Inferências - BarreiroPoder Local – Democratizar e Desenvolver

Por Jornal Rostos
No dia 25 de Abril, enquanto aguardava o içar da bandeira, ali, nos Paços do Concelho, a Lina veio ter comigo e beijou-me, dei-lhe um grande abraço e ao ouvido murmurei : “Este é para ele”.
Há quem festeje o 25 de Abril com alegria, mas, de facto, também há quem festeje esta data por meras razões institucionais. Lá tem que ser. Nesta margem sul, lá tem que ser, porque, aqui, nesta margem sul, o 25 de Abril nasceu nas lágrimas dos avós, dos pais, nos muitos anos em que a política se fazia e sentia no viver e afirmar valores, uma opção que, por vezes, sentia-se na pele enfrentando retaliações – despedimentos, perseguições ou prisões.
Foram gerações que se ergueram em actos que de resistência, resiliência, bravura, que se inscreveram na história - de bandeiras vermelhas nas chaminés, de Padres rotulados de comunistas, de eleições que mesmo sendo fraudulentas, aqui, no Barreiro, a oposição ganhava nas urnas ao regime.
E, na verdade, esta história não se reescreve, é uma história feita de luta pela Liberdade.
É uma história que explodiu em festa ali, nesse dia 25 de Abril, um dia onde a palavra amor à vida se cantou num voo de uma gaivota, porque, afinal, “vejam bem que não só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar”.
É nisto tudo que, por vezes, penso quando assisto a certas discussões politicas que fazem a nossa vida quotidiana neste século XXI.
Eu sou um defensor do Poder Local tal como está consagrado, porque, tenho a percepção que a nossa democracia sem este Poder Local, estaria mais empobrecida, e, na verdade, de certeza que nós não tínhamos dado grandes passos no «D» de desenvolvimento do programa do MFA, nem no «D» de democracia, na consolidação da pluralidade.
Basta olhar para o estado, do Estado!
Foi através do Poder Local que melhorou a qualidade de vida em muitos bairros, vilas e cidades.
Foi «D» de Desenvolvimento que, aqui no Barreiro, fez que muitas ruas onde só havia lama e não existiam passeios, fossem alcatroadas e renovadas,
Ainda hoje, 45 anos após o 25 de Abril, assistimos a obras dessa natureza de recuperação de espaços públicos, onde muitas crianças cresceram a brincar na lama e no pó, dou só o exemplo do Bairro dos Blocos, ali, no Alto do Seixalinho.
As melhorias no abastecimento público de água, havia zonas no concelho, onde não existia e outras, onde, a pressão não permitia tomar banho ao fim do dia, e, pelo que sei, ainda há zonas do concelho com estes problemas.
E as redes de esgotos. E a recolha dos resíduos urbanos. Ainda recordo as lixeiras a céu aberto em Coina.
E os jardins, ou espaços verdes que eram quase inexistentes.
Foi o desenvolvimento de projectos culturais - Camerata Musical do Barreiro, Arte Viva, Escola de Jazz, Banda Municipal do Barreiro. Espectáculos no âmbito do Arteemrede. E programas desportivos.
Há muitos erros. Há muito a aperfeiçoar. Mas valeu a pena este caminho percorrido.
Meu pensamento percorre o tempo e viajo com os meus olhos pelas ruas. Recordo como era a Avenida dos Fuzileiros, aquelas curvas e contra curvas até chegar à Quinta da Lomba.
Recordo o que era Alburrica. Recordo o que era a zona do Polis, ou o Parque da Cidade.
Recordo o que eram as azinhagas, onde se ia a pé, naquela zona onde é hoje o Hospital do Barreiro e que nem existiam acessos a Santo André.
Recordo o que era a Biblioteca Municipal e, de facto, aquilo que é hoje ( esse meu recanto de exilio profissional durante cinco anos). O Auditório Municipal Augusto Cabrita. O Pavilhão Municipal Luís de Carvalho ( que não era destinado a este fim, mas sim parte integrante do Programa destinado a acabar com as barracas, que existiam espalhadas por vários pontos do concelho, e, agora, parece que estão de novo a ressurgir…).
