Por dentro dos dias - BarreiroÉ, isso, mesmo isso, há muito por fazer…

Por Jornal Rostos
Nós com a idade dizemos que vamos aprendendo, mas, a verdade é que por muito que se aprenda, continuaremos sempre a aprender. Às vezes, nessa aprendizagem da vida, até costumamos dizer que sentimos a história a repetir-se. Mudam as circunstâncias, mas, na verdade, voltam os mesmos contextos narrativos.
Uma das coisas mais importante que cada um de nós deve colocar neste tempo que vive é, afinal, realizar-se no tempo que vive, realizando o que sente interiormente no seu estar e ser.
Construir um projecto de vida, começa por sermos capazes de saber o que queremos fazer do tempo que vivemos e somos.
Podemos até ter um projecto, convicções, objectivos, mas, depois existe a vida real, essa que tudo transforma, mexe e remexe. Existem as circunstâncias. Existimos nós e os outros. A época que nos forja.
Conhecer as dificuldades que se colocam no caminho é, afinal, ter a consciência da temporalidade, dos avanços e recuos que se colocam para atingirmos o rumo, caminhar, e atingir as metas.E depois, é preciso saber esperar, nunca desistir. Ser resiliente. Estar vivo, com a nobreza de quem sabe estar de cabeça erguida. Sorrindo.
Sempre que estamos conscientes do que somos, do que fomos, do que fazemos, das dificuldades, das insuficiências, das limitações, então, sabemos qual o nosso lugar no mundo e na vida. Estamos tranquilos.
Não precisamos de nos comparar com ninguém, não precisamos de nos preocupar com os outros. Não precisamos de dizer que somos melhores, que somos dos que fazemos e os outros são dos que falam. O autoelogio é a melhor forma de demonstrarmos que estamos com medo de nós mesmos. E que, afinal, temos medo da própria sombra.
Ter confiança é acreditar no nosso projecto, na sua importância no tempo que somos.
Ter confiança é sabermos que somos pequeninos, com limitações, mas damos o melhor de nós mesmos para fazer mundo e construir mundo.
Ter confiança é ter gratidão para com aqueles que nos ajudaram a rasgar caminhos.
Ter confiança é não temer de dar o seu a seu dono.
Ter confiança é ser reconhecido pelo que recebemos daqueles que nos antecederam e ter força e energia para dar passos em frente, fazendo mais e se possível melhor . Isso é crescer.
Freud, explica isso!
Mas isto, esta energia enorme forja-se numa vida vivida com paixão e paixões. Com o dar e receber. Com descobertas e desocultações. Com aprendizagens. Amando.
Essa energia que tem dentro de si o sangue do voluntariado, de quem viveu amando, de quem viveu a paixão pelo que se faz, o amor à vida, o viver fazendo o que se gosta com um sorriso que enche os dias e até o luar.
É isto que quem combate a Liberdade não percebe. Porque ignora o que é viver amando a vida.
Porque ignora o que é fazer e sentir os dias com uma dimensão hedonista.
Porque ignora que ser feliz não é ter dinheiro ou poder, ser submisso, ou, até, ser alguém que acha,por ser poder, pode esmagar o outro, porque, afinal, vive essa forma de pensar e sentir – quem não está por mim está contra mim.
E, pela experiência vivida, isso, o tempo passa e, no fim, o tempo tudo resolve.
É tudo isso que quem combate a Liberdade, não compreende, nunca irá compreender.
Quem combate a Liberdade, ou é porque teme a Liberdade, ou, então, é alguém que tem uma postura narcisista e egocentrista, e,portanto, considera-se o centro do mundo e o grande exemplo para o mundo. É alguém que quer ser o espelho do mundo ou o rei sol. O absolutismo da sapiência.
Estou a escrever este texto, levado por reflexões que me ocorreram ontem, esvoaçando pela minha mente, quando Acácio Coelho, Comandante dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste, comentava que, hoje, já se sente uma cultura de protecção civil nas escolas do concelho do Barreiro.
E sinto isso, sempre que passo ali, na Escola do meu Bairro, na Urbanização dos Loios, com os pontos de encontro bem definidos, para uma situação de necessidade de evacuação da escola.
