Por dentro dos dias – BarreiroOs veteranos do jornalismo no Distrito de Setúbal

Por Jornal Rostos
Ontem à tarde, estive em Palmela, na apresentação do livro de Fátima Brinca, jornalista da imprensa regional, essa imprensa que contribui para dar voz à região, mas que, de facto, muitas vezes é desvalorizada e considerada um subproduto do jornalismo.
A Fátima Brinca, ontem, de forma inesperada, fez-me viajar no tempo e mergulhar por instantes perdidos na memória. Conhecemo-nos no jornal «O Setubalense», naqueles dias após o 25 de Abril, quando integrei a redacção do jornal, mas, na verdade, eu já por lá escrevia, com a função de «Correspondente do Barreiro», desde 1973.
De repente, a Fátima deu-lhe para recordar esses tempos – “somos os dois resistentes do jornal «O Setubalense», todos os outros já partiram”.
E, com estas suas palavras, revivi em catadupa, aqueles tempos, que viajava diariamente de comboio do Lavradio até à Praça do Quebedo, para exercer a minha actividade de redactor no tri-semanário «O Setubalense», mais antigo título do Distrito de Setúbal. Como eu adorava Setúbal. Ali conheci e entrevistei como presidentes da Câmara Municipal de Setúbal – Orlando Curto e Francisco Lobo.
Percorri os bairros em conversas com Comissões de Moradores, clubes e colectividades. Do Viso à Palhavã, das Fontainhas ao Faralhão. Conheci homens bons, dedicados de forma apaixonada a fazer e viver cidadania.
Uma cidade que pulsava por dentro do Sado – aquele rio azul –com os pescadores, ou sentia-se no quotidiano dos Mercados, as gentes do campo, que se misturavam com a ganga dos operários.
As conversas no Café Central, com os actores do TAS. Uma cidade que pulsava noticia. As visitas à livraria, que já nem recordo o nome, ali, bem dentro da Praça do Bocage. O porteiro da Câmara, que escrevia lindos poemas, principalmente destinados a fados. E editou um livro, recordo de capa branca, e, sobre esse livro publiquei um trabalho biográfico, onde espelhei a beleza da sua vida.
Foram dias que vivi, por dentro a vida de Setúbal, de forma apaixonada, retratando o quotidiano numa rubrica que criei – Quotidiano na Cidade.
É verdade Fátima, já lá vão quase 45 anos. De repente fiquei a pensar que foi ali, em Setúbal, onde ganhei o meu primeiro vencimento de jornalista, naqueles dias que nós vivíamos o fecho da redacção com entusiasmo e, que, por vezes, à última hora existia um «buraco» para fechar e lá tínhamos que pegar na caneta e papel e redigir alguma noticia para fechar aquele espaço. As linotipes não podiam estar à espera paradas e a impressora tinha hora para arrancar –lá fora a cidade esperava o jornal. O cheiro a papel e o cheiro a tintas em espaços diferentes, faziam o todo de uma equipa que vivia solidária.
Foi ali, na redacção de «O Setubalense» que comecei a fumar de cachimbo. O cigarro, por vezes, era uma muleta. Apagavam-se uns atrás dos outros, em cinza que caía na secretária. Um dia decidi comprar um cachimbo que, tornou-se, a minha companhia, enquanto escrevia os textos nas laudas de papel.
Pensava em tudo isto, enquanto tu, Fátima, tecias considerações sobre a resiliência, o fazer jornalismo por paixão e gostar de fazer o que se faz – “Somos amigos de longa data”, dizias. Sim, somos.
E, até somos, o que resta de uma geração que viveu o jornalismo regional, aqui, neste distrito, no antes e depois do 25 de Abril.
“Afinal, somos os dois únicos veteranos, a caminhar para os 50 anos de jornalismo na região”, pensava.
Gostei de estar contigo, fiz questão de estar contigo.
Já li o teu livro, fartei-me de rir com alguns episódios. Um livro que é um testemunho de vida. Viver , sonhando e lutando. Acreditando. Superando. Um livro de estórias e memórias. Um retrato de uma caramela – com muito gosto em ser - que um dia descobriu a cidade, a fábrica, e, por fim descobriu na palavra uma razão para viver. Lutou e viveu fazendo o que gosta. Isso, afinal, quando é jornalismo é difícil, mas é lindo.
E, sabes, eles não sabem como é lindo fazer jornalismo por amor. Era mesmo assim, apaixonadamente, naqueles anos após Abril.
Isso, na verdade, fica por dentro dos nervos e se inscreve como forma de estar e fazer a vida.
Parabéns.
António Sousa Pereira













