Por dentro dos dias - BarreiroEu tinha acabado de fazer 15 anos e sonhava….
É este o meu país, hoje, de mortes nas florestas que ardem, de pessoas que vão a um Hospital e encontram a morte, por falta de condições de salubridade.

Por Jornal Rostos
Estava aqui, sentado, a pensar sobre o passado, porque o passado, pode não ser para viver, ou reviver, mas, ele, sem dúvida, é uma lição, um tempo que se junta ao tempo que somos hoje – não há presente sem passado, assim como não há futuro sem presente.
E não vale a pena querer pintar o passado de cores diferentes, cada um tem o passado que tem, na sua individualidade e na sua partilha.
Então, neste Portugal, feito de mimos e abraços, de estórias e historietas, de modelos de estar e ser que se perdem por dentro das memórias, esta cultura judaico-cristã, este partir e chegar que se diz e escreve saudade, com culturas de sacristia e esquinas, a morder os pensamentos, de facto, não vale mesmo a pena querer estrangular o passado, porque ele está inscrito nas nossas vidas.
A cultura de bons e maus, as vivências marcadas por bodes expiatórios, as acções estimuladas no criar um «inimigo comum», isso, está inscrito no nosso adn, basta recuar a Eça de Queirós. Uma monarquia constitucional feita de bons e maus. Uma República feita de bons e maus. Um Estado Novo feito de bons e maus. Um Abril feito de bons e maus. É isto o nosso passado. É isto o nosso presente – de geringonças ( os bons) e até aqui, na gerigonça há os muito bons, os bons e os menos bons, e , até os que nunca serão bons. E os maus, são os outros – os troikianos – tão maus que me arrancaram o sorriso durante anos, mas também, aqui, eles, os troikianos, há os maus, os menos maus, os muito maus. E até há troikianos, que odeiam, alguns dos bons ( ou pouco bons).
Estava aqui a pensar, ao fim da tarde, no passado, nos dias que vivi no ano de 1967, um tempo que adoptei como lema de vida – procura deixar o mundo um pouco melhor que o encontraste – ali, em Odivelas, no meio de lama, tristeza, lágrimas, casas destruídas, das quais apenas restavam os alicerces, cadáveres enterrados na lama, crianças a chorar, idosos marcados nas rugas de uma vida dolorosa – o meu país real.
Eu tinha 15 anos. E sonhava num mundo diferente. Não sabia o que era politica, era me indiferente. Soube que houve uma tragédia e, ali, nos arredores de Lisboa, onde eu então vivia, pessoas precisavam de apoio e solidariedade, vesti a minha farda de escuteiro e lá fui, com esse desejo de dar um abraço solidário e ajudar os que sofriam.
Vi lá muitos jovens. Eram muitos os jovens, que removiam lama, abriam covas, ajudavam a descobrir cadáveres de pessoas e animais.
Dizem que morreram 400 pessoas, outros falam em 700, o número que me ficou na memória – foi 1200 mortos - este número escutei, dito e redito, e gravei na memória.
Era este o meu país, há 50 anos, feito de territórios sem planeamento, bairros de gente pobre construídos em zonas de linhas de água.
É este o meu país, hoje, de mortes nas florestas que ardem, de pessoas que vão a um Hospital e encontram a morte, por falta de condições de salubridade.
É este o meu país, o país, que continua a viver, feito de bons e maus, de passados que se calam, para lançar futuros de sonho.
Eu tinha acabado de fazer 15 anos e sonhava….
António Sousa Pereira













