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Inferências

Por dentro dos dias - BarreiroAs melhoras Ti’João

Só quem vive aquela profissão – de médico, enfermeiro, auxiliar de saúde - com a paixão de quem abraça um modo de estar na vida e realizar-se como pessoa, consegue superar as angústias e o desespero daquele combate com o tempo, por dentro do tempo.

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Por dentro dos dias - Barreiro As melhoras Ti’João

Por Jornal Rostos

Ali, não há noite, nem há dia, não há sequer tempo, porque todo o tempo é uma luta contra o tempo.
Um tempo feito de entrega, de paixão, de combate, uma azáfama, de um lado para o outro acorrendo a todos os gritos de dor – “tenho fome”, “tenho sede”, “quero ir para casa” - ali, naquele recanto do mundo, desta cidade Barreiro, a vida aguenta-se, ou esvai-se entre os dedos da impotência, mas todos, mesmo todos, dão de si tudo, até ao limite, sem cansaço, porque, afinal, o cansaço pode quebrar o ânimo de quem vive, cada segundo com paixão e uma vivência do tempo que toca os nervos da indiferença, ao nascer do sol, ao amanhecer ou anoitecer.

Ali, cada momento é um acto de ternura – “vá lá princesa abre a boca”- e no meio de toda aquela luta, ainda há tempo para sorrir, comentar a vida, falar dos filhos, falar das folgas e descansos dos dias de Natal ou de passagem de ano – “isto calha sempre aos mesmos”. Porque afinal, são pessoas, também elas com os seus dramas e sonhos de vida.

Só quem vive aquela profissão – de médico, enfermeiro, auxiliar de saúde - com a paixão de quem abraça um modo de estar na vida e realizar-se como pessoa, consegue superar as angústias e o desespero daquele combate com o tempo, por dentro do tempo.

Ao meu lado estava o Ti’João. Uma situação limite. Escutava aquela lufa a lufa, ali, ao meu lado – “abra os olhos”, “olhe para mim”.
E, pelo que escutava, tentava-se numa intervenção cirúrgica ao nível pulmonar, aquele combate contra o tempo e por dentro do desespero do tempo.
Uma correria. Uma entrega que sentia-se era um combate pela vida.

Horas depois saí, dali, naquele recanto onde o amor se escreve com a palavra vida.
Quando o Técnico Auxiliar, de seu nome Virtuoso, empurrava a minha maca, passei na frente do Ti’João, olhei, e, num aceno disse-lhe : “As melhoras Ti’João!”.
O Virtuoso comentou : “Ele ouviu. Fez um sinal com os olhos”.
As lágrimas rasgaram o meu coração. Contive-me. Mas, à noite, deitado, lá em cima na Medicina B, senti um rio marejar meus olhos.
Não sei se o Ti’João sobreviveu, mas, uma coisa sei os heróis - híper humanos - da Unidade de Internamento Polivalente de Agudos (UIPA), foram de uma entrega inexcedível, porque, ali, ao mesmo tempo, há outros Ti’João, há outras Ti’ Filomena, que exigem os mesmos cuidados, a mesma entrega e a mesma paixão – 24 horas, sobre 24 horas – ali, não há tempo, o único tempo escreve-se com a palavra vida!

António Sousa Pereira

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