Por dentro dos dias – BarreiroEscutar, pela manhã, o cântico dos pássaros nestas árvores é uma delicia...
Ou penso como vivo, ou, afinal, decido mesmo viver como penso.

Por Jornal Rostos
Há uns anos aprendi, nos tempos da troika, dito por quem não sei, que há uma grande diferença entre passar os dias a viver como se pensa, e, o passar os dias a pensar como se vive. Uma diferença marcante.
Hoje, quando saí de casa pela manhã, a primeira percepção que tive foi como é lindo, pela manhã, não ter horas marcadas para ir a lado algum, não ter horários a cumprir, caminhar, distraidamente, e, de repente, parar debaixo de duas árvores para escutar a sinfonia matinal dos pássaros que trazem a natureza para o centro do meu bairro.
Escutar os chilrear é uma delícia, doce, suave, inspiradora, dá luz por dentro dos nervos.
Continuo a minha caminhada matinal. Há uma vizinha que abre a porta de um prédio, e, com os olhos voltados para dentro, cruza-se comigo e lá vai, discreta, falando sozinha. Livre.
Numa varanda, um chilrear de canários em gaiolas. Presos.
Dos lados da escola, os sons são outros, são as crianças em correria, chutos na bola, gritos, aquele som que marca o intervalo. Estas crianças que serão os homens, num tempo que, certamente, já andarei a navegar pelo silêncio da eternidade.
Um destes dias, dei comigo a pensar que uma criança, nascida naqueles anos, próximos de Abril, e, até, no 25 de Abril, são hoje a geração dos 40 e 50 anos, para todos eles, as memórias do tempo antes de Abril acontecer, são meras «estórias contadas».
Dou comigo a pensar nisto enquanto, de repente, duas pombas rasgam o azul deste dia de Abril com um sol brilhante a recordar que estamos na Primavera.
Ah, é verdade, hoje não vejo por aqui gaivotas que costumam deitar-se no lago de repuxos, junto à Piscina Municipal do Lavradio. Um espaço agradável. Ainda não há muito tempo, era um terra batida, que marcava de pó ou lama terreno frente à escola do ensino básico. É isso, só quem sente as mudanças na paisagem, sabe como há mudanças que transformam.
Parei na Farmácia Roldão. Agora um ritual, para leitura da tensão. Tudo normal.
E, lá fui comprar o jornal, a leitura de todas as manhãs, adoro percorrer as páginas do Público, porque, ali, todos os dias aprendemos a sentir e a olhar o mundo, e, aproveitei para meter o euromilhões, tentar a sorte, que nunca quis nada comigo ao longo da vida, mas, um homem não desiste, só não ganha quem desiste de tentar a sorte. O meu pai tentou a vida inteira e nunca conseguiu, mas isso, afinal, sei que o divertia, pois, todas as semanas repetia o seu sonho – “se me sair o totoloto, faço isto, faço aquilo…sonhava!".
Lá vou na minha caminhada matinal, dou comigo a pensar que foi naquela esquina da JJ.Fernandes com a Rua Cândido Manuel Pereira que ele, o meu pai, um dia pela manhã, caiu redondamente, vitima de um AVC. Depois foram anos que marcaram a memória, até, aquele dia que partiu e, ainda hoje, sinto o breve aperto dos seus dedos, ao fim da tarde no Hospital do Barreiro, que antecedeu o telefonema pela madrugada. É vida.
Já há alguns dias, vários mesmo, que não ia pela SFAL. A Cândida quando me viu entrar até se admirou: “Por aqui?!”, interrogou.
Depois, fui com a Lurdes, à Loja do Continente – a antiga Cooperativa – comprar um peixinho fresco para grelhar ao almoço.
Entrei e recordei tantas pessoas com quem lutei para erguer, ali, a nova loja da Cooperativa Pioneiros do Lavradio. Trabalho voluntário, Fazer. Amor.Paixão. Muitos já partiram. Foi a primeira vez na vida que assumi ser presidente de uma direcção. Um desafio que me foi colocado pelo Ti’Pinheiro.
Foi a minha casa, então na Rua Grão Vasco, lá estava eu encostado às boxes. Tinha saído, dias antes, do Hospital, onde estive em sequência de um incêndio na cozinha, que me queimou as pernas. Sentado, quase sem me poder mexer. Escutei o seu convite e aceitei o desafio.
A experiência do cooperativismo abriu-me horizontes únicos, na forma de pensar e sentir a vida no plano social e económico. Seria um mundo tão diferente.
Talvez, no futuro a cultura cooperativa possa vir a afirmar-se como uma proposta alternativa a um mundo que está cego pela força do capital financeiro e das armas.
Chego a casa. Sento-me a ler o jornal e dou comigo a pensar nesta caminhada.
Sorrio. Retenho instantes a ler, e reler, a intervenção de Macron, presidente da República Francesa, no Parlamento Europeu. Penso e fixo o conceito «ilibelarismo». Fico preocupado.
Penso, afinal, a minha vida será só e apenas aquilo que eu fizer em todo o tempo que tenho para viver. Ou penso como vivo, ou, afinal, decido mesmo viver como penso.
Até logo!
António Sousa Pereira