Recordo as muitas escolas que foram renovadas, recordo como o Barreiro, só para quem não quer ver, não é nada do que era nem há quarenta, nem há vinte anos, nem sequer há dez anos.
O Barreiro esta terra que sofreu um processo de desindustrialização que afectou todo o seu tecido económico, o seu comércio tradicional, os seus mercados municipais, as suas vivências associativas, porque o Barreiro para além da sua matriz dormitório, sempre teve vida própria, porque tina vida própria e criatividade nas suas gentes . no teatro, na música, nas artes.
O Barreiro sentiu na pele e continua a sentir na pele a perda de milhares de postos de trabalho na fábrica no sector ferroviário, e, naturalmente, muitos postos indirectos fruto dessa decadência – a desindustrialização.
O Barreiro que deve muito aos seus transportes públicos - TCB - de não ter batido mais no fundo, porque essa sua capacidade de manter a mobilidade e a acessibilidade a Lisboa, contribuiu para fixar e ir atraindo novos habitantes, mesmo perdendo população, tal como o país perdeu população. Uma riqueza única que tem custado ao orçamento municipal alguns milhões, que, certamente, davam para fazer piscinas ou outros investimentos.
É por isso que, mesmo achando que podiam, em certas circunstâncias ter existido outras opções, quando se afirma que isto agora é que vai mudar, entristece-me, não porque não deseje a mudança, mas porque a mudança será sempre um caminho doloroso, que não se concretiza num mandato autárquico, enquanto não o Barreiro não tiver do Poder Central um olhar atento e, esse, dê o justo contributo para que o Barreiro receba o justo pagamento daquilo que durante mais de um século deu ao país e sofreu por isso – a poluição e desindustrialização.
Não se trata de apontar o dedo aos outros e nós não fazermos nada, trata-se do nada que os outros não fazem o que deviam ter feito para nos ajudar a superar um processo de desindustrialização que já vinha anunciado antes de Abril acontecer…
O Barreiro precisa ver resolvido o problema das suas acessibilidades, sair do gueto, ter uma ponte para o Seixal que lhe dava mais massa critica, ter apoios para potenciar a sua centralidade na Península com a implementação de uma zona logística em Coina, a reconversão dos territórios da Baía do Tejo, com projectos estruturantes e de futuro.
O apoio em investimentos de revitalização de todo o seu casco urbano – não é só o Barreiro Velho – é todo o Alto do Seixalinho, Quinta da Lomba, Lavradio, Coina, Palhais, Santo António. Este é um concelho que carece de investimentos na rede de águas e saneamento.
Um concelho que tem um Parque Desportivo, como o do Fabril, que devia ser olhado como um ponto de referência municipal e, de facto, é olhado como um espaço privado de um clube. Um espaço único que é uma pérola.
Um concelho que tem associações centenárias, com edifícios de referência no âmbito da arquitectura, como é o caso da SIRB «Os Penicheiros» e não existe um programa de recuperação, sentindo cada um destes edifícios como um «largo da terra» ao serviço da comunidade.
Um concelho que tem um património ferroviário que, em qualquer país desta europa, já tinha sido olhado com outros olhos de olhar. Querem culpar a Câmara que andou anos e anos com orçamentos inflacionados, quase sem dinheiro para mandar cantar um cego, em gestões CDU e PS, que só começou a ter orçamentos minimamente equilibrados no pós- troika, e, mesmo assim, com uma capacidade de investimento mínima, pois, sempre que quer recorrer a fundos europeus tem que avaliar, previamente, até onde pode ir a sua capacidade de endividamento, seja, lá quem for que esteja à frente dos destinos da autarquia, tem este dilema.
Um concelho que pelos vistos no discurso da politica nos tempos de hoje, prefere passar os dias em permanente campanha eleitoral, mas não discute estratégia, não perspectiva uma visão de cidade, não aponta futuro, sente-se bem, num discussão politica, marcada pela desordem, desconexão, busca de culpados ou apologia de salvadores.
Um concelho que continua a navegar à vista, com base na estratégia de um PDM superado pelo tempo, e, sem estratégia de cidade.
Tudo assenta no avulso, fruto de medidas criticadas – como a compra da Braamcamp, e agora, híper valorizados como a galinha de ovos de ouro do turismo.
