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Inferências

Por dentro dos Dias - BarreiroEstá ali o meu país

Ali, deitado, na maca sinto a situação real e penso no desespero de quem sofre e na ansiedade de quem trabalha em condições limite, mas que não desiste de dar respostas . Numa entrega a rasar as lágrimas contidas, numa ansiedade, que brota do amor à profissão.

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Por dentro dos Dias - Barreiro Está ali o meu país

Por Jornal Rostos

Está ali o meu país. O meu país habituado a sentir a dor por dentro dos nervos. O meu país que se propaga, real, vivo, num eco feito de – “ai,ai,ai,ai…”. A dor a rasgar o silêncio.
Ali, naqueles corredores, as macas, em fila indiana, são o refúgio, o ponto de encontro com a angústia, o sofrimento e a esperança.
Lotação esgotada. Homens e mulheres, na sua grande maioria idosos. O espelho de um país envelhecido, de uma região envelhecida, de uma cidade envelhecida.
As condições estão no limite, para os utentes e para os profissionais que, de um lado para o outro, acodem e procuram dar respostas a todos os apelos. Não têm mãos a medir.

Observo e penso, nos muitos comentários que por vezes leio, ou escuto, sobre o Hospital do Barreiro. Ali, deitado, na maca sinto a situação real e penso no desespero de quem sofre e na ansiedade de quem trabalha em condições limite, mas que não desiste de dar respostas . Numa entrega a rasar as lágrimas contidas, numa ansiedade, que brota do amor à profissão.

De repente sorriu. No meio daquela angústia, entre as macas, um homem, idoso, bem idoso, certamente um utente, e, uma mulher, enfermeira ou médica, entre os sorrisos de outros nas macas, que os observam, dançam, uma dança que faz lembrar um cena, de um qualquer filme de Fellini. O meu país, real, na sua natureza identitária, que perante as adversidades nunca deixa de sorrir, cantar e dançar.

É por isso, talvez, que alguns profissionais de saúde, após alguns anos de desespero e dádiva, eles, que tudo dão, ao sentirem as criticas, por vezes infundadas, certamente, acabam por vestir uma couraça, uma forma psicológica de ignorar e responder à ingratidão. Somos muito ingratos.
O nosso Serviço Nacional de Saúde, acredito, deve ser mesmo uma das mais belas conquistas do 25 de Abril.
Ali, embatem todas as torrentes de desespero, mas também as de alegria do nascer. Um serviço único que apesar das dificuldades e limitações, existe, e todos devemos pugnar pela sua preservação e defesa.
Claro que nem tudo é perfeito. Claro que existem erros e deficiências. Mas, mesmo assim, ali está como oásis que acolhe no seu seio um país que envelhece.

Em torno dele movem-se milhões e milhões de interesses, mas, mesmo neste quadro de cortes, de apertar o cinto, de limitação de recursos, de problemas de carreiras – vivi nestes dias um dia de greve, notei as dificuldades – os enfermeiros a dar resposta à ausência, sentida, do pessoal auxiliar de saúde.
É verdade, é complicado, mas este SNS, continua a prestar um serviço único e indispensável num país envelhecido.

Notei alguns problemas que fazem o seu quotidiano. Na enfermaria onde estive, na Medicina B, lá estava sentada numa cadeira, já com o seu problema de saúde resolvido há uns dias – pelo que ouvi dizer.
Ali estava, sentada, apenas para comer e dormir, quase sem qualquer medicamentação.
A D. Ivone, falava – “Não tenho ninguém. Tenho um filho na Alemanha, outro em França, outro no Alentejo. Estou sozinha. Não tenho ninguém”.
Ao seu encontro veio uma assistente social.
“Temos que resolver o seu problema. Temos que ver para onde pode ir, vamos colocá-la no Montijo, durante uns dias para fazer Fisioterapia. Que diz?”, dizia-lhe a Assistente Social.
Ela comentou – “No Montijo!».
«Onde mora?».perguntaram-lhe. “Na Verderena, mas não tenho ninguém e sozinha não consigo fazer nada”, respondeu.
Ao fim do dia lá partiu, rumo ao Montijo, porque não tem ninguém e por lá vai ficar até existir uma solução.
É este o meu país real, ali, a cruzar-se nos corredores, entre macas e dor, entre sorrisos e confortos.

Uma coisa tenho a certeza, as obras de ampliação anunciadas para o Serviço de Urgência do Hospital do Barreiro, já em fase de concurso, são uma necessidade urgente, para os utentes, para os profissionais de saúde, e, acima de tudo, para a prestação de um serviço de melhor qualidade, que, com todas as limitações e dificuldades, sem dúvida, ali, todos fazem o melhor e dão de si o melhor…estar de fora é fácil criticar, sentir, lá dentro, no pulsar quotidiano, de facto, ali, na vida real é que dá para perceber, como só amando o que se faz, com paixão e entrega, são dadas respostas a tantas situações...talvez por isso dói, acredito que dói… a ingratidão.

António Sousa Pereira

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