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Inferências

Por dentro dos dias – BarreiroUma Rede social pode ser um instrumento de relação humana positiva

Depois desta experiência…fiquei com esta certeza que, afinal, cada um encontra nas redes sociais o espelho da sua forma de estar na vida. Há quem cultive o ódio. Há quem cultive o amor. Cada um cultiva o que sente, são opções.

Por mim, continuarei a sorrir... sempre!

6 min de leitura
Por dentro dos dias – Barreiro Uma Rede social pode ser um instrumento de relação humana positiva

Por Jornal Rostos

Ao longo da minha vida, por três vezes, estive alguns dias hospitalizado. Esses dias ficaram sempre como uma marca e referência na forma de olhar e sentir os dias.

A primeira vez, devia ter os meus dez ou onze anos, na minha terra natal, estive cerca de 10 dias internado no Hospital Marquês de Pombal, era uma sala com cerca de uns quinze doentes, de diversas idades e eu, naqueles dias fui o mascote. É verdade, como fui lá parar.
Quando havia a Feira de Vila Real, no mês de Outubro, chegavam os carroceis, pistas de automóveis, então, a malta da Rua da Espanha e Rua Estreita, juntava-se para ajudar a montar os carroceis e pistas de automóveis. Este trabalho voluntário dava direito a que, durante os dias da feira, pudéssemos fruir de viagens gratuitas, saltar e subir para o carrocel em movimento. Uma festa dentro da feira. Uma vivência única.

No final de um dia de montagem do carrocel, estava todo sujo de óleo e para evitar que a minha avó se zangasse comigo, fui para a fábrica do Parodi, onde ela trabalhava para me lavar. O porteiro, cujo nome não recordo, ao ver-me todo sujo, disse-me que não me deixava entrar – “a tua avó vai ver com estás”.

Então, num momento que ele foi para a “casinha da guarda” resolvi pisgar-me por uma entrada lateral, uma zona onde descarregavam o carvão para as caldeiras de cozer o atum.
Só que, ao entrar e saltar, a placa de madeira de entrada estava em vão e lá dei uma cambalhota e torci o pé. Pronto estava o caldo entornado. Lá fui para ao Hospital e por lá fiquei internado.
As visitas só as tinha ao fim-de-semana, a minha avó, que recorde.
E, todas as noites, ou quase todas as noites, escutava, pelas 23 horas, aquele choro e clamor, quando a minha avó vinha do serão da fábrica e passava junto ao hospital, com a minha irmã Josefa.
Mal chegava, ali, pela zona do Café das «Janelas Verde», passando frente ao Hospital e até à zona da «Escola das Moças», lá escutava na distância, aproximando-se e distanciando-se aquele choro e clamor: “Eu quero o meu mano! Eu quero o meu mano”.
Ainda escuto, como se fosse hoje esse som a rasgar a minha memória. Uma ternura.

Depois, a segunda vez que estive internado, foi nos anos 80, no Hospital do Barreiro, fui transportado pelos bombeiros, em sequência de um incêndio na cozinha da minha residência, então, na Rua Grão Vasco.
Tudo muito rápido e controlado, mas o suficiente para ficar queimado nas pernas e ter que ser internado durante mais de dez dias.
Desses dias recordo as imensas visitas, dezenas de amigos que durante aquelas horas se deslocavam a dar-me um abraço ou um beijo. E amigos que trabalhavam no Hospital que, ao longo do dia, ali, se deslocavam para brincar e trazer um sorriso e abraço de amizade.

Este ano, no mês passado, estive sete dias no Hospital do Barreiro, dois dias nas Urgências e cinco dias em Medicina B.
As visitas eram exclusivas para a família, era uma alegria sentir chegar aquela hora, ao fim da tarde, e receber o carinho das minhas filhotas Rita, Marta, e o Neves, assim como pela hora de almoço, aquele carinho da minha Lurdes.
Sentir a presença de alguns amigos, trabalhadores do Hospital que com a sua presença davam-me alento e traziam-me uma palavra amiga e noticias do mundo lá fora e ali tão perto. Foi muito bom o carinho de Ana Teresa Xavier, ou a presença de Fátima Lourenço, Paulina Santos, assim como a Milena, a Paula Ortiz, ou outras presenças amigas que na hora da visita por ali passaram a dar-me um abraço e o apoio solidário, como Humberto Candeias ou Sofia Martins. E outros amigos que davam energia e conforto.

Mas, decidi escrever este texto, acima de tudo por uma razão, para agradecer o carinho, as muitas palavras de amizade que recebi através do facebook.
Algumas mensagens tocaram forte, tão forte que as lágrimas soltaram-se e brindaram o meu coração.
Nestes dias senti, afinal, como uma rede social, pode ser um instrumento de relação humana pela positiva, de estimulo, de solidariedade, afinal, são as nossas visitas hospitalares que tornam reais os tempos e os amigos virtuais.
Depois, aquelas mensagens que recebi de amigos mais próximos, aquelas mensagens privadas, marcadas de carinho – um registo especial daquela companhia diária da Gisa - seja com uma foto de uma árvore na Avenida da Praia ou um poema, ou uma palavra escrita por dentro dos nervos. Gestos que tocavam por dentro do silêncio e, digo-vos, todos os gestos que nos tocam por dentro do silêncio, ficam inscritos nas memórias do tempo que vivemos.

Reconheço que partilhar, certos momentos das nossas angústias e situações, não se trata de mais nada, apenas isso, o desejo de abrirmos os braços e recebermos uma energia partilhada, a força que precisamos para enfrentar os desafios e superar as nossas debilidades. Conforta.
Obrigado a todos que me deram um abraço e acreditem, só quando vivemos certas situações é que compreendemos que há razões que a razão não compreende e só se explicam pela emoção, essa energia que toca os nervos e faz sentir que a vida é mais que o material – há o sentimento que move e faz rasgar as penumbras dos dias.
Sei que as redes sociais, nem sempre são isto, ou são isto, mas, tudo depende que quem as usa, como as usa e o que pretende ao usar, por mim, uso e continuarei a usar como um espaço de partilha dos dias, de encontros e desencontros, porque acredito que a vida partilhada é mais viva e cheia de amor.
Depois desta experiência…fiquei com esta certeza que, afinal, cada um encontra nas redes sociais o espelho da sua forma de estar na vida. Há quem cultive o ódio. Há quem cultive o amor. Cada um cultiva o que sente, são opções.
Por mim, continuarei a sorrir... sempre!
Obrigado!

António Sousa Pereira

Foto - Adalgisa Martins

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