E, digo-vos, quando olho para aquelas placas sinto que está ali um pouco de mim, quando, após cinco anos de prateleira, fui convidado pelo Carlos Mauricio para assumir funções na Protecção Civil.
Foi nesse tempo que teve inicio um trabalho que, depois, teve sempre continuidade de realizar planos de emergência nas escolas do ensino básico. Um projecto que me apaixonou, que vivi de forma intensa e contribuiu para me dar, a mim mesmo, dignidade e recuperar a paixão pela vida e por viver os dias, que estavam sendo esmagados nos corredores do silêncio quotidiano.
E, se hoje se comemora o Dia Municipal do Bombeiro, também fui, enquanto funcionário do serviço que apresentei a proposta, levada a reunião de Câmara pelo Vereador Carlos Mauricio.
E aqueles dias que vivi a lançar as bases de um projecto de intervenção na Mata da Machada, deslocar-me a Moura, a entregar candidaturas para a limpeza de aceiros e caminhos, a primeira vez que a Câmara Municipal do Barreiro, aceitou assumir estas intervenções na Mata da Machada. Agir pela prevenção.
E a candidatura que elaborei para as Motos, destinadas a garantir a vigilância nas Mata da Machada, hoje, utilizadas pelos Bombeiros de Salvação Pública.
Um trabalho que me apaixonou e que estreitou os laços de cooperação entre as duas corporações de Bombeiros, os serviços de saúde e a Câmara Municipal, principalmente, na conceptualização do Plano Municipal de Emergência.
Tantas horas de discussão, Diálogos. Falar e fazer.
Muito trabalho realizado que, pelo que fui escutando e vou sabendo, tem tido continuidade ao longo dos anos. Um trabalho muito positivo e, por vezes, pioneiro. Ignorado. Sem visibilidade.
É isso que apaixona a vida. É isso que nos faz olhar para trás e sentirmos o que fazer, o que é gente que faz…porque, de facto, não basta falar, é preciso falar e fazer.
Eu estive com gente que fez, gente que deixou um legado, mesmo em tempos difíceis, aqueles dos orçamentos inflacionados. É que o mundo não começa agora, o mundo tem memória e história.
Ocorreu-me tudo isto, em catadupa, porque as ideias e as conversas são como as cerejas e são mais vivas quando nascem da vida com substancia, realidade concreta feita e vivida.
No meio de tudo isto, até me ocorreu quando com o João Pinatassilgo, num trabalho de equipa que envolveu diversos serviços, realizaram -se mo concelho do Barreiro as Jornadas de Protecção no Lar e outras iniciativas, situações que vivi, de forma intensa, nomeadamente aqueles dias de elaboração do Plano de Emergência Externo da Quimiparque, trabalho liderado pelo saudoso Encarnação Coelho. Um projecto pioneiro em Portugal, que foi o pontapé de saída para se falar no país em cultura de Protecção Civil. O Barreiro e assim, desbrava os caminhos e depois encolhe-se.
Era tudo isto que pensava. O muito que foi feito. O muito que está feito. O muito que está por fazer e há tanto por fazer. Enquanto uma corporação de bombeiros para ter um quartel destinado a prestar serviço à comunidade, tiver que manter a preocupação de garantir a liquidação do seu empréstimo de 3000 euros/mensais. É, isso, é mesmo isso, há sempre muito por fazer…
De facto, uma coisa é certa, por muito que se fale e que se diga que se faz, haverá sempre muito por fazer, que se diga que outros falaram e que há quem faça, não há necessidade. Esta é uma área para unir vontades e não para separar.
Os acidentes acontecem e quando acontecem, sejam causas naturais ou causas tecnológicas, hoje, até sociológicas, não escolhem os afectados pelas suas opções de voto ou religiosas.
Se há campo de acção politica que deve estar acima das guerrilhas de pacotilha que são as guerrilhas da vida politica esta é uma delas a protecção civil.
E, há tanto, mesmo tanto, por fazer e melhorar na promoção de uma cultura de protecção civil, num concelho onde estão instaladas indústrias SEVESO.
Gostei de mergulhar nas memórias, mas o mais importante é pensar e fazer futuro.
É isso que nos move..fazer futuro!
António Sousa Pereira