A discussão politica neste século XXI cada vez mais não parece ser parte da solução mas sim parte do problema, porque é uma discussão que, cada vez mais, na verdade. não se sabe onde começa a vida municipal, que é de todos na gestão da polis, ou, onde começa a guerrilha partidária. Este é um tempo onde a cidadania se confunde com partidocracia, e a municipalização da vida local atinge parâmetros, que sempre existiram, mas agora, parece que temos que viver em permanente conflito eleitoral.
É, por isso que fico feliz ouvir dizer, que o actual executivo, até, afirma que está a fazer coisas aproveitado o bom que vem de trás – no caso em relação às AUGI’s – mas também já o tem dito em relação a outras coisas. Isso é bom e registo. Afinal alguma coisa de boa vem de trás…é que por vezes já tenho medo de comentar que, no passado recente, tenha sido, ou que foi feita alguma coisa boa no Barreiro, sob pena de ser logo acusado de estar com azia, ou de ser um comunista tenebroso.
E, já agora que estou a escrever este desabafo e, até, muito contido, sem desprimor para outros Presidentes de Câmara, recordo que Emídio Xavier, sonhou muito alto, mas sonhou, até pensou no turismo e Ministérios no território da Baía do Tejo; ou Pedro Canário que sonhou campos de ténis em Coina e um concelho que iria potenciar-se com a implantação da Autoeuropa. Helder Madeira viveu os tempos mais voluntariosos e apaixonados do Poder Local, sem dinheiro, sem recursos humanos. Era um tempo de sobrevivência e luta, que a prioridade era enterrar dinheiro nas ruas, na água e nos esgotos, nos carros de lixo.
Isto, para comentar que Carlos Humberto, foi o presidente de Câmara que colocou o Barreiro na agenda do Poder Central, um trabalho único, que obrigou os governos PS e PSD a olhar para o Barreiro e a sentir que as suas imensas potencialidades não só servem o Barreiro, como servem a região e servem o país.
Digam o que disserem – nem sou da sua opção politica – foi o presidente da Câmara Municipal do Barreiro, após o 25 de Abril, que colocou os governos PSD/CDS e PS, a pensar a margem sul e o Barreiro, em particular.
Nós barreirenses temos para com ele esta divida de gratidão. Tudo o resto é politiquice. Ele do seu mandato deixou uma agenda, para a zona ribeirinha, para o território da Baía do Tejo, e , muitas ideias que felizmente vou vendo avançar e muito bem.
Já agora, dizer, que a actual administração da Baía do Tejo tem feito um trabalho excelente.
Era só esta nota que queria, aqui deixar, porque hoje é domingo e, na verdade, apetece-me partilhar, estes comentários que emergem por dentro dos nervos.
Nas últimas eleições existiram muitos votos que foram, naturalmente, uma resposta à onda criada nas redes sociais de «varrer os comunistas» acusados de destruir o Barreiro nos últimos quarenta anos. Uma cidade feita de maus os comunistas e qualquer um que tenha a ousadia de lhes dar um pouco que seja, mínimo de valorização do trabalho que fizeram por esta terra.
Essa onda continua, basta ouvir o discurso politico dos novos tempos.
Por exemplo, tenho pena, muita pena que, contrariamente ao que sempre foi dito, o saber acumulado de autarcas da CDU não esteja ao serviço do quotidiano da vida municipal, com a atribuição de pelouros, isto, até, os responsabilizava na gestão autárquica.
Ou então, de facto, de uma vez por todas acabem com isto da multiculturalidade das Câmaras, fazem do Poder Local, um parlamentarismo, com os executivos a ser eleitos nas Assembleia Municipais.
O municipalismo ficará mais empobrecido, mas, pronto, de uma vez por todas, transfere-se o modelo da vida nacional para a vida local.
Um dia, quando a história for feita, talvez percebam como este Poder Local, de gestão colegial, contemplado na Constituição de Abril, foi um dos melhores e mais válidos instrumentos para consolidar dois dos três «Dês» do Programa do MFA – Democratizar e Desenvolver.
António Sousa Pereira













