A(nota)mentos - BarreiroHá uma grande diferença entre «muros ideológicos» e «confrontos ideológicos»
Porque, afinal, em politica não vale tudo e a democracia não se consolida com exclusões!

Por Jornal Rostos
Hoje li, com curiosidade, a intervenção de Emmanuel Macron, no Parlamento Europeu e, ao ler, os meus pensamentos, nomeadamente no sentir o seu alerta para os perigos do «fascínio do iliberalismo», repito, os meus pensamentos voavam por dentro dos discursos sobre «muros ideológicos».
“A resposta ao autoritarismo não deve passar por um outro autoritarismo democrático, mas pela autoridade da democracia”, comentou Macron.
A democracia não é uma ideologia, retive este pensamento, já lá vão uns anos, escrito por Virgilio Ferreira.
E neste deambular dou comigo a reflectir sobre ideologia. O mundo constrói-se com ideologias.
A democracia valoriza-se pela existência, pluralidade e diversidade ideológica.
O que por vezes me incomoda é que haja democratas, que até acredito são democratas, quando se trata de «impor» os seus conceitos, valores, o fazem de forma prepotente, sem qualquer diálogo institucional – usam a força da força, ou financeira, ou politica, ou das armas – eles são democratas, sem «muros ideológicos».
Mas, quando outros, sem força financeira, sem força politica, sem armas, lutam pelos seus valores e conceitos, esses, são anti democratas e estão fechados em muros ideológicos.
É que, de facto, há uma grande diferença entre «muros ideológicos» e «confrontos ideológicos», quando se misturam as coisas, está-se a cair, numa ideologia muito perigosa – a do populismo!
E como alguém dizia, populismos há muitos, de esquerda e de direita, populares e elitistas.
No fundo, as teorias dos «muros ideológicos» tocam a fronteira do «populismo» porque, afinal, o que se pretende é estimular uma interpretação do mundo, com base nas emoções e não pela sua análise racional, dando do mundo uma visão de bons e maus.
O «fascínio do iliberalismo» que Macron salienta é, essa realidade emergente na europa que se perspectiva e se afirma, sem dúvida, com o dito «autoritarismo democrático». Silenciando minorias. Sufocando a imprensa. Promovendo formas de fazer politica assentes em teorias de marketing que apenas visam a tomada do poder e eliminar tudo o que seja contra-poder de forma a manter o poder. A ideologia é ser poder.
O que importa é manter e criar bodes expiatórios. Alimentar permanente teorias da conspiração. Manter a cultura da cidadania num caldo de azia. Os bons não têm azia, têm expectativas. Os maus têm azia, estão fechados em «muros ideológicos».
O problema é que hoje esse iliberalismo emergente começa por calar e silenciar as ideologias – colocando muros, onde não há muros, há isso, e apenas isso, divergências no sentir e pensar o mundo. Confrontos ideológicos, que são o sal da democracia.
Amanhã, quando o iliberalismo calar os «muros ideológicos», que protestam e contestam o caminho único, outros serão calados e a democracia, no fim, será apenas - «um autoritarismo democrático».
É talvez, por tudo isto que sou europeísta, e, aqui, na minha Europa, vejo a esperança e a janela de oportunidade de continuar a existir no mundo uma realidade territorial que marca, pela diferença cultural, pelo respeito pelas diferenças, pelos valores da Liberdade e da Igualdade, pelo respeito pelos Direitos Humanos, pela democracia.
Macron tem razão, são precisas reformas na Europa, que travem o crescente aumento de populismo e iliberalismo, e, para isso é preciso mais democracia e mais cultura democrática, sem medo de ideologias e no respeito pelas diferenças ideológicas.
Os «muros ideológicos» são coisas do século XX. Estamos no século XXI e o mundo move-se noutras realidades globais muito diferentes, no contexto económico, politico e geo-estratégico.
Há dias, a propósito de «muros ideológicos», e já que estamos perto do 25 de Abril, eu, recordava, as palavras de Melo Antunes, no 25 de Novembro, sobre a democracia e as forças essenciais para a democracia.
Lembram-se, os que viveram os dias do PREC? É que todos os que vivemos os dias do PREC sabemos, e bem, o que são «muros ideológicos».
Eles, são de esquerda e de direita e ambos mataram, feriram e deixaram marcas no coração. Cada qual tem as suas marcas. Não vale a pena continuar a sangrar.
O importante é fazer democracia e travar o iliberalismo, o populismo, em Portugal e na Europa.
Porque, afinal, em politica não vale tudo e a democracia não se consolida com exclusões!
Obrigado, pelo alerta, Macron!
António Sousa Pereira













