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Inferências

Por dentro dos Dias – Barreiro/ PalmelaConversa no «Arestas de Vento», na Rádio Popular FM

A convite de Ricardo Cardoso e Céu Campos, estive ontem, pela manhã, numa conversa no programa «Arestas de Vento», na Rádio Popular FM, no Pinhal Novo, concelho de Palmela.

Falei do meu Barreiro. Terra dos meus filhos, como a terra onde aprendi a viver e a sentir o valor e o sabor da palavra liberdade. Antes e depois do 25 de Abril.

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Por dentro dos Dias – Barreiro/ Palmela Conversa no «Arestas de Vento», na Rádio Popular FM

Por Jornal Rostos

Um programa que se mantém há largas décadas, sendo um ponto de encontro para conversas, aos sábados, entre as 11h00 e as 14h00. Ali, em FM 90.9.
Aceitei o convite e lá fui, nada sabia sobre os temas da entrevista. Sabia que estava convidado enquanto Director do Jornal «Rostos».

E, lá abriram os microfones. Estava no ar, escutando para abrir Zeca Afonso –“…olha o sol que vai nascendo…”.
Depois começou a troca de ideias. Uma conversa agradável, nem se sentiu o tempo passar.
Falei do meu amor à Liberdade. Que para mim a Liberdade é inegociável. Que não troco o que sou, a minha liberdade de sentir e pensar o mundo por nada. Só quem não conhece o meu percurso de vida, pode achar o contrário. Mas eu sei, e há mais quem saiba, tudo o resto pouco me importa. Quando nos vestem roupas, bem “cozidas” ao corpo é difícil rasgar.
“Para mim a Liberdade é o motor da história”, já o escrevi à muito tempo, é, por isso que para mim Abril – “é um sonho chamado Liberdade”.

Na conversa com Ricardo Cardoso, dizia-lhe que mais que ser um «eu», ou um «nós», eu prefiro ser um «Tu», porque num «tu», eu sou um eu com outros «eus » e com o «nós».
E lá fomos durante cerca de duas horas, falando de democracia e liberdade, de Europa, do mundo.
Sou um inconformista e um europeista, disse-lhe, porque acredito que a Europa tem um importante papel no futuro da humanidade, promovendo a cultura das diferenças, o respeito pela liberdade religiosa e politica, pelos seus valores, mas, para isso precisa de travar ímpetos de «democracia autoritária», essa que cala as minorias, silencia a imprensa, e, tudo compra porque tudo tem um preço. A Europa tem que aprofundar a democracia e a cidadania.
“A Liberdade não tem preço”, recordei.

Falamos de jornalismo, do mundo on line, das edições impressas, das condições para fazer jornalismo numa região com um tecido económico de pequenas e médias empresas que tem dificuldades e contribuir para que exista uma imprensa regional com energia e autonomia.
“É difícil fazer jornalismo”, comentei. Só mesmo por amor, por paixão e porque vivemos fazendo aquilo que se gosta e dá gozo, aquele gozo interior que nos realiza e que nenhum dinheiro do mundo paga. Ser que vale mais, muito mais que parecer.
“Isto não é negociável, disse-lhe.

E, a conversa é como as cerejas e veio à baila o ter tido um processo de expulsão do PCP, por delito de opinião e donde sai rumo à vida e senti na pele as consequências. Resisti. Sonhei.
Referi, igualmente que estou inscrito no PS, há mais de década e meia, mas, não tenho actividade militante.
Estou e tento provar, a mim mesmo, que em Portugal, nestes mais de quarenta anos após Abril, é possível fazer jornalismo e ter partido. Mantendo a distância e a independência, sem ser acusado que está sendo um traidor aos seus valores, porque, afinal, a liberdade do jornalismo reside no respeito pelas diferenças. Olhar e viver o pulsar das comunidades.

Conversámos sobre o Barreiro, que referi e refiro como tendo tido três patrões – o ferroviário, a CUF e o «construtor civil». Hoje não tem patrões. os «grandes patrões» são quase e apenas as entidades do Estado – hospital, autarquias, escolas, tribunal e depois IPSS’s, que dependem do estado.
Uma terra que tem como primeira prioridade a resolver sair do gueto, desenvolver a sua mobilidade – a ponte de ligação ao Seixal – e investir na sua requalificação para valorizar a sua qualidade de vida – rede de esgotos, rede de águas, espaços urbanos e revitalização do seu edificado.
Estas são as prioridades para fixar pessoas – jovens e não jovens, porque uma cidade faz-se de gerações e os jovens de hoje serão os velhos de amanhã.

Falei do meu Barreiro. Terra dos meus filhos, como a terra onde aprendi a viver e a sentir o valor e o sabor da palavra liberdade. Antes e depois do 25 de Abril.

Lamentei que o PS, após conquistar a autarquia, não tenha feito todos os esforços para levar até ao limite a negociação de pelouros a todas as forças politicas, que sempre disse em campanha eleitoral que iria concretizar, dando continuidade a essa dinâmica cultural autárquica, que existe desde a Comissão Administrativa.

Manifestei a minha indignação, por essa «corrente de pensar e sentir o Barreiro», onde parece que só existem uns maus de «muros ideológicos» que atrasaram e atrasam a vida e o desenvolvimento e depois, existem os outros, todos, que são os bons.
Fazer dos comunistas os culpados de todos os males do Barreiro é, afinal, não respeitar a memória de muitos homens e mulheres – como dizem alguns meus amigos do PS e PSD, o meu avô foi comunista - que lutaram pela democracia, é não ter a ousadia de olhar a cidade, com olhos de ver, e sentir que muito mudou, mesmo muito…
Isto não significa, acrescentei que concorde com tudo e que subscreva tudo, mas, apenas e isso, defender que uma cidade é de todos e todos pode contribuir para o seu crescimento e desenvolvimento.

Enfim, foi uma conversa, aqui, recordei de memória, que vou guardar, porque, foi daquelas conversas abertas, sem limites, onde expressei sentimentos e partilhei emoções, em Liberdade.
Obrigado ao Ricardo Cardoso e a Céu Campos, pelo convite e pelo momento agradável que partilhei com a vossa grande simpatia. Eles, afinal, são dois grandes resilientes e amantes do comunicar e fazer cultura...em Liberdade!

António Sousa Pereira

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