Por dentro dos diasEm Março de 1891 Fialho de Almeida esteve pelo Barreiro…e sentiu o Tejo!

Por Jornal Rostos
Faz hoje anos que faleceu Fialho de Almeida – 4 de Março de 1911 – e, pela manhã, quando saí de casa, peguei no livro «Os Gatos», para vasculhar nas suas páginas a crónica, ali publicada e dedicada ao Barreiro.
Após tomar o pequeno almoço na SFAL, decidi ir dar um passeio até à Avenida de Sapadores- Estação Fluvial, para, ali, sentado a olhar o rio e os Moinhos de Alburrica, ler a crónica «Manhã no Tejo», que Fialho de Almeida começou a escrever, naquele local, em 30 de Março de 1891.
Um texto expressivo, que nos permite imaginar a paisagem que dali se avistava na distância até ao Mar da Palha. Um texto marcado por percepções, cores e sons.
Enquanto lia e deliciava-me com o texto, algumas gotas de chuva rasgaram o cinzento da manhã e uma gaivota veio gritar aos meus ouvidos aquela frase-interrogação escrita por Fialho de Almeida: «Mas tu então não vês que é uma injustiça envelhecer?»
Parei de ler. Olhei os Moinhos de Alburrica e pensei que, eles, como gigantes de Cervantes, continuavam, hirtos, marcando a paisagem, hoje, como ontem, de um branco, feito de um branco de luz, rejuvenescidos nos tempos que fazem as nossa memória de sonhos.
Alburrica é uma paisagem feita de sonhos e ternura que toca os nervos.
“Não vês que eu nasci para ter asas, e que me sinto roubada de não poder servir-me delas?”, escreveu Fialho de Almeida, e, isto mesmo, gritava a gaivota a esvoaçar na distância que me separava do areal, na minha frente, o lugar, para onde me apetecia saltar e correr descalço, como quem pisa uma alcatifa de Liberdade!
Foi assim, que começou o meu dia de domingo, pela manhã, a ler e sentir na energia das palavras, neste tempo onde, de facto, parece que todos gostam de viver de percepções, de sentimentos e ignoram, ou parece que ignoram, que a vida é para sentir, sim, isso é belo, eu gosto das percepções, mas, acima de tudo a vida é para viver, e, para viver é preciso pensar, porque afinal, é no pensar a cidade que se encontra o caminho necessário para fazer cidade.
Acabei de ler o texto de Fialho de Almeida, e, lá fui olhar a paisagem. Fotografei.
O Barreiro é lindo, pensei. Já o sinto assim, há muitos anos, mesmo naqueles dias de poluição eu descobria uma beleza industrial única…feita de véus de noivas a rasgar os céus!
Uma pessoa que andava por ali, de longe comenta: “Olha quem é, só agora o reconheci”.
Cumprimentamo-nos. Ele falou que num passeio, que fez, ali, na Avenida de Sapadores e na Estação Fluvial, encheu um saco de garrafas de plástico e resíduos diversos.
“Ninguém liga a isto. Isso é que devia fotografar e não as fotografias ao longe onde se vê tudo bonito”, disse, irónico e critico, por ver que eu andava por ali a registar a paisagem.
Depois manifestou-se indignado por um vídeo recente publicado nas redes sociais – “é uma imagem de ilusão sobre o Barreiro” - e sobre a história do Terminal de Contentores do Barreiro, disse - “Isso chegou ao fim, já não vem nada para cá…”. Falava numa numa torrente de palavras e pensamentos.
Despedimo-nos. Olhei o Tejo, os moinhos e pensei nas palavras de Fialho de Almeida - «Mas tu então não vês que é uma injustiça envelhecer?»
Sorri e senti-me um jovem a sonhar futuro!
António Sousa Pereira
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