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Inferências

MEMÓRIA, TAMBÉM HOMENAGEMAté sempre José Manuel Carreira!
Por Armando Teixeira
Barreiro

Amigo é uma grande tarefa, um trabalho sem fim!”, o desaparecimento físico do José Manuel Carreira, incentiva o tempo fértil de uma elegia das recordações partilhadas que ajudou a construir e que serão também uma homenagem à sua memória.

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MEMÓRIA, TAMBÉM HOMENAGEM Até sempre José Manuel Carreira! Por Armando Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

- Boa tarde meninos! Então o que se passa, porque estão tão agitados?
Chegava a professora de Português, simpática e sorridente,com uma bata branca compondo o corpo cheinho. Os livros a sobre-colo, num jeito feminino e o sorriso bonito na cara redonda, ainda jovem, com os cabelos claros e apanhados de forma cuidada, davam-lhe um ar distinto e maternal que desarmava a brincadeira à porta da sala 27. Entrava levando atrás de si os trinta ganapos que ocupam de forma cordata os lugares pré-fixados.
- Não tivemos a aula anterior e fomos jogar à bola! - explicava o chefe de turma nomeado, pouco à vontade no papel, para o qual fora indigitado por ser o melhor aluno na disciplina, motivo de invejas e embirrações.
-Vocês têm razão! Passam demasiadas horas na escola, sem condições de recreio ou uma sala de convívio. Já chamei a atenção do senhor director.

A Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, nos inícios dos anos 60, recebia alunos de todo o concelho e dos limítrofes, “rebentava pelas costuras”, com mais de 1500 estudantes, fruto da imigração crescente e do aumento da natalidade associada.
-Hoje trouxe-vos um poema muito significativo de Alexandre O`Neil. Trata-se de um poeta contemporâneo com uma poesia mordaz, por vezes satírica, cultor duma corrente dita surrealista. Quem sabe um sinónimo de mordaz?
Silêncio na turma. Os conhecimentos da língua-mãe não eram abundantes, os hábitos de leitura escassos, a média de aproveitamento da disciplina de Língua e História-Pátria era fraca com algumas excepções. Um dedo tímido surgiu no ar na fila junto à janela:
 Sinónimo de mordaz pode ser sarcástico!...
 Correcto, Artur, muito bem, como sempre!
O rapazote magricela e espigadote, ganhava a confiança que lhe faltava por vezes, a professora Isabel O`Maury, também ela poetisa, era uma inspiração.
Surgiu outro dedo hesitante, rechonchudo como o dono:
 O`Neil é o nome da nossa professora de Desenho!?...
 Pois é, sim senhor! A vossa professora Eugénia é casada com o Alexandre . Bom espírito de observação José Manuel.
O infante gordito sorris feliz, saudado pelo olhar amistoso do Artur, o seu melhor amigo e condiscípulo.
Caminhando ao longo das filas, com uma entoação melodiosa, dizia sublimemente o poema. A professora O`Maury, era a mãe e namorada, a irmã e a mestra que os rapazes de 12, 13, 14 anos, seguiam embevecidos, despertando o gosto pela leitura, pela poesia, pela escrita:
 Ouçam então!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
[…]
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, é um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
*
Colega fraterno e cúmplice nas agruras e nas alegrias da infância e da puberdade, vivida na escola tecnocrática (era preciso tirar o curso técnico rapidamente par ir para a Fábrica!), segregadora ( os zangãos não podiam namorar as ninfas!), o José Manuel partilhou as barreiras elitistas para chegar à Universidade.
Vencendo os alçapões no Instituto Industrial ( quem falhasse uma Cadeira ìa para a Guerra!) com grande tenacidade e inteligência, fez a licenciatura num caminho longo, persistente (levaria menos três anos se fosse via Liceu!).
Objector de consciência na tropa, foi humilhado e perseguido pelo militarismo fascista que não admitia quem afrontasse de alguma forma as teias de interesses numa guerra colonial perpetuadora da exploração e escravização dos povos africanos. Também aí partilhámos agruras!

Seguindo cada qual os caminhos da vida, a relação cordial e fraterna manteve-se ao longo dos anos, em longas conversas de esquina, com as memórias fluindo a “queimarem” a nostalgia da juventude, mas sobretudo a sentenciarem um presente de alienação, sem os sonhos e a determinação da geração de 60.

“Amigo é uma grande tarefa, um trabalho sem fim!”, o desaparecimento físico do José Manuel Carreira, incentiva o tempo fértil de uma elegia das recordações partilhadas que ajudou a construir e que serão também uma homenagem à sua memória.

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