Por dentro dos dias – BarreiroSomos um povo que sabe… acima de tudo, aguentar, aguentar...
Portanto, primeiro vão os comunistas, depois os socialistas, até, talvez mesmo depois os católicos de pensamento franciscano – do Papa que temos – e por fim reinará a paz e a serenidade do pensamento único, do silenciamento, do medo…

Por Jornal Rostos
Um destes dias fui à Agência da Caixa Geral de Depósitos, no Barreiro. Cheguei eram 11h30. Tirei a minha senha para ser atendido. Aguardei. Esperei. Saí cerca as 14h45.
Reparei que, apesar de por ali, na zona de entrada existir espaço suficiente onde podiam ser colocados uns bancos, quem estava à espera, aguentava em pé, ou sentava-se pelo chão, na escada junto à porta de entrada. Os cinco ou lugares que existem num recanto, eram, na verdade insuficientes.
Por fim, já cansado de estar em pé, que os anos não perdoam, lá descobri na zona dos clientes «Caixa Azul», uns lindos sofás, onde sentei-me, e, calmamente, aguardei até chegar a minha vez, tendo que, naturalmente, de quando em quando, estar atento ao toque da passagem dos números, levantar-me e verificar quantos faltavam…por fim chegou a minha vez...até que enfim!
Resolvi as coisas que tinha para tratar. Reparei na lufa a lufa dos funcionários. Um vem de almoço. Outro vai para almoço. Espaços de atendimento existiam, mas vazios, sem alguém que pudesse acudir ao fluxo de clientes, que, por ali, pacientemente esperavam e desesperavam, em silêncio, sem protesto. Aguentando. É isso, eles sabem, nós somos um povo que sabe… acima de tudo, aguentar, aguentar...
Saí. E como estava atrasado já para outros compromissos. Fui almoçar ao Fórum Barreiro. Comi bem e de forma saudável. Uma canja apetitosa. Um arroz doce delicioso. Aquele espaço de restauração está muito bem enquadrado, é um ambiente cosmopolita, para todos os gostos e para todas as idades.
Está-se bem por ali e, na verdade, até encontrei rostos amigos que não via já há algum tempo. Gostei. Até porque não tenho o hábito de frequentar aquele espaço de restauração, apesar de ir com frequência ao Forum Barreiro, e, por ali, beber o meu café, visitar a Livraria Bertrand, dar um salto à Galeria de Artes, por vezes, até sentar-me a ler, nos sofás, naquele recanto no 1º piso. Gostava de ir mais vezes ao cinema, se a programação, uma vez por outra, agendasse uns filmes, daqueles que só vão para o Forum Montijo ou ao Alegro Setúbal. Aqui devem achar que não há público para certos filmes.
Outra coisa, ontem à noite, fui assistir a um debate, promovido pelos socialistas do Barreiro, com o tema – “O futuro do socialismo democrático na Europa”.
Falou-se da decadência dos partidos socialistas que sofrem grandes perdas eleitorais, do aumento do populismo, da desconfiança das classes médias. Do avanço do liberalismo e do neo-liberalismo. E foi referenciado o caso português da gerigonça como um exemplo, hoje, citado e comentado por toda a europa. Um caso de sucesso politico .
E, no decorrer do debate, foi recordado que, em França, noutros tempos, nos anos 70, existiu o programa Comum, entre o Partido Socialista Francês e o Partido Comunista Francês. Num tempo, ainda, de guerra fria. Um tempo em que por Itália existia o Berlinguer.
Nesses tempos, os socialistas franceses, não percebiam, porque em Portugal, no pós 25 de Abril, o PS não se entendia com o PCP.
E ao recordar este acordo PSF/PCF, recordei aqueles comentários políticos da época que referiam que estava a ser dado pelo PSF o «abraço de urso» ao PCF.
De facto, foi o que acabou por se registar o PCF, que era um dos mais fortes partidos comunistas da europa, depois, deste programa comum, foi reduzindo a sua força politica, a sua influência parlamentar, e, até, na sua capacidade de influenciar a eleição do Presidente da República.
Mas, depois, esta é que é a realidade, o PSF, que se sentiu livre e àvontade, com direito a copiar as politicas de direita, pois deixou de ter aquela força que lhe abria os olhos, seguiu esse caminho e, depois, sim depois, foi aquilo que se viu…hoje, perdeu toda a sua base eleitoral. Coisas parecidas registaram-se por Itália, na Grécia, só para referir situações mais dramáticas.
É assim como quem diz, primeiro tira-se a credibilidade e a força aos comunistas, com a ajuda e serenidade dos socialistas, depois, lá chegará a vez dos socialistas perderão a credibilidade com o crescimento dos populismos – sem valores, sem ideias, ou apenas com a ideia central de ser poder. E, para chegar ao poder vale tudo, ou pode valor tudo, é uma questão de contexto, é uma questão de ir ao encontro da percepção, aquilo que cai bem, o que se diz na rua…é sempre o certo!
Portanto, primeiro vão os comunistas, depois os socialistas, até, talvez mesmo depois os católicos de pensamento franciscano – do Papa que temos – e por fim reinará a paz e a serenidade do pensamento único, do silenciamento, do medo…
Pois, é isso, basta pensar Polónia. Basta pensar Hungria.
Por isso há, mesmo, quem diga que, por vezes, parece que a história se repete, talvez sim, ou talvez não, porque a história nunca recua, apenas aperfeiçoa métodos e formas de calar, comprar, silenciar - a eterna luta é, de facto, aquela que a faz andar e mover, a luta pela Liberdade, o respeito pelas diferenças, a afirmação de valores inscritos nas lutas por um mundo melhor.
É por isso que haverá sempre, como dizia a poetisa, alguém que diz: Não! Porque a Liberdade não tem preço.
E, eu, tenho um grande defeito, sou da geração que viveu asfixiada, um dia aprendi a respirar. Não me deslumbrei, apenas continuei a ser um sonhador.
E agora, já é tarde, muito tarde, e nunca vou deixar de sonhar. Cansei-me de bons e maus. De misseis bons e misseis maus, da Guerra Fria… enfim, por aqui fico, nesta noite de Maio que enquanto escrevo, escuto: navegar, navegar…ir ao fundo e voltar!
António Sousa Pereira













