vida. Não vale a pena argumentar, nem discutir com quem não nos ouve, ou com quem está completamente obcecado pela sua verdade”.
Por exemplo, não vale a pena dialogar ou querer sequer dizer ao antigo Presidente da República, seja aquilo que for, quando ele nas suas próprias palavras cai em contradição, quando afirma que a «realidade tira o tapete à ideologia».
Ele não percebe que fala contra si próprio, porque ou ele não tem «ideologia», ou então, é defensor de uma única ideologia aquela que para ele é a única que tem uma leitura correcta da realidade. E a realidade será sempre diversa e interpretada de forma diversa. Com muitos pios.
Quando estava na praia a escutar as gaivotas, reparei que, até as próprias, têm formas diferentes de piar.
Se calhar foi ele a causa do meu sonho…ou outros que também acham que possuem uma «ideologia» que é a verdadeira interpretação do tempo que vivem.
Afinal, isso sempre foi um perigo e muito trágico para a humanidade.
António Sousa Pereira













